terça-feira, 15 de novembro de 2016

O marido de minha amiga ( crônica de Alma Welt)

"Uma amiga minha tinha um marido que alguns achavam mesquinho e invejoso, e não viam nele grandes qualidades, apenas a obrigatória honestidade de um pai de família. Entretanto esse homem, desenvolvendo um câncer, hospitalizado, com metástase, desenganado, demonstrou uma das maiores coragens e dignidade que já vi em alguém: não se queixou nem um pouco, em nenhum momento, e seu último desejo foi uma média com pão e manteiga na chapa. E morreu sem um suspiro, como um cordeiro." (Alma Welt)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O rapaz do livro ( crônica de Alma Welt)

Um dia, quando eu era ainda guria, meu pai recebeu uma misteriosa visita, um jovem bem vestido e com um livro na mão. Meu pai, o levou imediatamente ao seu escritório, onde ficava (e ainda fica) sua imensa biblioteca. Meu pai trancou a porta, não deixando que eu presenciasse a conversa. Eu, muito curiosa, cheguei a colar o ouvido na porta, mas não pude distinguir as palavras. Afinal quando a porta se abriu, o rapaz saiu com o livro, parou na minha frente, me olhou, e disse: "Então, tu és a Alma?" - "Sim - eu disse- E tu quem és?" O rapaz demorou uns segundos e respondeu em voz baixa: "Sou teu irmão, mas infelizmente não nos veremos mais." Tocou-me o queixo levemente com a ponta dos dedos, virou as costas e saiu para montar seu cavalo e partir. Fiquei atônita e depois pensativa por alguns dias. Então, um dia perguntei ao meu pai: "É verdade, Vati, que aquele moço era meu... irmão? E meu pai contra-arguiu: "Como? Ele te disse isso?" Não, filha, não pode ser... Ele a mim disse ser um parente distante e que quis me conhecer pelo livro que escrevi, que apreciou e veio pedir o meu autógrafo. Agora você me deixou intrigado..." Quanto a mim, resolvi naquele instante que um dia resolveria aquele mistério, porque eu sabia que meu pai podia ignorar algo, mas jamais mentir...
Aos meus dezesseis anos minha mãe morreu, e depois de um período de sofrimento e remorsos, me senti livre para ir, de alguma forma em busca de meu meio-irmão perdido, de que me dei conta de que nem sequer sabia o nome. Mas perguntando ao meu pai ele se lembrou pois fizera uma dedicatória a ele no livro, o que o ajudou a lembrar: Bruno, e com alguma dificuldade o sobrenome, Álvares, certamente de sua mãe. Eu me lembrava de seu belo rosto, e na verdade, isso me atraíra e agora mais me motivava. Precisei de um ano e meio de pesquisas, começando por interrogar meu pai quanto ao seu passado, o que não chegou a ser constrangedor, devido à grande abertura que ele tinha comigo, pela nossa imensa afinidade. Então, um dia, já com dezoito anos, pude fazer uma viagem a Porto Alegre para encontrar o irmão que eu já sentia amar. Cheia de emoção, toquei afinal a campainha de um predinho de seis andares e ouvi uma voz feminina perguntando quem era. " Sou Alma", respondi, "quero falar com o Bruno". A porta se abriu com um zumbido, entrei e subi quatro andares pela escada. Ao chegar, a porta estava aberta e uma bela moça com um bebê no colo me recebeu com lágrimas nos olhos. Estendeu-me a mão e me abraçou com o bebê e tudo, soluçando. Eu tinha chegado tarde demais...
Letícia, era o seu nome, e depois do comovido abraço me fez entrar e sentar-me num modesto sofá. O bebê começou a chorar e ela o balançava e andava um pouco de um lado para o outro. Quando o bebê se acalmou ela o levou para o quarto, o colocou no berço e passado uns minutos voltou e sentou-se numa poltrona à minha frente. "Pois é, Alma... Bruno se foi..." E caiu em prantos novamente! Atônita eu perguntei: "Mas o que foi que aconteceu?". Letícia enxugou os olhos com as palmas das mãos, e disse: "Pra mim, é como se tivesse morrido... " Confesso que suspirei aliviada, Bruno estava vivo! Eu precisava saber o que estava acontecendo... aliás eu precisava saber tudo, desde o começo, pois na verdade eu não sabia nada. Não sabia de sua mãe e dele depois da aventura que meu pai acabou me contando alguns meses antes.O Vati me confessou que quando jovem tivera uma fase de boemia em Buenos Ayres e sendo um amante de ópera e frequentando o Teatro Colón acabara conhecendo uma soprano de coro, muito bela e tivera um caso fugaz com a moça. Quando o caso acabou, depois de alguns meses, por infidelidade de ambos, meu futuro pai voltou para o Vale do Itajaí onde se casou com minha mãe, Ana Morgado, da colônia açoriana, sua namorada de adolescência, e se aquietando, resolvido a ser fiel para o resto de sua vida. Muita água correu até meu pai mudar-se com minha mãe em final de gravidez para Novo Hamburgo, numa viagem de carro onde nasci na relva do acostamento, num parto natural em que meu pai foi o parteiro, cortando o cordão com um canivete suíço desinfetado com Steinhegger, numa despedida de meu pai a essa bebida, que ao que parece, o desviara bastante na juventude. Ele nada mais soube de sua breve amante, e minha mãe nunca soube dessa aventura de meu pai. Para ela a fase de Buenos Ayres era como uma um pouco longa despedida de solteiro de seu noivo. Mas... voltando àquele momento, eu precisava saber o que acontecera, já que meu irmão, ao que parecia, estava vivo e desaparecido...
Finalmente, Letícia se dispôs a contar o que acontecera com Bruno. Ela disse: "Estávamos vivendo bastante mal desde que o bebê nasceu. Faltava dinheiro, Bruno não ganhava o suficiente com seus escritos para um jornaleco, vivia insatisfeito, frustado, e brigávamos a todo momento. Foi então que apareceu aqui um rapaz que disse ser seu meio-irmão, um aventureiro cheio de charme e sedução, vivia do jogo de poker e viajava pelo mundo, de cassino em cassino e dizia ganhar fortunas.Exibia grandes rolos de notas." (Tive um arrepio! A descrição batia com o perfil de Rodo, meu irmão...) "Como se chamava esse guri?"- perguntei ansiosa. "Rudolph", ela disse. "Bruno estava hipnotizado e resolveu partir com ele, à aventura, para fazer fortuna com o poker, veja só... Seu desespero se juntara ao fascínio daquele demônio, que prometia ensinar todos os truques que lhe trariam fortuna e também o glamour de uma vida tão diferente deste pequeno apartamento e do nosso cotidiano. Não consegui convencê-lo de que aquilo tudo era um sonho. A Ferrari vermelha estacionada lá em baixo, à nossa porta, superava os meus argumentos. E ele, um dia se foi. Eles se foram juntos, e já faz um mês que não tenho notícias de Bruno. O tentador o levou... "
Eu estava estarrecida, Rudolph é o verdadeiro nome de Rodo, meu irmão, que cresceu junto comigo. Praticamente só eu o chamo assim desde crianças. Sua natureza de aventureiro e jogador só não foi considerada irresponsável pela família devido ao seu sucesso como jogador excepcional, mestre do blefe. Sim, por ser bem sucedido, isto é, ganhar muito dinheiro . Mas também devo dizer, por ter uma boa índole e um grande coração. E Isto eu podia testemunhar. Nada estava perdido. Não fora o demônio, fora um anjo destemido e aventureiro! Os irmãos estavam juntos! Eu ofegava, de alívio e alegria. Gritei de repente: "Letícia, nada temas! Teu Bruno voltará, com muito dinheiro! Eu sei, eu sei!" enquanto a abraçava, loucamente..."
Letícia, espantadíssima, por um momento me repeliu, pensando estar diante de uma louca. Mas eu disse: "Letícia, minha irmã... Posso chamá-la assim? Rudolph é o meu irmão Rodo, e ponho minha mão no fogo por ele. Os irmãos estão juntos! É tudo verdade, o ciclo se fecha! Deus é grande! Vê: O sangue se atrai, as almas também! Eles tinham que se encontrar. Rodo sempre esteve um passo à frente de mim, no fluxo da vida. Eu fui sempre a retaguarda, a testemunha, escrevendo, escrevendo. Eu mesma fui com Rodo por algum tempo pelos cassinos, em aventuras, perigosas às vezes, confesso. Mas ele me protegia como um anjo, e voltei sã e salva. Não era a minha verdadeira natureza, e renunciei a essa vida de aventuras. Mas se Bruno é um escritor, também renunciará, voltará. Não temos a natureza de pessoas de ação. O importante é que Rodo o protegerá daqui por diante, e a ti e ao teu bebê também. Eu garanto. Eu mesma quero protegê-los também, como meus novos irmãos. Aceitas? " 
Leticia, relutantemente, gradativamente, se deixou abraçar. E juntas fomos olhar o bebê, que dormia lindamente no berço...
FIM

sábado, 17 de setembro de 2016

A hospedeira mineira (crônica de Alma Welt)

Minha hospedeira mineira me falou assim no café da manhã: "'De madrugada, acordei sem sabê porquê, tive uma insônha, o galo cantava, o cachorro latiu, levantei fui até a cozinha. Tinha umas brasa no fogão, acendi um pito, tinha um poco de café frio no bule dei uma requentada, botei na caneca e fiquei ali na porta aberta da cozinha olhando o terreiro escuro, nevoado, fiquei ali assuntando, assuntando, a névoa foi baixando, as estrelas aparecero e umas nuvens; sapos cantando, grilos cricrilando, as galinhas ciscando... Vai chuver, não vai chuver...Tava loca procê acordar pr'eu falar dotros assunto!... (Alma Welt)

Egotista Sublime (crônica de Alma Welt)

"Escrever é a suprema afirmação do eu... do ego, se quiserem. Por isso quase todo mundo escreve, inclusive alguns analfabetos. Entretanto, paradoxalmente, os melhores livros são os que escondem o ego do autor e dão vida a personagens totalmente diferentes dele mesmo. Sou insuspeita para dizer isso pois sou uma escritora confessional, sempre na primeira pessoa, falando sempre de mim. O que me justifica? Descobri com o famoso crítico inglês Herbert Reed (já falecido) que pertenço a um tipo de poeta classificado por ele como " o egotista sublime" , isto é, parto de mim mesma para atingir uma universalidade. "Fale com profundidade e graça de sua aldeia e conquistarás o mundo inteiro". Fale de si com absoluta sinceridade e desnudamento, e atingirás o universal..." (entrevista com Alma Welt)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Os segredos da biblioteca de meu pai

"Ainda quando criança, eu costumava entrar na biblioteca de meu pai, escondida, quando ele não estava em casa, para olhar as lombadas dos livros e descobrir alguma coisa espantosa, uma espécie de segredo camuflado. Bem... quase tudo o era. Eu retirava aleatoriamente ou pelo titulo sugestivo, somente um deles da estante, de cada vez, e o folheava a esmo lendo algum parágrafo. Era como olhar por uma fresta, o mundo se abria. Eu iria ler tudo, eu me prometia. E eu iria escrever também, porque não poderia haver nada mais secreto. E os segredos, me parecia, eram feitos para serem descobertos por pessoas como eu, que prometia passá-los adiante sem traí-los..." (Alma Welt)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Pensando a vida (Crônica de Alma Welt)

"Penso muito na vida e no mundo de uma maneira geral, não pessoal, isto é, com um distanciamento senão crítico, de espectadora. Me parece sempre que estou do lado de fora, e que a minha vida mesma pertence a uma outra esfera, mais monótona, bucólica e de uma solidão romântica às vezes dolorosa. Não sei porque sou assim, pois, afinal, tendo duas irmã mais pragmáticas e um irmão ousado e aventureiro, não deveria me sentir assim, fora do mundo verdadeiro, como se vivesse num sonho plausível, ligeiramente melancólico. Rodo, meu irmão, muitas vezes me arrastou para aventuras, na nossa infância, em que eu não me entregava totalmente, talvez por causa da minha admiração por ele, por seu entusiasmo e simplicidade. Minha natureza de poeta e escritora sempre foi contemplativa, e me impede de me integrar com o ambiente humano ao meu redor. Serei uma romântica como George Sand como escritora? Estarei vendo este Pampa e estes peões que me circundam, "os gáltchos" e gaudérios, de maneira idealista, ou mesmo folclórica? Não sei... O mundo vai julgar. Sei que sou sincera e derramo as palavras como elas me vêm, embora cultivadas e não rudes como esses simpáticos machões que me circundam, com suas falas altas e sonoras, com sua bombachas, bigodes e chimarrões. E até com seus sinistros punhais adormecidos nas faixas que envolvem suas cinturas..." (Alma Welt)

Minha vida dentro da Alma (crônica de Alma Welt)

"Quando guria eu pensava no Mundo como algo que só existia muito longe de casa e do qual eu ficava sabendo pelos livros, isto é, pelos romances. E o mundo era muito grande, variado, e abarcava todas as épocas ao mesmo tempo. Isso, como sensação, me acompanhou a vida toda, pois me sinto sempre preenchida de todos os séculos, simultaneamente, desde a era dos egípcios, gregos e romanos. Báh! Dos Judeus também... Gosto muito de Adão e Eva, que me comoveram bastante. Eu os teria acolhido, expulsos que foram injustamente por uma besteirinha do roubo de uma fruta, assim pensava eu... Mas eu gostava mesmo era do Odisseu, com cujo espírito aventureiro eu me identificava ao mesmo tempo que com a Penélope que ficava em casa fiando e esperando. Me parecia ser um e outro "simultaneamente", embora eu não conhecesse essa palavra. Muito mais tarde vim a compreender que esse era o meu dom e maldição, que me fazia viver de verdade, quero dizer, intensamente, somente através da Arte, como se num arremedo da vida, num palco de minha própria alma..." ( Alma Welt)

A Espera (crônica de Alma Welt)

"Quando criança perguntei ao meu pai: "Vati, o que é Esperança? Eu vi essa palavra num livro, mas acho que não entendi bem o que ela é... " Meu pai parou um pouco o que fazia, me olhou e disse, ternamente como sempre: "Alma, a Esperança é um sinal de que a gente não está feliz..A gente só sente esperança quando as coisas não vão nada bem e estamos esperando alguma mudança. Não é o teu caso... É, filha?" Eu pensei um pouco e acho que menti: "Não, Vati, só me lembro de esperar o Natal quando ele está perto. Mas é para ficar mais alegre ainda." Meu pai me olhou lindamente e passando a mão no meu rosto, ficou embargado, eu vi nos seus olhos..." (Alma Welt)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Encontro na coxilha (crônica de Alma Welt)

"Uma vez, aos dezesseis, caminhando pela coxilha, um peão gaúcho me alcançou e me segurou forte os dois braços. Encarei-o com tanta intensidade hostil que ele me soltou, virou-se e foi embora. Permaneci extática e esperei ele estar longe, para então desmaiar. Fui encontrada pelo fiel Galdério que me trouxe nos braços desfalecida. Cabeças deveriam rolar, por assim dizer, mas o peão era um estranho, um forasteiro, não foi encontrado. Quanto a mim, tal esforço me custou três dias de cama. Difícil foi convencer a Mutti de que eu não fora estuprada, e restabelecida, me convenci de ser muito forte. Continuo passeando na coxilha até hoje, e nadando sozinha no "poço da cascata" como quando criança, com Rodo, confiante de que um raio "não cai duas vezes..." ( Alma Welt)
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Nota
Em 20 de Janeiro de 2007, a grande poetisa Alma foi encontrada morta, afogada, no poço da cascata, nua, com uma corda no pescoço ancorada a uma grande pedra. Estava no auge de sua beleza e talento. Até hoje existe dúvida se foi assassinato ou suicídio. Um grande mistério, por não haver no corpo sinais de estupro. A marca vermelha no pescoço, atribuída à corda e os arranhões na parte interna dos antebraços foram creditados pelos técnicos da policia ao escorregar da pedra ao ser largada, e não a uma desesperada luta. O velório nu da Alma sobre a mesa da sala do casarão, constituiu-se uma das coisas mais espantosas e inacreditáveis acontecidas no Rio Grande do Sul, mas atualmente é considerada um Mito, como de resto, a própria passagem da poetisa por este mundo. (Guilherme de Faria)
Visão (de Alma Welt)
Ser a musa eternizada do meu pampa!
Cantar, celebrar e endoidecer
De tanto amar até saltar a tampa
Do coração e da mente, e então morrer!
Nua, estranhamente, sobre a mesa
Estendida me vejo, uma manhã:
Um desfile silencioso me corteja
De peões, peonas e algum fã.
Mas olho o meu corpo de alabastro,
Absurdo e belo ali, e não à toa
Eu noto algo nele que destoa:
Sobre a alvura do pescoço bailarino
Uma faixa vermelha como um rastro
Da corda que selou o meu destino..
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quinta-feira, 18 de junho de 2015

A morte de um gaúcho (crônica de Alma Welt)

"Um manhã, quando eu era guria, vagando como de costume pela coxilha não muito longe do casarão, vi ao longe um cavalo selado, de cabeça baixa sem o seu cavaleiro. Intrigada, andei até lá e deparei com o corpo caído de um gaúcho . Ele estava morto, ostentando uma ferida no peito. Fiquei uns minutos ali, mais curiosa que perplexa, e então voltei ao casarão para avisar meu pai. De noite percebi minha mãe, a Açoriana, andando no corredor e abrindo levemente a porta do meu quarto para me observar. Eu estava insone, mas não, eu não tinha medo, mas uma curiosidade imensa de desvendar aquele enredo, assistindo àquele duelo e seus desdobramentos em minha mente..." ( Alma Welt)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O tamanho do mundo (crônica de Alma Welt)

"Uma vez, quando ainda era uma guriazinha fugi de casa, de manhã, para "conhecer o mundo". Atravessei o portão do jardim, depois a porteira e fui andando pela estrada da coxilha. Andei e andei, tanto que fiquei exausta e com fome. Sentei na beira da estrada e chorei de decepção do mundo e vergonha de mim mesma. Até que chegou o Galdério, de charrete, e me tirou daquela enrascada, dizendo com naturalidade: "Alma, vim só lembrar-te que está na hora do almoço. Vou voltar já. Queres uma carona?"
Meu fiel charreteiro era realmente sutil..." (Alma Welt)
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O tamanho do mundo (de Alma Welt)
Guria andei sozinha numa estrada
Aqui mesmo na estância, para ver
Aonde ela ia dar, e desastrada
Não cogitei da confusão que ia fazer.
Andei por uma hora e não acabava,
E já passava da hora de almoçar.
Pensei: mais uma hora pra voltar...
E sentando à margem mais chorava.
Então vi o Galdério na charrete
Que a mando do meu pai me procurava
E conhecia muito bem esta pivete
E levantando e enxugando o ranho
Eu disse: "Ah! Galdério, eu não contava
Com que o mundo tivesse esse tamanho..."

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Meu pequeno vigilante (crônica de Alma Welt)


"Tenho o hábito de acordar bem cedo e vagar pela coxilha que cintila lindamente em reflexos prateados seu orvalho da madrugada. Numa manhã dessas topei com um negrinho aqui da estância que me fazia pensar no Negrinho nosso do Pastoreio, embora nunca esteja pastoreando nenhuma rês. Ele disse logo: "Bom dia Dona Alma. Eu vejo a senhora de manhã todos os dias, mas me escondo atrás dos cupins por isso a senhora não me vê. Hoje tomei coragem e não me escondi." Surpresa, eu disse sorrindo: "Bom dia, Raimundinho! Mas que negócio é esse de me observar escondido? Não sabes que isso é feio?" Então ele sorriu meio envergonhado e respondeu: "Ah! Dona Alma... É que assim eu penso que estou protegendo a senhora, porque de perto e de frente é como se a senhora é que estivesse me protegendo, e não é certo." Fiquei olhando pra ele, comovida de ver que ele se conhecia tanto, capaz de expressar uma coisa como essa, que resumia toda a sua dignidade e fidelidade, com as quais eu poderia sempre contar..." (Alma Welt)

domingo, 24 de maio de 2015

Um segredo de meu pai (crônica de Alma Welt)

"Após a morte de meu Vati, fugi da estância, exilei-me muito longe, na cidade de São Paulo por quatro longos anos. No retorno passei a investigar no casarão, mais precisamente na biblioteca e escritório, as pegadas de meu pai, sua vida secreta de que eu suspeitava, seus segredos... Descobri na sua correspondência uma carta dele a um amigo, que revelava que ele tinha pelo menos uma outra filha de uma relação antiga, a qual ele nunca mencionou e que foi criada longe de nós pela mãe. Depois do choque tratei de por-me em campo para encontrar essa minha irmã. A primeira pessoa que interroguei foi, naturalmente, a nossa fiel Matilde, uruguaia de origem e nossa cozinheira, antiga na família e que fora minha babá. Matilde então disse: "Alma, esperei pacientemente este dia, porque prometi ao teu pai manter segredo durante sua vida, e que só revelaria a ti se fosse interpelada a esse respeito. Tua irmã é filha de uma cigana com quem teu pai viveu uma tumultuada paixão quando jovem. Não estranhavas que teu pai deixasse que os ciganos acampassem reiteradas vezes aqui na estância, para indignação dos estancieiros vizinhos, sempre ali junto do bosque? Tu os visitava desde guria, provavelmente conheceste tua irmã sem saber..." Arrepiei-me toda... Rafisa! Minha estranha atração por aquela bela e enigmática cigana! Nossa mútua fascinação, nossa inefável química... nosso amor! Só podia ser ela! Entretanto, nômade que era, minha irmã estava sumida no mundo." (Alma Welt)

domingo, 17 de maio de 2015

Códigos (crônica de Alma Welt)

"Um peão gaúcho, desconhecido, aproximou-se de mim a cavalo na coxilha, diante da nossa porteira, tirou o chapéu e disse querendo ser galante: "Buenas, prenda, quem é o peão macho que dá ordens por aqui? Já vi beleza, mas não vi uma bombacha até agora..." Olhei-o nos olhos e respondi: "Buenas, senhor, mas aqui os machos são servidores. Dê a volta por trás e fale com o meu capataz se quiseres emprego. Ele "le" reenviará a mim depois de uma primeira avaliação de macho para macho". O gaúcho sorriu, colocou o chapéu, o tocou, afastou-se e fez a volta em direção ao curral onde estaria o nosso Galdério. De longe observei-lhes a postura tensa e seu nada sutil código corporal de "machos". Dei um suspiro e continuei a colher flores." (Alma Welt)

domingo, 29 de março de 2015

O Ponto Mais Alto (crônica de Alma Welt)


"Uma vez, numa mesa de amigos num café em Porto Alegre, um de nós, que não eu, disse: "Perdoem os pintores, cineastas, músicos e etc, mas o Poeta é o mais alto da humanidade". Outro logo retrucou: "Não, estás totalmente enganado: o Santo é o mais alto". Começou uma acalorada discussão razoavelmente erudita entre aqueles dotados amigos, enquanto eu permanecia quieta, perplexa... "E tu, Alma? O que achas? Qual o ponto mais alto?" Respondi então: "A mãe. O coração maternal." Foi como água na fervura. Não esperavam algo assim, logo de mim que nunca me entendi bem com minha mãe e idolatro meu pai, como eles sabiam. Então um deles segurou minha mão carinhosamente, e virando-se para os outros levantou o copo e disse: "Vamos brindar a este momento, e à amizade que é o ponto mais próximo que, por ora, podemos chegar de um tal coração!"
Uma gargalhada geral distendeu os intelectos, e talvez também os corações..."
(Alma Welt)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O reino feliz de meu pai (crônica de Alma Welt)

 
Quando eu era guria, havia uma vizinha estancieira velha que explorava os seus empregados. Falecidos os meus avós, meu pai passou a pagar melhores salários aos nossos "gáltchos", acima dos praticados nas estâncias vizinhas, o que provocou uma corrida ao nosso casarão. Alguns peões abandonavam seus velhos patrões ou vinham escondidos sondar a possibilidade de novo emprego com meu pai, que frequentemente os dissuadia, por não dar conta de absorvê-los. Então, aquela velha estancieira montada a cavalo veio até diante de nossa varanda, ataviada como um gáltcho, de bombacha, botas, esporas e faixa com punhal de prata na cintura, chapéu de barbicacho, aba dobrada na testa. Sem apear-se, com um relho na mão (a outra na cintura) apontou-o para o meu pai ( este imponente, nunca me esquecerei, de pé na varanda) e disse-lhe alto:
-"Senhor "boche", o senhor está inflacionando os salários e roubando-nos nossos empregados. Isso é contra a lei, pare com isso ou vou à polícia, vou ao governo do Estado se preciso. O senhor está avisado!"
Olhei para o meu pai, esperando sua resposta, mas ele, impassível, nada disse. Para meu espanto tocou apenas o chapéu como um cumprimento e ficou vendo a velha se afastar arrogantemente. Eu era pequena e apesar de minha curiosidade, nunca soube o que aconteceu depois, já que meu pai não perdeu nem uma noite de sono, isso eu percebi. Como contornou ele a delicada a situação?
Muitos anos mais tarde perguntei diretamente a ele, que tomou um ar distante e disse lentamente:
- "Báh! Filha, aqueles foram tempos difíceis, de batalhas e escaramuças... muito sangue correu, mas estabelecemos nosso reino de cidadãos felizes."
E piscando-me um olho sorriu para mim, aquele sorriso maravilhoso...

(Alma Welt)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

De morrer de rir (crônica de Alma Welt)

"Quando eu era guria, correu a notícia na nossa estância, que um peão nosso de meia idade, morrera de infarto de tanto rir de alguma coisa numa roda de charla e chimarrão. Perguntei a meu pai se aquele fora um homem feliz. Meu pai respondeu: "Provavelmente não, Alma. É preciso muito desespero para se morrer de rir... " (Alma Welt)

O Livro do Segredo (crônica de Alma Welt)

 
"Quando criança, admirada com a quantidade de livros na biblioteca de meu pai, perguntei a ele se os tinha lido, todos. Ele sorriu e disse que sim. Então perguntei: Você gosta assim, tanto, de estórias? Ele riu e disse:" Alma, eu leio para ver se descubro nalgum livro, num linha que seja, a solução de um mistério: o significado da Vida". Eu insisti: "Então você ainda não descobriu? Eu vou descobrir! Por onde devo começar?" Ele parou um pouco, começou a retirar a "Bíblia Sagrada" da estante, mas voltou a recolocá-la no lugar. Então puxou "Alice no País das Maravilhas" e me deu, dizendo: "Este livro não contém soluções, como todos, somente enigmas. Mas é um bom começo. Quando você for um pouco mais velha, te darei para ler um livro que chegou muito perto da solução, este aqui... e mostrou a capa do "Os Irmãos Karamazov". Não dei mais sossego a ele, até poder ler aquele livro."

quinta-feira, 20 de março de 2014

De Herodes a Pilatos (crônica de Alma Welt)

"Um dos episódios mais curiosos do Evangelho, é que o Poncius Pilatos, representando a "justiça romana" não viu perigo nenhum em Jesus e tentou descartar-se de julgá-lo, enviando-o a Herodes, que o mandou de volta a Pilatos. Então diante da pressão dos sacerdotes do Templo, Pilatos ainda acolheu a idéia de fazer o povo escolher entre Barrabás e Cristo. Tendo o povo escolhido Barrabás, um ladrão ...(o povo sempre escolhe ladrões), lavou a mão do sangue daquele "justo". Fica claro que os romanos não viam perigo num homem que dizia sobre os impostos: "Dai a Cesar o que é de Cesar (e a Deus o que é de Deus)". Cristo não era político. Era superior demais para deter-se sobre a questão política, sempre sórdida afinal..." (Alma Welt)

O piano romântico de meu pai

"Quando muito jovem, voltando para casa depois de um passeio pela coxilha ouvi o som do piano de meu pai tocando um peça de Chopin. Um certo trecho daquela música maravilhosa me deu a súbita consciência de minha própria alma romântica. Nunca mais a reneguei, apesar da minha tendência inata à ironia, que muito tempo depois percebi ser um ingrediente não desprezado pelos melhores românticos, sobretudo os alemães, meus antepassados..." (entrevista com Alma Welt)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O que é a vida? (mini-crônica de Alma Welt)

"Quando guria, de uns dez anos, perguntei ao meu pai: " Vati, o que é a Vida?" Meu pai me olhou longamente com ternura e disse: "Filha, que coincidência! Também me faço essa pergunta! Vamos tentar descobrir isso cada um por seu lado, depois comparamos nossas respostas daqui a alguns anos. Combinado?" (Alma Welt)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Natureza humanizada - (mini-crônica de Alma Welt)

"Esta noite sonhei com a Natureza estranhamente humanizada. No mar da ignorância despontavam aqui e ali algumas ilhas de conhecimento. Nelas, alguns vulcões de sabedoria repousavam silenciosos. Mas o problema eram os vulcões ativos da arrogância e da prepotência. Então o sonho virou pesadelo e... acordei." (Alma Welt)

O Horizonte Vermelho - mini-crônica de Alma Welt

"Quando eu era guria, ainda em Novo Hamburgo, antes de nos mudarmos para o Pampa, para a estância, nosso quintal terminava num alto muro, que era todo o meu horizonte. Para além do muro, eu e Rodo, pequenos aventureiros, acabamos por descobrir que era o quintal de uma casa suspeita, de luz vermelha. Contei isso num pequeno conto. Mas o que quero agora lembrar é como o meu primeiro poente vermelho num horizonte distante, sem fim, mudou minha alma, como que descomprimindo-a, alargando-a. A alma... é como a água que toma a forma do vasilhame que a contém. Devo, pois, reconhecer que a Poesia já estava em mim, no meu limitado jardim que acabava no muro..." (Alma Welt)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Passagem de ano na estância (mini-crônica de Alma Welt)

"Na estância, nunca soltamos fogos na passagem de ano. Respeitamos nossos cães e os animais em geral. Ficávamos no jardim, olhando as estrelas que são os verdadeiros fogos silenciosos de Deus. Então, à meia noite em ponto o Vati (papai) punha no toca-disco, em alto volume, o coral da Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven. Então nos abraçávamos e fazíamos um brinde com taças de champanhe. Terminada nossa cerimônia familiar bem germânica, começávamos a ouvir as gaitas dos gaúchos no seu fandango no galpão e todos corríamos para lá, encantados, para ouvir e ver os chamamés e as chulas, o desafio gaúcho. Meu coração dividido não sabia o que mais amar..." (Alma Welt)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Uma alegoria da vida (mini-crônica de Alma Welt)

"Quando eu era muito jovem, numa brincadeira de salão, instada a fazer com palavras uma alegoria da vida, só me veio à mente um barco furado, fazendo água, em alto mar, que estamos buscando ansiosamente esvaziar com nossas mãos, um balde ou um chapéu, sempre com a praia à vista, mas muito longe. Minha alegoria causou imediatamente protestos dos amigos, taxada de intolerável pessimismo. Agora, passados muitos anos, me parece que minha alegoria não representa necessariamente um derrotismo, mas nossa invencível esperança..." (Alma Welt)

sábado, 19 de outubro de 2013

Uma Teoria Biológica da Guerra (crônica de Alma Welt)

 
"Lembro-me que meu pai, médico, cientista, costumava comparar a humanidade, ou a sociedade humana e suas guerras, com as placas de cultivo de bactérias em laboratório e o comportamento delas ao produzir antibióticos uma contra a outra, quando duas culturas de espécies diferentes eram colocadas confluentes na mesma placa. Tratava-se, dizia ele, de disputa por "espaço vital". Ele queria dizer que a guerra era um processo natural de equilíbrio demográfico entre as espécies na natureza. Me lembro também que tais exemplos me impressionavam e convenciam, mas me deixavam perturbada. Esses dados reais, científicos, reduziam nossa humanidade à nossa natureza biológica e faltava, por exemplo, o mistério sublime de um Bach, de um Beethoven, de um Mozart, de um Chopin, ou do violino virtuose de um Yehudi Menouhim ou um Sacha Heifetz, do piano de um Arthur Rubinstein, que ele punha no toca-discos. Demorei para harmonizar dentro de mim estes dois conceitos, o da animalidade e o da espiritualidade, que na verdade, juntos constituem o mistério da natureza humana. Mas, com o tempo, percebi que a arte nasce justamente dessa aceitação, de uma imensa e universal aceitação, e raramente de uma indignação moral..." (Alma Welt)

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Mistério das partidas (crônica relâmpago de Alma Welt)

"Quando o trenzinho ainda ligava as cidades do meu pampa, nas pequenas estações de espera e chegada a vida parecia fazer mais sentido do que agora. Eu não questionava senão o mistério e a pequena dor das partidas..." (Alma Welt)

Sobre os que sonham com o Céu ( mini-crônica de Alma Welt)

"Meu pai, o "Vati", como eu o chamava, era ateu e não deixou minha mãe, a "Açoriana", batizar-me. Criou-me como uma pequena pagã, cercada das estórias de deuses e mitos, com a intenção de moldar-me como uma obra de arte clássica. Entretanto, como era um erudito e fundamentamente um romântico alemão, disse-me um dia: "Alma, não desprezes os que sonham com o Céu. Afinal esse sonho criou grandes obras que podemos reverenciar, e que foram feitas por artistas profundamente devotos. Quem somos nós para menosprezá-los? A ingenuidade, em sua pureza, cria mundos sublimes que o simples medo não logra construir. Quisera eu ter a fé de tão grandes artistas... " (Alma Welt)

O Gaúcho Fiel ( mini-crônica de Alma Welt)

O gaúcho montado se aproximou de mim na coxilha e disse: "Patroinha, tem um marrão solto nestes pastos e o Patrão me pediu que vigiasse vosmecê." - "Que dizes, Ubaldo?"- exclamei. "O patrão morreu faz um ano! " Ele retrucou: " Sim, patroa, mas as ordens dele eram tão boas que continuam..." Não pude deixar de sorrir. (Alma Welt)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

As Doze Badaladas da Meia- Noite (mini-crônica de Alma Welt)

“Nada mais sinistro do que as doze badaladas da meia-noite no antigo relógio de pêndulo da sala do velho casarão de nossa estância. Guria, eu ficava acordada aguardando-as na esperança de rever meus fantasmas prediletos: Bento Gonçalves, Netto, Anita e o italiano... E eles me apareciam às vezes, acreditem ou não. Mas também surgiam alguns intrusos que presumo saíam da minha própria sombra. Se esse era um preço difícil de pagar, tudo isso me dava a medida da misteriosa alma humana, que seria a matéria viva da minha poesia...” (Alma Welt)

Diante de minha mãe morta (micro-crônica de Alma Welt)

"Quando guria, diante do corpo de minha mãe morta, observando os parentes dei-me conta do absurdo de se falar com um cadáver ou mesmo de pranteá-lo. Percebi que minha mãe, a Açoriana, já não estava ali... e isto era o mais terrível, porque nós nos desperdiçáramos..." (Alma Welt)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Recusa ( mini-crônica de Alma Welt)

"Uma vez meus pais receberam para o almoço um político aqui na estância. Eu era adolescente e recusei-me a sair do quarto e participar daquela hospitalidade. Naturalmente fui punida por minha mãe pela desfeita, tanto mais que ela tinha feito diante da visita loas ao meu talento (que na verdade a desagradava) e beleza. Mas me lembro como me senti bem, com orgulho de mim e sobretudo muito íntegra, no castigo..." (Alma Welt)

sábado, 23 de março de 2013

Um Covil de Bandidos (mini-crônica de Alma Welt)


Um ano antes do Vati* morrer, uma manhã, no casarão, me aproximando da biblioteca de meu pai, parei atrás da porta e fiquei escutando o diálogo dele com meu irmão Rodo. Ele dizia: "Rudolf, meu filho, você me diz que esse senador que te telefona a toda hora tu conheceste numa mesa de poquer? Pára com isso, meu filho! Tu precisas parar de andar com esse sujeito. O Senado da República é um covil de bandidos. Tu precisas parar de andar em más companhias!" Rodo ouviu calado e então disse: "Sim, Vati. Não me custa. Depois, ele não blefa, o que é normal, mas sim rouba descaradamente no jogo. Os companheiros brincam que é preciso esconder as carteiras quando ele chega... " (Alma Welt)

domingo, 10 de março de 2013

“Discute-se a crise energética no mundo todo, e cogita-se em fontes alternativas de energia. Entretanto, como Dante Alighieri enunciou que “o Amor move o sol e as outras estrelas”, tomo ao pé da letra que a questão energética poderia ser resolvida pelo Amor, qualquer que seja a maneira de entendermos sua forma de atuação.” (entrevista com Alma Welt)
“Quando guria eu vivia em lágrimas pela beleza de quase tudo. Uma irmã me chamava de “manteiga derretida”, a outra me abraçava ternamente, condoída. Nenhuma das duas podia realmente me compreender. Minha mãe, a bela Açoriana, abanava a cabeça. Meu pai, o Vati, me observava calado, eu não precisava me preocupar, ele me conhecia...” (entrevista com Alma Welt)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

As bombachas bordadas do Tempo (mini-crônica de Alma Welt)

"Um velho gaúcho a cavalo, me encontrou vagando na coxilha a contar sílabas. Estacando sua montada, tirou o chapéu e disse: "Buenas, prenda! Pelo jeito sabes contar, talvez até escrever... deves ser filha de gente fidalga... Estou procurando a Sta Gertrudes, antiga Farroupilha. Pelo porte... deves ser a patroinha, pois não?" Olhei os seus velhos olhos azuis, o rosto enrugado, o bigodão branco caído, suas bombachas bordadas, e... vi que era o Tempo! Não tive palavras e o segui com os olhos, enquanto sorrindo ele se dirigia à minha casa..." (Alma Welt)

sábado, 17 de novembro de 2012

O Tetrarca (de Alma Welt)


"E assim o Tetrarca, no alto da montanha, falou à multidão: "E tu, homem massa, prisioneiro da matéria e dos trabalhos servis, que te acotovelas nos coletivos e nos estádios... que és escravo dos poderosos e suas leis que amiúde transgrides sob duras penas; tu a quem tão pouco será dado por teu esforço e sacrifícios... tu terás a compensação dos jogos, da música vulgar que escolheres, das orgias das cores, ritmos e nudez, e da embriaguês e do sexo dos quais abusarás! Tu, dominarás a terra com o poder de que não te apercebes e do qual, manipulado, não usufruis, acéfalo que és e serás até o dia do Juizo, quando então serás retirado da multidão, individualizado e julgado por teus méritos, os que praticaste na Solidão que também te coube! Vai, continua, homem massa!" (Alma Welt)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O que é a Felicidade

"Uma vez, quando guria, perguntei ao meu pai: "Vati, o que é a felicidade?" E ele me olhando profundamente disse: "Alma, tua pergunta me entristece. Se precisas fazê-la é porque ainda não a conheces. Mas, olha, não adianta procurá-la. Também não a espere. Um dia ela se apresentará expontaneamente a ti, e tu a reconhecerás, já estava dentro de ti..." (Alma Welt)

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ouro no Cascalho (mini-crônica de Alma Welt

Vocês já repararam num tipo de sonho que ocorre com frequência em nosso sono noturno, absolutamente banal, realista, mesquinho, sobre trivialidades muitas vezes técnicas, afinal idiotas, e que parece podermos conduzir sem levar a bom termo? Eu os chamo de "falsos sonhos"... Nitidamente sem nenhum caráter simbólico, somente sua finalidade permanece misteriosa. Entretanto se passam no inconsciente pois vão se evolando também, como os sonhos interessantes, ao acordarmos, e se dissipam. Não conseguimos mais lembrar do que se tratava, restando somente a impressão de sua absoluta falta de propósito. Nunca ouvi menção a eles nos tratados de psicologia, e eu hesitaria, por vergonha, em levá-los a um psicanalista, se o tivesse. Imagino que um analista diria que os estou subestimando e que deveria me esforçar para lembrá-los e trazê-los às sessões, e que os estou recalcando justamente por sua importância... Mas não. Creio que o nosso inconsciente também armazena bobagens, futilidades. Sua riqueza é como ouro no cascalho. (Alma Welt)

terça-feira, 13 de março de 2012

A Cordinha (crônica de Alma Welt)

Quando fui internada na Clínica ....* , como todo paciente, perdi a minha autonomia e liberdade, e era tratada de maneira indisfarçada, como louca. Eu tinha sido encontrada a vagar pelo meu bosque, esfarrapada, seminua e arranhada. A primeira providência depois das doses cavalares de tranquilizantes ou anti-depressivos (e um invasivo exame de corpo de delito) e o diagnóstico antiquado de "ninfomania" e histeria (!!) foi enfiarem-me num camisolão informe, sem cintura, e calçarem-me umas pantufas infames. Senti que o objetivo, consciente ou não, era enfeiar-me, tornar-me disforme, como um castigo. Então descalcei-me para exibir meus belos pés, e procurei uma cordinha qualquer para passar na cintura para ficar menos deselegante. Foi-me peremptoriamente negada pelas enfermeiras com olhares de desconfiança, e mesmo de censura. Cordas e cintos jamais! Então rasguei a barra do camisolão e improvisei com a faixa resultante um cinto que me ressaltou a cintura delgada. Isso me foi tolerado graças à minha Doutora Jensen, o meu anjo naquele inferno. Bem, mas passei a ser olhada de maneira estranha por um enorme enfermeiro... e por uma das moças da secretaria, aquela que afinal, em troca de meus beijos e carícias me ajudou a fugir para estrada onde peguei carona de caminhão para voltar à estância a tempo da festa de Ano Novo, pois o Natal eu passara numa absurda festa de "amigo secreto" entre os louquinhos. Já narrei nalgum lugar a saga desse retorno ao lar...(Alma Welt)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vida em versos (mini-crônica de Alma Welt)

Quando estou triste, na estância, minha boa Matilde aproveita para me censurar: "Báh, guria! Aí está em que te meteste! Ficaste solita, não tens marido nem filhos! Que querias?" E eu suspiro e respondo: "Má, não me queixo disso! Não é marido que me falta, nem filhos... É que penso muito na morte e tenho uma pena imensa de deixar este Pampa, e até você, minha bá... " E ela retruca: "Besteira, guria, não me enganas! Se tivesses filhos já terias tua continuação, nem pensarias nisso e pararias com esses versos, que isso, sim, te mata aos poucos!"
Eu me calo e medito sobre suas palavras e no que elas contêm de verdade. Sim, os versos estão me matando à medida que mais vida lhes dou. Já não sou senão a minha poesia, não mais existo sem ela. Na verdade já posso morrer... (Alma Welt)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Lei do Mundo (mini-crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria pequena perguntei ao meu pai por quê algumas pessoas trabalhavam para outras que não trabalhavam, como nós. Meu pai ficou sério, depois sorriu levemente e respondeu: "Minha filha, essa é a lei do mundo. Muitas pessoas trabalham para que poucas pessoas possam ficar sem trabalhar para poder pagá-las e elas sustentarem suas famílias..." Confesso que a resposta me deixou um pouco confusa, mas me fingi de satisfeita. Depois, passados muitos anos percebi que meu pai foi tão cínico quanto sincero na sua resposta. Mas o compreendi melhor quando li a frase de Nietzsche: "As grandes coisas exigem que não se fale delas. A menos que se fale delas com grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência.
(Alma Welt)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Gaúcho Prestativo (crônica de Alma Welt)

"Quando eu era adolescente, correndo como sempre pela coxilha me afastei muito do casarão e de repente lembrei-me de que com o tempo do retorno chegaria atrazada para o almoço e seria repreendida severamente por minha mãe, talvez mesmo ficasse sem a refeição. Foi quando, providencialmente (eu pensei) apareceu do nada um gauchão, peão de nossa estância, homem de uns quarenta anos montado no seu cavalo, se oferecendo gentilmente a levar a "patroinha" de volta. Apeou, pegou-me pela cintura e instalou-me em sua sela montando a seguir atrás de mim, enlaçando com um braço minha cintura, a outra mão na rédea. O peão conduziu seu cavalo a passo, lentamente demais pra a minha quase aflição de chegar a tempo. Entretanto quando ainda estávamos à certa distância do casarão já avistado, ele apeou e deixando-me na sela continuou a pé puxando o cavalo pela rédea até encontrarmos o meu fiel Galdério em frente à nossa varanda, e que o olhava severamente. O peão tocou o chapéu com dois dedos e disse: "Compadre, encontrei a patroinha meio perdida, com o risco de se atrazar para o almoço. Está entregue a princesa. Com a licença de vosmecê, volto ao trabalho."
O Galdério nada disse, olhando fixamente nos olhos do peão, com a mão pousada na faca de prata de sua faixa.
Agora tantos anos depois desse episódio, lembrando-me das coisas que senti naquele trajeto, um certo incômodo ligeiramente excitante atrás de mim na sela, me ocorreu que a candura pode bem conviver com a inteligência. O que nunca convive com a ingenuidade é a esperteza, que essa tem bem mais afinidades com a malícia...

(Alma Welt)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Livros Proibidos (crônica de Alma Welt)

Quando adolescente acostumei-me a acordar de madrugada, programando minha mente para despertar com os galos, e sair do meu quarto pé-ante-pé, deslizando como uma sombra para ir à biblioteca e "investigar" os livros ocultos ou disfarçados do Vati. Ali descobria coisas incríveis, por vezes estarrecedoras. Ali folheei e li por pedaços vários livros do Marquês de Sade e o grande volume do psiquiatra austríaco Wilhelm Stekel, "Sadismo e Masoquismo". Eu frequentemente me chocava, e tinha sonhos conturbados e até pesadelos. Mas minha curiosidade era maior. Devorei as obras de Nietzsche e foram elas que me denunciaram, pois levei o "Anti-Cristo" para a cama, e a Mutti, notando o meu deslizar noturno que atribuiu inicialmente a um suposto sonambulismo, evitando despertar-me seguiu-me e flagrou a minha leitura proibida. Foi um escândalo. Nunca a vi tão furiosa com meu pai, exigindo dele que queimasse aquele livro "pérfido", "demoníaco", e muitos outros. Meu pai se recusou a fazê-lo mas não teve outro jeito senão escondê-los, trancá-los. Mas sua piscadela cúmplice me tranquilizou. Depois, uma hora, sentada no seu colo, ele me diria: "Alma, tu sempre encontrarás esses livros, não tenhas pressa. Talvez tua mãe tenha em parte razão. Não enche a tua cabeça tão cedo com a face negativa ou problemática do mundo. Ela virá a ti no devido tempo sem tirar-te o sono. Lembra-te minha filha, o conhecimento de nada vale se não tornar o homem mais sereno, talvez mesmo mais feliz. Vamos, vamos, durma durante a noite e corra no jardim e na coxilha de manhã. E eu te prometo que tudo o que me perguntares, responderei, aberta e honestamente... (Alma Welt

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Morte da Açoriana (crônica de Alma Welt)


Pintura de 2008 de Martha Erlebacher

A Morte da Açoriana (crônica de Alma Welt)

"No meu aniversário de 16 anos, a Mutti (minha mãe) estava doente e andávamos pela casa pé-ante-pé para não fazer ruído e falávamos baixo pois a dor exalava através de sua porta, e o Vati, a Matilde, Lucia e Solange se alternavam num entra-e-sai daquele quarto, nos cuidados à enferma. Menos eu, "a princesa" a quem queriam poupar, ou de quem respeitavam a diferença que sempre pautou as minha relação com a "Açoriana". Mas a verdade é que naqueles dias, mais que nunca eu me sentia culpada por não amá-la e até mesmo por a estar matando, que é do que meu inconsciente me acusava. O sofrimento de minha mãe me perseguia, como a sua cobrança de normalidade e bom comportamento convencional o fizera desde a minha tenra infância. Sua dor agora era a minha, me seguia nas minhas andanças no jardim e até mais longe, na coxilha, ao redor do casarão.
Então, uma tarde, eu ouvi um grito através daquela porta, que me estarreceu, logo seguido do meu nome chamado de forma angustiada, suplicante, que contrastava com a forma irritada usual de sua relação para comigo. Corri para o seu quarto e sem mais hesitar abri e entrei a ponto de vê-la na penumbra, semi-erguida contra os grandes travesseiros, os olhos arregalados para mim, com o braço estendido em minha direção, para logo cair para trás, imobilizando-se, de olhos abertos. Agarrei sua mão já meio fria, e explodi em lágrimas. Teria ela me perdoado? Que significou aquele chamado, aquele braço estendido por segundos, em minha direção? Eu teria o resto da vida para descobrir em mim mesma através do rastro de pequenos e grandes desastres que formaram a história da nossa relação, o significado do seu gesto extremo, que aparentemente fora dirigido a mim... e a ninguém mais. Meu coração achava, báh! queria... que aquilo só podia ser perdão. E o meu amor, finalmente..." (Alma Welt)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O fim e o começo do Mundo ( crônica-relâmpago de Alma Welt)

"Um gaúcho autêntico? Quê quer dizer, senhor? Todo gaúcho que ama a sua terra é autêntico. Mesmo aqueles que se foram ao Rio ou a São Paulo, que aposto estão penando de saudades. Não sei da Serra e do litoral... mas a Pampa, senhor, essa se nos gruda na alma, que aqui é o fim do Mundo mas o começo também... " (Alma Welt)

Onde a vista vai com o vento (crônica relâmpago de Alma Welt)

"Onde começa a Pampa, senhor? Começa onde a vista se comprazer de ir com o vento, e voltar só muito tempo depois. Pampa é uma viagem da alma..." (Alma Welt)

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Penélope do Pano Verde (mini-crônica de Alma Welt)

Uma das mais marcantes recordações da minha infância foi o retorno de meu irmão Rodo, que fora colocado num Internato por vários anos para separar-nos depois do nosso flagrante pela Açoriana, nossa mãe, nós dois nuzinhos sob a macieira do pomar. Quando fomos esperá-lo na estação, o trem chegando a resfolegar e a silvar, eu dava pulinhos e batia palmas de excitação. Quando a máquina parou em meio a todo aquele vapor e as portas dos vagões se abriram, avistei meu irmão, guri magnífico, que me pareceu mais belo que nunca. Corri em sua direção e nos abraçamos tão forte que a Mutti e Matilde tiveram que nos apartar, puxando-nos cada um para um lado. Eu estava decidida a nunca mais deixá-lo partir, mesmo sem saber como...
Entretanto, eu não sabia que a semente da separação já estava plantada, e não fora a simples distância: Rodo aprendera o jogo de pôquer na escola, com meninos mais velhos. No caminho de volta, na charrete com Galdério, ele tirou do bolso um maço de cartas de baralho e nos mostrou com elas sua nova habilidade de ilusionista. Eu, encantada, não sabia o que me esperava bem lá para frente, a pequena Penélope do pano verde que eu me tornaria um dia, e novamente por tantos anos... (Alma Welt)

Escolhas (crônica-relâmpago de Alma Welt)

Matilde, minha ex-babá, nossa atual cozinheira, mulher simples, repleta de senso comum e muito afetiva, me dá conselhos que eu nunca pensei em seguir, desde que eu era guria. Escrevi muitos sonetos-crônicas que descrevem a nossa relação. Ela me queria ver casada e... feliz. Cheia de filhos, claro. Jamais pôde entender as minhas escolhas. Mas... escolhas? Creio que tudo foi Destino. Um poeta não escolhe a poesia, a Poesia o escolhe... (Alma Welt)

Pôr- do-sol em Veneza ( mini-crônica de Alma Welt)

Uma vez, em Veneza, admirando o sol se pôr sobre a Laguna, eu senti a nostalgia dos séculos, de todos os séculos, com ênfase naquele de Ticiano e Tintoretto... Logo me lembrei que me sinto assim também na minha varanda, mirando os poentes do meu Pampa sobre o horizonte da coxilha infinita, que me fazem passar por aqueles sangrentos e gloriosos, dos Farrapos. Então me ocorreu que o Sol é a prova de um Eterno Retorno, que todo poente é um Passado e que talvez o Futuro seja uma ilusão. Essa idéia me pareceu consoladora, tanto mais com a Aurora como o nosso brilhante futuro desconhecido... (Alma Welt)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

De Desfiles e Besteiras (crônica de Alma Welt)

Uma vez, quando guria de uns oito anos, pouco antes de mudarmos para a estância, no nosso sobradão em Novo Hamburgo, fui encerrada por castigo no sótão, por minha mãe. Para não me entediar tratei de explorar o conteúdo das arcas e baús que havia ali. Foi quando reconheci, entre as fotos antigas de meus pais e avós, ele o velho Joachim Welt, meu avô, quando moço, numa foto datada de 1939 desfilando pelas ruas de Blumenau (a legenda a lápis indicava) todos com uma braçadeira com uma cruz estranha e com o braço erguido com a palma da mão estendida para baixo. Quando, de noite, libertada daquele sótão com a chegada de meu pai, à mesa do jantar perguntei a ele, com a foto na mão, o quê era aquilo, quê desfile era aquele. A Mutti olhou-me com um olhar fulminante e cobriu o rosto com as mãos balançando a cabeça, em desalento. Meu pai ficou sério, olhando a foto, mas disse: "Alma, isto foi uma besteira do teu avô, quando moço. Os adultos também fazem besteiras, sabia? Depois do jantar falaremos disso. Vou te mostrar bastante coisas nuns livros... está bem, querida? (Alma Welt)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Baluarte (mini-crônica de Alma Welt)

Uma manhã, estava eu andando na coxilha a contar sílabas nos dedos, quando o tempo subitamente fechou, clarões me ofuscaram e a chuva começou a cair. Me senti vulnerável e temi ser fulminada por um raio. Então vi o Galdério a cavalo, galopando em minha direção, e pensei: "Eis o meu anjo guardião"... Ele chegou e sem apear estendeu-me a mão que peguei, e num impulso, pela força de seu braço lá estava eu em sua garupa. Abracei-o assim por trás, meu rosto e meu corpo colados à suas costas que me pareceram a muralha de uma fortaleza. E pensei, juro que pensei: "Que grande força é o homem! Está tudo certo, este peão é o meu baluarte e eu sou sua princesa... espero ser digna de sua voluntária servidão." Pouco depois estávamos diante do casarão e ele apeando pegou-me pela cintura e me desmontou como se seu fosse muito leve... Matilde vinha pela varanda com uma toalha para me acolher, me envolver, me enxugar. Eu jamais me esqueceria desses momentos, daquela aconchegante sensação de pertencer, que estaria para sempre na raiz da minha poesia... (Alma Welt)

O Laço (mini-crônica de Alma Welt)

Uma vez, num tempo negro de minha vida, subi ao sótão do casarão com um laço de couro cru de vaqueiro e pensei em mim pendurada na viga do telhado. Mas como tenho uma imaginação realista, me vi grotesca, de língua de fora, o pescoço torto e os olhos esbugalhados. Minha vaidade foi maior, joguei o laço num canto. Ao descer a escadinha em caracol, escapou-me um longo suspiro e.... logo uma gargalhada. Eu estava salva! (entrevista com Alma Welt)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A FALA DO TRONO (crônica de Alma Welt)

"Poucos anos passados da morte do Vati, eu me vi praticamente encarregada de dirigir esta estância, logo eu, a poeta, "a artista da família". Então, aconteceria por aqui uma tragédia, uma morte ocasionada por uma peleia de faca entre dois peões. A origem da desavença parecia obscura e as famílias dos dois gaúchos se tornavam inimigas e estavam se armando, novas tragédias se anunciavam, tudo levava a crer no início de uma  "vendetta"  daquelas que se perpetuam com um ódio mútuo que atravessaria gerações. Então mandei o Galdério esvaziar nosso salão retirando até mesmo a grande mesa, e convocando através do meu fiel capataz os dois gaúchos mais velhos, os patriarcas de suas famílas, me mantive sentada numa cadeira de espaldar alto para deliberadamente produzir neles a sensação de uma rainha em seu trono. Eles se aproximaram lado a lado, sem se olharem e a um gesto meu estacaram a uma distância de quatro ou cinco metros. Fiz um calculado silêncio de alguns minutos e então lhes disse solenemente:

-"Houve aqui uma tragédia. Não haverá outras. Dois jovens se perderam. Um está morto e lhe faremos as honras. O outro está preso e lhe daremos assistência. Já basta. Não haverá mais mortes e ofereceremos esta dífícil paz e conciliação ao sábio Maestro que vosmecês veneravam tanto quanto eu, sua filha. Estejam certos que ele está nos olhando. Por ele eu peço: dêem-se as mãos e esqueçam as idéias de vingança. A paciência e sabedoria de vosmecês, pais, secarão as feridas com o tempo. Não nos decepcionem..."

Fiz um gesto de rainha, que encerra a audiência. Eles se viraram um para o outro e estenderam-se hesitantemente as mãos. Era o que cabia fazer, eles sentiram.
Eu, com minha postura, não de simples patroa, mas rainha, não dera margem para outro desfecho. Eles se retiraram. Eu permaneci longamente no trono, solitária. Eu vivera o momento mais alto da minha vida. E senti que ele não excluia a Poesia..." (Alma Welt)

domingo, 15 de janeiro de 2012

As Palavras da Matilde (crônica de Alma Welt)

Supondo que o clima decadente desta estância povoada de memórias muito mais antigas que os meus avós, que nela plantaram o vinhedo, está me contaminando com sua melancolia e dissipação, cheguei a lamentá-lo diante da Matilde, minha eterna ex-babá, que me restou como única confidente, embora seja tão... digamos, "pé-na-terra". Mas sua reação me fez pensar, como outrora, fonte de equilíbrio que tantas vezes foi para o meu coração. "Que esperavas, Alma? Isso que tu chamas de "decadência da estância", existe sim, posso vê-la, mas emana de ti mesma, dessa tua solidão, desse teu orgulho que não te deixou ser mulher de um homem, ser uma esposa e mãe! Que te faz permanecer nesse sonho de escrever versos, como se isso desse camisa a alguém! Isso está te matando, guria, não vês?"
Eu a ouço e, de repente deixo escapar um soluço imenso, corro para o quarto e... escrevo isto! Sim, isto que escrevo agora! Estou irremediavelmente perdida! (Alma Welt)

Sobre Lea Leandro ( crônica de Alma Welt)

Quando eu vivi na cidade de São Paulo, entre 1995 e 2004, num momento de solidão e carência, conheci e me apaixonei por um jovem e lindo travesti e depois transsexual, com quem vivi um ano e meio. Foi uma das experiências mais dolorosas da minha vida. Entretanto me lembro dele/a com carinho, porque realmente o amei. Ela se chamava Lea Leandro, e só lamento ela (ou ele) não ter assumido a sua bissexualidade, como eu a minha, e ter querido tanto ser mulher, a ponto de mutilar-se. Eu me pergunto, como um ser que teve o privilégio de ser um hermafrodita ou quase, a meu ver o ser humano perfeito de Deus, pôde optar, assim, por um só lado, uma só natureza. Eu não o faria... (Alma Welt)

Crise de Inspiração ( de Alma Welt)

Ouve-se falar de "crise de inspiração" de escritores. Dei-me conta de que nunca experimentei isso. Creio que isso não me ocorre porque vivo permanentemente "inspirada", desde que me coloquei, ainda guria, sob a sagrada égide da Arte, isto é, votei-me aos deuses e às musas. Mal posso compreender que nem todas as pessoas vivam assim, em contato com o "Sagrado", que é o elemento essêncial da Vida e do Mundo... (Alma Welt)

Efêmeras Bençãos (de Alma Welt)

Diante da imensa dor do mundo, frequentemente me surpreendo envergonhada de cultuar a beleza, a felicidade e a alegria. Mas que posso fazer? Essa é a minha natureza, que emana das bençãos que recebi do Destino, ou... de Deus. Também devo um tributo a elas, mesmo que derive do medo de perdê-las, pois bem sei quão transitórias e efêmeras são essas bençãos... (Alma Welt)

Dos que são olhados pela fresta ( crônica de Alma Welt)

Sendo um ser de família e tendo escrito mais de dois mil sonetos, às vezes me dou conta da minha grande solidão e mesmo marginalidade como poeta. Não pertenci a nenhum grupo ou movimento; não fui reconhecida pela cultura oficial, ou pela mídia; permaneço no limbo dos artistas insólitos, que simplesmente não se encaixam. Sou talvez daqueles que são olhados pela fresta e que não se contam para os amigos. Mas por isso mesmo tenho consciência de estar falando por muitos... pela solidão das pessoas, pela grande beleza oculta das pessoas comuns... (Alma Welt)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Borboleta e a Caveira (crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria pequena, meu pai me levou a um velório de um velho peão aqui da estância, e ao ver aquele corpo parado em cima da mesa, todo ataviado, de bombachas e esporas, eu perguntei ao meu pai: "Vati, ele não vai se mexer mais?". Então, Lucia, minha irmã, se adiantou e disse: Não, Alma, ele vai virar uma borboleta..." Nesse momento, Rodo, meu irmãozinho muito esperto, interferiu dizendo:- "Não, suas bobas. Ele vai virar uma caveira."- e arreganhou os dentinhos num sorrizinho grotesco. Calei-me então, e permaneci pensativa entre estas duas imagens, a encantada e a perturbadora... Assim estou até hoje. Quanto ao meu Vati, às vezes me pergunto por quê ele se calou, e o quê teria respondido. Ele, que parecia saber tudo... (Alma Welt)

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Morte da Açoriana (uma recordação de Alma Welt)

Lembro-me do dia, era uma manhã, e eu, guria, com o coração perturbado pela doença da Mutti, tinha saído para andar na coxilha e subitamente senti que devia voltar. Ao reentrar encontrei soluços por todo o casarão. Matilde veio a meu encontro no salão e estendendo-me as mãos disse: "Onde estivesse, guria má ! Tua mãe está partindo e tu nem te importas! Vá logo despedir-te enquanto é tempo!" Entrei no quarto, hesitante, temerosa, e... assustei-me. Minha mãe parecia um cadáver ainda vivo, branca como cera, os olhos encovados, pele sobre os ossos, e virando lentamente o rosto, estendeu-me penosamente os braços. Permaneci paralizada junto a porta: eu tive medo e não me aproximei ao seu apelo. Ela, então, deixando cair os braços soltou um longo suspiro, um estertor, e paralisou-se como um instantâneo. Então fugi dali correndo, e sinto que estou fugindo, correndo ainda hoje. Quanto remorso eu sentiria pela vida afora! A Açoriana... minha mãe, queria tocar-me, abraçar-me, que sei eu? Eu eu fugi. Ela me perdoara, ela me amava... e eu não pude dizer que também a amava... (Alma Welt)

sábado, 31 de dezembro de 2011

A Viajante do Tempo (de Alma Welt)

"Quando eu era guria, ainda pequena, meu pai me levava a todas as partidas e chegadas na nossa estaçãozinha pampiana, no que dizia respeito aos de nossa família, amigos ou hóspedes do casarão. A locomotiva a vapor e o comboio eram para mim um deslumbramento, pura magia, mais relacionada com o Tempo do que com o espaço. As pessoas sumiam e voltavam naquela máquina mágica envolta em vapor como uma névoa, em meio a silvos e apitos, e que certamente as levava para um outro mundo (uma outra dimensão, eu diria hoje). Meu pai, com isso, queria que eu me preparasse de algum modo para ser uma viajante, uma cidadã do mundo, e me projetava em sua imaginação nas estações ferroviárias da Europa, que ele conhecia tão bem. Cresci, viajei, afinal... Mas minha sensibilidade e coração permaneceram viajantes do Tempo, portanto da imaginação que me levava a todos os mundos, a todas as partidas com suas dores e saudades, a todas as chegadas com sua alegria e emoções do reencontro. Creio que foi a estaçãozinha que me ensinou a amar o mundo, para além do grande ninho familiar, do casarão..." (Alma Welt)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Uma outra vida (Alma Welt)

O espetáculo do poente visto daqui da minha varanda, que sempre me foi abismal, aqora me deixa mais triste do que nunca e saudosa de tudo. Choro pela beleza de tudo, enfraqueço-me e não sou capaz de gerir esta estância, nem sequer esta casa cada vez mais vazia, e tão cheia de memórias e espectros...

Matilde, às vezes vem se sentar ao meu lado na varanda, suspira e me censura: "Alma parecemos duas velhas, no fim da vida... Mas tu, jovem de corpo, como te deixaste envelhecer assim, no coração? Bah! Quanto insisti que te casasses e tivesses filhos! Eles estariam brincando nessa relva aí em frente e ouvíriamos seus risos e gritinhos! Mas agora, vê: ouve esse silêncio a que nos condenaste, guria má! Brinca! Brinca agora com teus versos! "

Então choro, abraço minha bá e choro... pela beleza de tudo, pela beleza deste momento. Pela beleza dolorosa de minha solidão de poeta... E pela outra vida, a que não tive... e que seria tão linda... (Alma Welt)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Queda da Casa de Welt (crônica de Alma Welt)

Quando chego de viagem, de volta à estância, noto-lhe a nítida e progressiva decadência. O casarão, o vinhedo e sua modestíssima produção, tudo está se arruinando como a queda da Casa de Usher* embora com sabor pampiano, riograndense. Já me vêm vagando nas noites assombradas, pois que realmente os fantasmas farroupilhas cada vez mais se alvoroçam com a presença desta última romântica tardia e delirante, que sou eu. Matilde não pára de acender velas todas as noites, e tantas, que extrapolaram há muito o âmbito de seu quarto ou da cozinha e invadiram o salão e até os quartos desocupados, vazios. Corremos o perigo de um incêndio, é o que temo...
Eu digo à Matilde: "Mulher, para quê tantas velas? Umas poucas não bastam? Não é a tua devoção que conta? O que queres? Com quem te relacionas em tuas preces, que tantas velas exige?" E ela responde: "Não sabes, guria? Com os espíritos que tu chamas a cada poema teu que escreves. Eles te cercam e eu os vejo cada vez mais e como te querem, minha niña, como cobiçam o teu belo, triste e atormentado coração. Então não vês que esta ruína que nos ameaça se deve a ti mesma?" (Alma Welt)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Retardos (Alma Welt)

Quando eu tinha uns quinze anos perguntei ao meu Vati o quê eram as prostitutas e o quê elas faziam. Meu pai me olhou bem, pensou um pouco e disse: "Alma, as prostitutas são mulheres bonitas ou não, que entregam seu corpo a homens desconhecidos, diariamente, por dinheiro, profissionalmente, para sobreviver... Entretanto estudos científicos revelaram que a maioria delas sofre de um certo retardamento mental. As mulheres inteligentes não escolhem essa profissão."
Dei-me por satisfeita com essa explicação. Passados alguns anos me dei conta de que meu pai mencionando a suposta pesquisa científica sobre a debilidade mental das prostitutas pensava evitar que eu me prostituisse um dia, pois ele bem percebia a minha sensualidade à flor da pele e temia a vulnerabilidade da minha beleza. Ele tinha razão. Anos depois pensei várias vezes em me prostituir, não por amor ao dinheiro mas pelo amor da experiência e mesmo da transgressão, já que minha mãe e Matilde eram grandes repressoras sexuais. Por quê não o fiz? Por receio de que meu pai, onde quer que estivesse, pudesse considerar-me retardada...

domingo, 4 de dezembro de 2011

A dádiva do Tempo (de Alma Welt)

Quando chegávamos de viagem na estação do trenzinho Maria Fumaça que servia a nossa região quando eu era guria até meus 15 anos, nosso fiel Galdério ia me buscar de charrete, e me trazia sozinha com ele enquanto nosso Vati levava os outros de carro, com as malas. Era esse o nosso acordo, permitido por meu pai, que sabia o quanto eu gostava de fruir com calma e lentamente a paisagem inigualável da coxilha. Às vezes chegávamos ao casarão com o pôr do sol, e eu, comovida, adentrava o salão já em lágrimas para cair nos braços receptivos da Matilde, nossa cozinheira, minha eterna e fiel ex-babá. Ela exclamava: "Minha guria! Como está guapa! Um pouco magra, mas vamos cuidar disso!"
Esse ritual dura até hoje, e eu sentiria falta de qualquer detalhe, como uma criança que quer que repitam a mesma estória antes de dormir, palavra por palavra, e que não falte uma sequer... Sim, às vezes me ocorre que as coisas queridas exigem fidelidade, porque elas também nos amam. Sim, as coisas nos amam... as palavras, as paisagens e o próprio Tempo! Estamos aqui por sua dádiva e ao seu seio voltaremos um dia...

Penélope do Pano Verde (Alma Welt)

Uma vez, ainda bem jovem, meu irmão Rodo chegou de viagem pela primeira vez dirigindo um carro esporte, um Porsche. Nós em casa já conhecíamos sua habilidade com as cartas, mas aquilo nos preocupou. Toda a sua futura vida de aventuras perigosas, de riscos inimagináveis e de lances duvidosos se descortinou aos olhos de nossa família. Afinal, como conseguira ele um carro caro como aquele? Ele nos disse simplesmente que o ganhara no jogo de poquer, honestamente. Depois, com o ouvido colado na porta da biblioteca pude ouvir meu pai dizendo a ele que aquilo não era ganhar a vida honestamente, que aquele carro fora praticamente roubado. Mas era tarde demais... Rodo andaria pelo mundo como um cometa, elegante, cosmopolita, cada vez mais frio e silencioso, mas tão belo que eu o reconheceria sempre como o príncipe menino do meu coração infantil. Eu passaria a vida esperando por ele, como uma Penélope do pano verde, eternamente fiando e desfiando a minha teia de sonetos... essa seria a essência verdadeira do meu amor, da minha vida de mulher... de poeta..." (Alma Welt)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Final da Estória ( Alma Welt)

Quando eu era uma guria de uns sete anos, tendo estado pela primeira vez num velório e visto um defunto, o de um velho "gaucho" daqui da estância, perguntei ao meu Vati, por quê as pessoas morriam e o quê acontecia depois. Meu pai ficou pensativo, coçou a barba e disse: "Filha, ninguém sabe. É um grande mistério... Mas, acho que as coisas são assim para que a gente fique procurando saber e assim se instrua e aprenda muita coisa durante a vida. Se a gente já soubesse desde o começo, ninguém ia querer saber de mais nada." Então eu tornei a perguntar: "Mas a gente fica sabendo no final, como as estórias, não fica?" E ele: "Bah! guria, fica! Mas quem chega lá não conta pra não estragar a estória pros outros."
Creio que a partir daí passei a prestar mais atenção às estórias da vida...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Testamento Espiritual da Alma

"Tendo registrado em arte e beleza cada passo meu na minha passagem por esta vida, nem por isso me sinto pronta para partir, e dói-me saber a morte tão próxima. A razão disso é que não posso conceber belezas maiores do que as que me foram prodigalizadas pelo Destino e as que eu mesma construí ao longo dos meus breves 35 anos. Desde já a saudade deste Pampa, deste horizonte infinito, destes poentes gloriosos, a memória amada de meu Vati, de minha difícil e não menos amada Açoriana, do meu adorado irmão Rodo, de minha irmã Lucia e dos meus fiéis Matilde e Galdério, do casarão assombrado de memórias muito antigas, a peonada e as trabalhadoras da vinha, meu jardim, meu bosque, minha macieira sagrada do pomar, o poço da cascata... tudo isso me dói como um segundo exílio, peregrina perpétua que me sei, que só pude cantar a minha alma, conquanto suspeite que assim cantei o Mundo..." (Alma Welt)

"Having registered art and beauty in every step through this life, I am not yet ready to go, and it hurts me to know so close to death. The reason is that I can not conceive more beauty than have been so offered by Fate and also that I built myself during my brief 35 years. As long as the nostalgia of Pampa, this infinite horizon, these glorious sunsets, the memory of my beloved father and no less beloved but difficult mother Azorean, Rodo my beloved brother, my sister Lucia and my faithfuls Galdério and Matilde, the haunted house of memories from long ago, the gauchos and the maids in the vineyard, my garden, my wood, the sacred appletree in the orchard, the well of the cascade ... all that hurts me as a second exile, perpetual pilgrim, I know, I could only sing my soul, though suspect so I sang the world ... "(Alma Welt)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Silêncios com Galdério (de Alma Welt)

"Meu fiel Galdério todos os dias se aproxima da varanda onde estou sempre escrevendo sentada na cadeira de balanço de minha avó Frida, e me pergunta se deve preparar a charrete para o passeio pela estância, como outrora, desde guria. Agora faço isso raramente, pois não quero mais chorar perto deste amigo fiel, e a visão do cenário tão querido das sendas da minha infância com Rodo, nossas correrias e pequenas conspirações... estão por aí em toda parte. Eu respondo: "Galdo, solta a Miranda no pasto, a pobre... E tu, senta-te aquí no primeiro degrau e conta-me de tua infância com Matilde". Ele sorri tristemente, cofia os bigodes e diz: "Ah! Princesa... deixa quieta a infância, a tua e a nossa... elas agora moram nos sonhos da noite... Para quê remexer nesse baú, assim, de dia?" E ficamos os dois em silêncio, muito tempo, ouvindo os pássaros, os latidos dos cães e às vezes uma gargalhada ao longe seguida de uma bravata de peão. E vejo que está tudo certo, o Tempo é impassível e... passa." (Alma Welt)

DESTINO (crônica de Alma Welt)

Matilde, minha fiel bá, já há duas décadas nossa cozinheira, é uma mistura de conselheira, bobo e corifeu desta nossa pequena tragédia familiar. Morreram já a Açoriana (minha Mutti), o Vati (meu pai), Solange, minha irmã mais velha e, Alberto, seu marido bêbado, meu querido e fiel cunhado. Rodo (Rudolf) meu amado irmão jogador de poquer anda pelos cassinos do mundo e quasi não pára por aqui. Na solidão desta estância e seu vinhedo decadente, só amainada pela presença de Matilde e do fiel Galdério, seu irmão e nosso "factotum", eu me consumo em meus pensamentos, crônicas e sonetos e me esforço para não enlouquecer, já que converso com espectros e vago nas noites como uma sonâmbula pelo jardim e pela coxilha em torno do casarão. Somente a Internet prorroga minha lucidez paradoxalmente dando-me a ilusão da comunicação, de ser compreendida e até mesmo de ser amada. Escolhi o meu destino? Tudo é encadeamento de circunstâncias, não cuspirei no prato do meu talento mesmo que ele me leve à solidão e à morte. Tudo é Destino...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Árvore dos Cachimbos (de Alma Welt)

‎"Se não faço uma reflexão profunda e não a lanço no papel, se não produzo diariamente um pensamento que me pareça válido e geral, ou um poema, um soneto, o dia foi perdido... Matilde, minha ex babá, que foi quem me sobrou de ser humano presente e constante ao meu lado, acha inútil e lamenta eu não ter filhos. Eu lhe digo: "Mas, mulher, estou parindo dia e noite!" E ela responde: "Não blasfemes, Alma! Se teu ventre secar sem ter posto no mundo uma criança sequer, serás como uma macieira que não deu frutos, boa para o machado, para fazer cachimbos. O fumo no ar terá mais serventia." Eu estremeço, e continuo a escrever..." ( Alma Welt)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Concerto do rei Mino (de Alma Welt)

"Uma noite, meses depois que o Vati, meu pai, morreu, soprou o Minuano tão fortemente que batia todas as janelas do casarão e zunia pelas frestas das portas fechadas. Ele sempre me assusta, o rei Mino, como eu o chamo... Então, subitamente ouvi o piano do Vati tocando de maneira fantasmagórica, como um... espectro de música, se posso dizer assim, ou como um órgão sinistro... Corri para a biblioteca, era ele! O Vati estaria lá sentado ao seu piano, eu tinha certeza, eu o veria! Mas ao entrar no aposento forrado de livros vi que o piano vibrava e ressoava surdamente, sarcástico, impiedoso! O Minuano usurpara o piano de meu pai! E ria, ria de mim o tirano, de minha dor, de minha saudade!..."

domingo, 20 de novembro de 2011

Minha amiga Anita (de Alma Welt)

Quando chego em casa depois de alguma viagem mais longa, sinto que o Tempo, aqui, na estância, passa de maneira muito lenta, ou simplesmente é imóvel e contém todas as épocas do nosso Pampa, imutável em sua essência. Por isso convivo com os farroupilhas, na verdade seus espectros saudosos de sua glória passada, de sua saga imortal... É claro que já me tacharam de delirante, ou sonâmbula, por me verem vagar à noite no casarão, no jardim, na coxilha. Mas eu lhes garanto que Anita Garibaldi é minha amiga, aparece para mim e me fala de seu amor, de suas aventuras e de sua dor de ter morrido tão longe daqui ou de sua Laguna, conquanto na terra do seu amado Giuseppe, o herói que a tornou também uma heroína de dois mundos... (Alma Welt)

sábado, 19 de novembro de 2011

O Retorno via Livramento (de Alma Welt)

"Uma vez, de volta à estância chegando de viagem, nossa Matilde veio me receber em lágrimas, mas que não eram de alegria. "Minha guria" - disse ela- nosso Rodo foi preso em Monte Carlo! Estava roubando no jogo, eles disseram!" Imediatamente eu soube que era calúnia de perdedores, pois meu irmão era um profissional competente, não precisava roubar. Mas a angústia me subiu ao peito. Eu estava disposta a ir para lá, tão longe... pagar fiança, sei lá! Mas enquanto pensava no que fazer, tocou o telefone. Era Rodo, dizendo: "Alma, estou em Livramento, roubaram meu passaporte em Punta del Este, quando eu pretendia partir para Monte Carlo. Irei para casa, guria, vou dar um tempo." Meu coração encheu-se de alegria, e pela primeira vez agradeci a um ladrão..." (Alma Welt)

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Nota
É curiosa esta estória... sutilmente ela indica que o Rodo realmente roubou, não foi roubado, e estava em " livramento" e não Santana do Livramento. Provavelmente pagou fiança e ainda estava na Europa. E o ladrão que a Alma agradeceu é o próprio Rodo por estar voltando para os seus braços...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Morte do Coveiro Viajante ( crônica de Alma Welt)

Depois da morte do velho coveiro da nossa cidade, que, pobre coitado, morreu na ativa, nunca podendo se aposentar, não houve meios da prefeitura conseguir um substituto, por mais que, abrindo duas vagas, convocasse um titular e um ajudante. Os jovens de nossa cidadezinha não queriam pegar no cabo de uma enxada, interessados que estavam na Internet, nos bailes-funk, e em namorar pelo celular. Alguns poucos defuntos recentes chegaram a ser improvisadamente enterrados nos quintais de suas casas pelos seus familiares. A situação estava ficando insalubre e quando morreu a sogra do nosso prefeito, e esta na espera começou exalar odores suspeitos, este enviou um torpedo para a cidade vizinha não muito maior que a nossa, convocando em caráter de urgência e por empréstimo ao colega daquela outra prefeitura, por “estado de calamidade pública”, o também vetusto e digno coveiro daquele povoado.

Gostaria de poder contar nesta estória anacrônica, que o velho coveiro veio no tremzinho Maria-Fumaça, chegando de madrugada com suas ferramentas embrulhadas em jornais velhos. Mas não havia mais trem e muito menos desse tipo há muito tempo, e nem a linda e singela estaçãozinha, com o nome da nossa cidade escrito. O nosso mestre dos caixões, pás e enxadas, chegou de manhã vindo numa viatura da prefeitura, caindo aos pedaços, que o foi buscar.
Entretanto, acreditem ou não vocês, assim que o velho tinha acabado de abrir a cova para a sogra do prefeito e iam começar os elogios fúnebres e os discursos eleitoreiros, o velho começou a passar mal, a cambalear como se bêbado e caiu fulminado dentro da cova, antes de ter tempo de ao menos baixar o caixão de sua ilustre última cliente. O prefeito não teve dúvidas: exasperado, pediu a ajuda de alguns correligionários e arrastando a braços empurraram o caixão do avantajado defunto para dentro da cova por cima do cadáver fresquíssimo do velho serviçal. Enquanto esses esforçados políticos tomavam afinal a iniciativa de pegar a pá e jogar terra sobre aqueles náufragos, ouviu-se ainda um resto de discurso do prefeito com alusões a um capitão que afunda com o seu navio, e que recebeu movimentos de cabeça aprovativos e até palmas. Estava encerrada a questão. O que não tem remédio, remediado está... cada um que dali por diante se ocupasse dos seus mortos e não aborrecesse mais a prefeitura, que afinal, disse ele, tinha os vivos com que se preocupar. E ainda citou Jesus Cristo num dos Evangelhos: “Deixem os mortos enterrarem seus mortos!”
O que ninguém entendeu, muito menos eu...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Bife (de Alma Welt)

‎"Uma vez, quando eu era guria, brincando perto da casa comecei a ouvir uma música maravilhosa, vinda do piano de cauda de meu pai, na biblioteca. Voltei correndo para dentro de casa, para vê-lo tocando. Joguei-me debaixo do piano onde ele colocara um tapetinho para mim, mas tendo cumprido esse ritual da minha primeira infância, logo coloquei-me a lado dele para ver as suas mãos fortes e ágeis em ação. Tratava-se do Cravo Bem Temperado, de Johann Sebastian Bach. Quando ele terminou eu beijei muito a suas mãos. Ele colocou-me nos joelhos e disse: "Agora... ao Bife Bem Martelado!" (Alma Welt)

Reverenciando os deuses (de Alma Welt)

‎"O jovem padre entrou e foi recebido respeitosamente por meu pai. Eu, guria de dezesseis anos os observava pela fresta da porta, admirada e um tanto excitada, tanto mais que conhecia o agnosticismo do velho, que fizera a experiência de me criar desde pequena como uma pagã para não ser contaminada pela idéia de "pecado", que ele abominava nas religiões em geral. O padre vinha insistir, embora cuidadosamente, que eu fosse finalmente batizada, a pedido de minha mãe, a Açoriana, gravemente doente. Então ouvi meu pai responder: "Padre, isso é uma questão de "foro íntimo". Somente a menina poderá decidir se consente ou não nesse ritual. Mas sinceramente duvido que ela consinta, pois já tem seus próprios e belos rituais naturistas, que ela leva muito a sério".
O padre disfarçou a custo a sua indignação, e apenas pediu que me chamasse à sala. Eu apareci imediatamente, e logo dizendo: "Seu Padre, que bom que o senhor está aqui... gostaria de levá-lo agora mesmo ao nosso pomar onde queimarei as ervas votivas aos deuses, que hoje a lua está propícia e a aragem suave. O senhor vem, padre? Devemos reverenciar os nossos deuses, não é verdade?" (Alma Welt)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

De onde sopra o vento (de Alma Welt)

O peão aproximou-se da varanda sempre olhando para cima e cofiando os grandes bigodes caídos, sinal de pouca reverência... Olhou-me bem nos olhos e disse: "Patroinha, não sei falar de trabalho com uma mulher, mormente quando bonita como um prenda . Não podes chamar um gaucho macho de sua confiança para ouvir umas boas verdades sobre a lida que tenho a fazer e de que não estou encontrando condições?"
Pensei por um momento em chamar o Galdério, mas logo pensei: "Se o fizer nunca mais serei respeitada por este "gaucho" soberbo..." Respondi: "Fale comigo mesmo, ó homem, que esta estância está toda em minhas mãos, goste o senhor ou não."

O gaúcho olhou-me bem, mas de outro jeito; tirou o chapéu de barbicacho e fez uma ligeira reverência. "Esqueci o que me incomodava, patroa. Acho que era só o não saber de onde soprava o vento..." (Alma Welt)

domingo, 25 de setembro de 2011

A carta de um padre francês (de Alma Welt)

"Anos após a morte de Gauguin, foi encontrada uma carta de um padre que tinha sido pároco na colônia francesa do Tahiti. A carta, dirigida ao seu bispo, dizia: 'Hoje visitei um conterrâneo nosso, Monsier Paul Gauguin, um pintor que vivia afastado de nossa comunidade por rebeldia e desavenças e que morava solitário num cabana cercado de seus quadros. Encontrei esse homem em grande miséria, doente e abandonado até pela vahine com quem vivera. Entretanto admirei-me de ver esse homem, tão pobre e desamparado, falar o tempo todo com grande entusiasmo de sua arte." (Alma Welt)

O peão ataviado (de Alma Welt)

O peão ainda jovem, feioso simpático, exuberante, apresentou-se ao meu pai no escritório e pediu-lhe um adiantamento para comprar umas bombachas bordadas e um par de botas novas que ele mostrou numa foto de revista. Meu pai perguntou-lhe para quê aquele capricho todo no dia a dia, e o peão abrindo os braços num gesto largo disse: "Patrão soy um gaucho buenacho, afeito à lida e avesso de peleia. Gosto do truco, vá lá, mas levo dinheiro pra casa. Mas com teu perdão, patrão, olhe pra mim, vê esta cara de bezerro mamão e esta barba rala de barbicacho... Quero ao menos estar assim ataviado, bonito, para aquela deusa que é a minha mulher!" Meu pai sorriu e deu-lhe o dinheiro. (Alma Welt)

Os mistérios da paixão (de Alma Welt)

‎"Quando guria, minha paixão por meu pai e a diferença de universos que tanto eu como ele tínhamos de minha mãe, me fizeram supor e até a acalentar a idéia de que ele mantinha um amor secreto, digamos: uma amante mesmo. Mas então, uma noite, eu, espionando, entrevi pela fresta da porta a paixão com que se abraçaram e beijaram na penumbra do quarto. Até hoje ausculto meu coração para tentar identificar o timbre ou o caráter da emoção que senti. A ambigüidade dos meus próprios sentimentos me fizeram perceber a complexidade humana, e a abandonar o pensamento dicotômico..." (Alma Welt)

Concerto para um velho peão (de Alma Welt)

"O peão tirou o chapéu e entrou no escritório de meu pai que levantou-se para recebê-lo. Era o mais velho dos peões e merecia essa deferência."Patrão, vou-me para o Alegrete, me tratar. Talvez não volte. Vim lhe pedir um favor além do pagamento que o senhor me fará: que o Patrão toque um tiquinho, uma coisita que seja nesse piano de vosmecê, que é coisa nunca vista..." Meu pai, surpreso, sentou-se na banqueta e tocou a Sonata Apassionata, de Beethoven, em honra do velho peão. Todos da casa se aproximaram da porta do escritório, até a Matilde veio da cozinha com uma colher de pau na mão. O velho ouvia de olhos marejados. E não voltaria nunca mais..." (Alma Welt)

A comissão dos ciganos (de Alma Welt)

"Um dia, na estância, meu pai foi procurado por uma comissão de ciganos, pedindo permissão para acamparem próximos do bosque. Eles estavam sendo expulsos de todas as estâncias, e quase não havia mais paradeiro para eles no Pampa. Mas haviam ouvido falar do "Maestro", um estancieiro músico, pianista. Meu pai, notando que um deles trazia um violino, convidou-o a tocar ali mesmo no escritório, de imediato, e reconhecendo um solo de Pablo Sarazate, sentou-se ao piano e acompanhou o cigano em vertiginoso virtuosismo, os dois. Eu, guria de dez anos, fiquei deslumbrada e aplaudi no final, dando pulos. E foi então que no acampamento na orla do nosso bosque eu vim a conhecer a minha linda cigana Rafisa, que acrescentaria mistérios à minha vida..." (Alma Welt)

sábado, 20 de agosto de 2011

O peão e o cacho do meu cabelo (crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria nova, na estância, sendo muito curiosa escapava à vigilância da Mutti e saía a andar pela coxilha. Assim, uma tarde entrei pela primeira vez no bosque e me perdi. Um jovem peão que me seguia de longe, montado, encontrou-me e se prestou a levar-me para casa em sua sela. Antes de chegar ao casarão ele me pediu um cacho dos meus cabelos ruivos. Eu concordei e ele cortou com sua faca um cacho que levou às narinas, sorvendo profundamente o perfume que eu não sabia que tinha. Naquela noite minha mãe notou a falta daquela ponta em meu cabelo, e me inquiriu. Eu inocentemente contei à minha mãe o episódio. Nunca mais tornei a avistar aquele peão. Algum tempo depois eu soube que, a mando de minha mãe, sua casinha fora invadida pelo Galdério que recuperou o cacho, açoitou o rapaz e o expulsou da estância. Chorei ao saber disso e Matilde me disse: "Esses cachos rubros ainda farão muito mal a los hombres, Deus te perdoe, minha niña..."

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Facundo (de Alma Welt)

Dentre os inúmeros peões que tivemos aqui na estância, havia um “gaucho” da banda oriental, uruguaio, que se destacou pela competência, mas também pelo temperamento esquivo, confundido com maus bofes. De um modo geral era silencioso e solitário, não se misturava. Bom de laço e boleadeiras, excelente domador de cavalos, não havia garanhão chucro que ele não pusesse o freio em menos de dez minutos, sob aplausos de outros peões, que fora do cercado não o teriam cumprimentado.
Pois bueno, esse peão, Facundo era o seu nome (o “apelido”, sobrenome, eu nunca soube) deveria protagonizar um episódio doloroso de que alguns se lembram ainda com um arrepio.
Por aqui chegou para trabalhar na Sta Gertrudes, uma família de holandeses que tinha uma filha, uma guria loura, rechonchuda, muito guapa embora arredia e tímida, sempre debaixo das rédeas dos pais, que mal a deixavam trabalhar fora da casa, nem mesmo no vinhedo, para não andar por aí. Pois bem, Facundo deu um jeito de se aproximar da prenda e de alguma forma começou um namoro às escondidas. Acontece que a guria tinha um irmão, rapaz alto e louro, espadaúdo e de grossos punhos e manoplas. Certamente havia um grande contraste entre os tipos, vocês podem imaginar: o uruguaio, vagamente sinistro, com seu nariz aquilino e seu rosto sulcado, mal barbeado e moreno, bem latino, ao mesmo tempo arredio e cheio de orgulho, e o aparentemente bronco e enorme holandês louro mal saído da adolescência. Mas o embate inevitável dos dois ocorreria logo, após duas semanas do namoro secreto, que algum peão intrigante testemunhara, alguém que quisera ver o circo pegar fogo.
Assim, na nossa “colina do enforcado”, ou do umbu-rei como a chamo, houve o último duelo por estas bandas desde então.
Diz o nosso querido Galdério, conterrâneo do malfadado domador, que foram chamadas testemunhas uma de cada lado e que tudo deveria se passar dentro das regras que por aqui existem desde antes dos farroupilhas. Mas o fato é que não houve sobreviventes, pois embora Facundo tivesse deixado para trás três mortos (nunca se soube o que realmente ocorreu), ele próprio não foi encontrado senão três dias depois, na fronteira, caído de borco, ainda com a mão no ventre e a do braço estendido mergulhada no Arroio do Chuí.
Ele quase chegara à sua terra, mas segundo consta, deste lado da fronteira alguém chorou por ele. Sua vida de solitário banido não fora de todo desperdiçada...

FIM

sábado, 12 de abril de 2008

Safira, eu e os ciganos (crônica de Alma Welt)

Safira, eu e os ciganos (crônica de Alma Welt)


Na minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai uma vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs fornecia o leite para o nosso café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.
Nessa época, eu já estava empenhada em aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos (com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando, apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati.
Aconteceu que passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque, com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade cujo critério e regras eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram simplesmente baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio.
Curiosa e fascinada por esse povo do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo (romance conhecido popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha de papel, para o acampamento cigano.
Fui recebida entre as tendas e os carroções, logo de saída, por várias gurias de diferentes idades, que me pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar, simultaneamente, numa espécie de confusão.
Entre elas havia uma, de extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria de maneira enigmática, um pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o nascimento do retrato.
Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel me foi retirada e circulou de mão em mão, entre exclamações, risadas e sinais de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada que levantou-se de sua banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto, ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa), sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:

–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para outras coisas.”

Os ciganos já circulavam e dispersavam-se, desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando muito, embora ainda chocada.
Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes olhos que me pareceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o nosso estábulo e voltei puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as manhãs.
Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e tornozelos das gurias.
Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira pirotécnica, virtuosística..
Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra, horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”

E alguém me respondeu: “Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é festa de Santa Sara Kali.”

Dei um grito e desmaiei.

Acordei em minha cama e desatei imediatamente em pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:

–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças, não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”

Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade.
Ao amanhecer fui despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele jeito manso disse-me, pausadamente:

–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.
 
Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.