sábado, 31 de dezembro de 2011

A Viajante do Tempo (de Alma Welt)

"Quando eu era guria, ainda pequena, meu pai me levava a todas as partidas e chegadas na nossa estaçãozinha pampiana, no que dizia respeito aos de nossa família, amigos ou hóspedes do casarão. A locomotiva a vapor e o comboio eram para mim um deslumbramento, pura magia, mais relacionada com o Tempo do que com o espaço. As pessoas sumiam e voltavam naquela máquina mágica envolta em vapor como uma névoa, em meio a silvos e apitos, e que certamente as levava para um outro mundo (uma outra dimensão, eu diria hoje). Meu pai, com isso, queria que eu me preparasse de algum modo para ser uma viajante, uma cidadã do mundo, e me projetava em sua imaginação nas estações ferroviárias da Europa, que ele conhecia tão bem. Cresci, viajei, afinal... Mas minha sensibilidade e coração permaneceram viajantes do Tempo, portanto da imaginação que me levava a todos os mundos, a todas as partidas com suas dores e saudades, a todas as chegadas com sua alegria e emoções do reencontro. Creio que foi a estaçãozinha que me ensinou a amar o mundo, para além do grande ninho familiar, do casarão..." (Alma Welt)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Uma outra vida (Alma Welt)

O espetáculo do poente visto daqui da minha varanda, que sempre me foi abismal, aqora me deixa mais triste do que nunca e saudosa de tudo. Choro pela beleza de tudo, enfraqueço-me e não sou capaz de gerir esta estância, nem sequer esta casa cada vez mais vazia, e tão cheia de memórias e espectros...

Matilde, às vezes vem se sentar ao meu lado na varanda, suspira e me censura: "Alma parecemos duas velhas, no fim da vida... Mas tu, jovem de corpo, como te deixaste envelhecer assim, no coração? Bah! Quanto insisti que te casasses e tivesses filhos! Eles estariam brincando nessa relva aí em frente e ouvíriamos seus risos e gritinhos! Mas agora, vê: ouve esse silêncio a que nos condenaste, guria má! Brinca! Brinca agora com teus versos! "

Então choro, abraço minha bá e choro... pela beleza de tudo, pela beleza deste momento. Pela beleza dolorosa de minha solidão de poeta... E pela outra vida, a que não tive... e que seria tão linda... (Alma Welt)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Queda da Casa de Welt (crônica de Alma Welt)

Quando chego de viagem, de volta à estância, noto-lhe a nítida e progressiva decadência. O casarão, o vinhedo e sua modestíssima produção, tudo está se arruinando como a queda da Casa de Usher* embora com sabor pampiano, riograndense. Já me vêm vagando nas noites assombradas, pois que realmente os fantasmas farroupilhas cada vez mais se alvoroçam com a presença desta última romântica tardia e delirante, que sou eu. Matilde não pára de acender velas todas as noites, e tantas, que extrapolaram há muito o âmbito de seu quarto ou da cozinha e invadiram o salão e até os quartos desocupados, vazios. Corremos o perigo de um incêndio, é o que temo...
Eu digo à Matilde: "Mulher, para quê tantas velas? Umas poucas não bastam? Não é a tua devoção que conta? O que queres? Com quem te relacionas em tuas preces, que tantas velas exige?" E ela responde: "Não sabes, guria? Com os espíritos que tu chamas a cada poema teu que escreves. Eles te cercam e eu os vejo cada vez mais e como te querem, minha niña, como cobiçam o teu belo, triste e atormentado coração. Então não vês que esta ruína que nos ameaça se deve a ti mesma?" (Alma Welt)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Retardos (Alma Welt)

Quando eu tinha uns quinze anos perguntei ao meu Vati o quê eram as prostitutas e o quê elas faziam. Meu pai me olhou bem, pensou um pouco e disse: "Alma, as prostitutas são mulheres bonitas ou não, que entregam seu corpo a homens desconhecidos, diariamente, por dinheiro, profissionalmente, para sobreviver... Entretanto estudos científicos revelaram que a maioria delas sofre de um certo retardamento mental. As mulheres inteligentes não escolhem essa profissão."
Dei-me por satisfeita com essa explicação. Passados alguns anos me dei conta de que meu pai mencionando a suposta pesquisa científica sobre a debilidade mental das prostitutas pensava evitar que eu me prostituisse um dia, pois ele bem percebia a minha sensualidade à flor da pele e temia a vulnerabilidade da minha beleza. Ele tinha razão. Anos depois pensei várias vezes em me prostituir, não por amor ao dinheiro mas pelo amor da experiência e mesmo da transgressão, já que minha mãe e Matilde eram grandes repressoras sexuais. Por quê não o fiz? Por receio de que meu pai, onde quer que estivesse, pudesse considerar-me retardada...

domingo, 4 de dezembro de 2011

A dádiva do Tempo (de Alma Welt)

Quando chegávamos de viagem na estação do trenzinho Maria Fumaça que servia a nossa região quando eu era guria até meus 15 anos, nosso fiel Galdério ia me buscar de charrete, e me trazia sozinha com ele enquanto nosso Vati levava os outros de carro, com as malas. Era esse o nosso acordo, permitido por meu pai, que sabia o quanto eu gostava de fruir com calma e lentamente a paisagem inigualável da coxilha. Às vezes chegávamos ao casarão com o pôr do sol, e eu, comovida, adentrava o salão já em lágrimas para cair nos braços receptivos da Matilde, nossa cozinheira, minha eterna e fiel ex-babá. Ela exclamava: "Minha guria! Como está guapa! Um pouco magra, mas vamos cuidar disso!"
Esse ritual dura até hoje, e eu sentiria falta de qualquer detalhe, como uma criança que quer que repitam a mesma estória antes de dormir, palavra por palavra, e que não falte uma sequer... Sim, às vezes me ocorre que as coisas queridas exigem fidelidade, porque elas também nos amam. Sim, as coisas nos amam... as palavras, as paisagens e o próprio Tempo! Estamos aqui por sua dádiva e ao seu seio voltaremos um dia...

Penélope do Pano Verde (Alma Welt)

Uma vez, ainda bem jovem, meu irmão Rodo chegou de viagem pela primeira vez dirigindo um carro esporte, um Porsche. Nós em casa já conhecíamos sua habilidade com as cartas, mas aquilo nos preocupou. Toda a sua futura vida de aventuras perigosas, de riscos inimagináveis e de lances duvidosos se descortinou aos olhos de nossa família. Afinal, como conseguira ele um carro caro como aquele? Ele nos disse simplesmente que o ganhara no jogo de poquer, honestamente. Depois, com o ouvido colado na porta da biblioteca pude ouvir meu pai dizendo a ele que aquilo não era ganhar a vida honestamente, que aquele carro fora praticamente roubado. Mas era tarde demais... Rodo andaria pelo mundo como um cometa, elegante, cosmopolita, cada vez mais frio e silencioso, mas tão belo que eu o reconheceria sempre como o príncipe menino do meu coração infantil. Eu passaria a vida esperando por ele, como uma Penélope do pano verde, eternamente fiando e desfiando a minha teia de sonetos... essa seria a essência verdadeira do meu amor, da minha vida de mulher... de poeta..." (Alma Welt)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Final da Estória ( Alma Welt)

Quando eu era uma guria de uns sete anos, tendo estado pela primeira vez num velório e visto um defunto, o de um velho "gaucho" daqui da estância, perguntei ao meu Vati, por quê as pessoas morriam e o quê acontecia depois. Meu pai ficou pensativo, coçou a barba e disse: "Filha, ninguém sabe. É um grande mistério... Mas, acho que as coisas são assim para que a gente fique procurando saber e assim se instrua e aprenda muita coisa durante a vida. Se a gente já soubesse desde o começo, ninguém ia querer saber de mais nada." Então eu tornei a perguntar: "Mas a gente fica sabendo no final, como as estórias, não fica?" E ele: "Bah! guria, fica! Mas quem chega lá não conta pra não estragar a estória pros outros."
Creio que a partir daí passei a prestar mais atenção às estórias da vida...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Testamento Espiritual da Alma

"Tendo registrado em arte e beleza cada passo meu na minha passagem por esta vida, nem por isso me sinto pronta para partir, e dói-me saber a morte tão próxima. A razão disso é que não posso conceber belezas maiores do que as que me foram prodigalizadas pelo Destino e as que eu mesma construí ao longo dos meus breves 35 anos. Desde já a saudade deste Pampa, deste horizonte infinito, destes poentes gloriosos, a memória amada de meu Vati, de minha difícil e não menos amada Açoriana, do meu adorado irmão Rodo, de minha irmã Lucia e dos meus fiéis Matilde e Galdério, do casarão assombrado de memórias muito antigas, a peonada e as trabalhadoras da vinha, meu jardim, meu bosque, minha macieira sagrada do pomar, o poço da cascata... tudo isso me dói como um segundo exílio, peregrina perpétua que me sei, que só pude cantar a minha alma, conquanto suspeite que assim cantei o Mundo..." (Alma Welt)

"Having registered art and beauty in every step through this life, I am not yet ready to go, and it hurts me to know so close to death. The reason is that I can not conceive more beauty than have been so offered by Fate and also that I built myself during my brief 35 years. As long as the nostalgia of Pampa, this infinite horizon, these glorious sunsets, the memory of my beloved father and no less beloved but difficult mother Azorean, Rodo my beloved brother, my sister Lucia and my faithfuls Galdério and Matilde, the haunted house of memories from long ago, the gauchos and the maids in the vineyard, my garden, my wood, the sacred appletree in the orchard, the well of the cascade ... all that hurts me as a second exile, perpetual pilgrim, I know, I could only sing my soul, though suspect so I sang the world ... "(Alma Welt)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Silêncios com Galdério (de Alma Welt)

"Meu fiel Galdério todos os dias se aproxima da varanda onde estou sempre escrevendo sentada na cadeira de balanço de minha avó Frida, e me pergunta se deve preparar a charrete para o passeio pela estância, como outrora, desde guria. Agora faço isso raramente, pois não quero mais chorar perto deste amigo fiel, e a visão do cenário tão querido das sendas da minha infância com Rodo, nossas correrias e pequenas conspirações... estão por aí em toda parte. Eu respondo: "Galdo, solta a Miranda no pasto, a pobre... E tu, senta-te aquí no primeiro degrau e conta-me de tua infância com Matilde". Ele sorri tristemente, cofia os bigodes e diz: "Ah! Princesa... deixa quieta a infância, a tua e a nossa... elas agora moram nos sonhos da noite... Para quê remexer nesse baú, assim, de dia?" E ficamos os dois em silêncio, muito tempo, ouvindo os pássaros, os latidos dos cães e às vezes uma gargalhada ao longe seguida de uma bravata de peão. E vejo que está tudo certo, o Tempo é impassível e... passa." (Alma Welt)

DESTINO (crônica de Alma Welt)

Matilde, minha fiel bá, já há duas décadas nossa cozinheira, é uma mistura de conselheira, bobo e corifeu desta nossa pequena tragédia familiar. Morreram já a Açoriana (minha Mutti), o Vati (meu pai), Solange, minha irmã mais velha e, Alberto, seu marido bêbado, meu querido e fiel cunhado. Rodo (Rudolf) meu amado irmão jogador de poquer anda pelos cassinos do mundo e quasi não pára por aqui. Na solidão desta estância e seu vinhedo decadente, só amainada pela presença de Matilde e do fiel Galdério, seu irmão e nosso "factotum", eu me consumo em meus pensamentos, crônicas e sonetos e me esforço para não enlouquecer, já que converso com espectros e vago nas noites como uma sonâmbula pelo jardim e pela coxilha em torno do casarão. Somente a Internet prorroga minha lucidez paradoxalmente dando-me a ilusão da comunicação, de ser compreendida e até mesmo de ser amada. Escolhi o meu destino? Tudo é encadeamento de circunstâncias, não cuspirei no prato do meu talento mesmo que ele me leve à solidão e à morte. Tudo é Destino...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Árvore dos Cachimbos (de Alma Welt)

‎"Se não faço uma reflexão profunda e não a lanço no papel, se não produzo diariamente um pensamento que me pareça válido e geral, ou um poema, um soneto, o dia foi perdido... Matilde, minha ex babá, que foi quem me sobrou de ser humano presente e constante ao meu lado, acha inútil e lamenta eu não ter filhos. Eu lhe digo: "Mas, mulher, estou parindo dia e noite!" E ela responde: "Não blasfemes, Alma! Se teu ventre secar sem ter posto no mundo uma criança sequer, serás como uma macieira que não deu frutos, boa para o machado, para fazer cachimbos. O fumo no ar terá mais serventia." Eu estremeço, e continuo a escrever..." ( Alma Welt)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Concerto do rei Mino (de Alma Welt)

"Uma noite, meses depois que o Vati, meu pai, morreu, soprou o Minuano tão fortemente que batia todas as janelas do casarão e zunia pelas frestas das portas fechadas. Ele sempre me assusta, o rei Mino, como eu o chamo... Então, subitamente ouvi o piano do Vati tocando de maneira fantasmagórica, como um... espectro de música, se posso dizer assim, ou como um órgão sinistro... Corri para a biblioteca, era ele! O Vati estaria lá sentado ao seu piano, eu tinha certeza, eu o veria! Mas ao entrar no aposento forrado de livros vi que o piano vibrava e ressoava surdamente, sarcástico, impiedoso! O Minuano usurpara o piano de meu pai! E ria, ria de mim o tirano, de minha dor, de minha saudade!..."

domingo, 20 de novembro de 2011

Minha amiga Anita (de Alma Welt)

Quando chego em casa depois de alguma viagem mais longa, sinto que o Tempo, aqui, na estância, passa de maneira muito lenta, ou simplesmente é imóvel e contém todas as épocas do nosso Pampa, imutável em sua essência. Por isso convivo com os farroupilhas, na verdade seus espectros saudosos de sua glória passada, de sua saga imortal... É claro que já me tacharam de delirante, ou sonâmbula, por me verem vagar à noite no casarão, no jardim, na coxilha. Mas eu lhes garanto que Anita Garibaldi é minha amiga, aparece para mim e me fala de seu amor, de suas aventuras e de sua dor de ter morrido tão longe daqui ou de sua Laguna, conquanto na terra do seu amado Giuseppe, o herói que a tornou também uma heroína de dois mundos... (Alma Welt)

sábado, 19 de novembro de 2011

O Retorno via Livramento (de Alma Welt)

"Uma vez, de volta à estância chegando de viagem, nossa Matilde veio me receber em lágrimas, mas que não eram de alegria. "Minha guria" - disse ela- nosso Rodo foi preso em Monte Carlo! Estava roubando no jogo, eles disseram!" Imediatamente eu soube que era calúnia de perdedores, pois meu irmão era um profissional competente, não precisava roubar. Mas a angústia me subiu ao peito. Eu estava disposta a ir para lá, tão longe... pagar fiança, sei lá! Mas enquanto pensava no que fazer, tocou o telefone. Era Rodo, dizendo: "Alma, estou em Livramento, roubaram meu passaporte em Punta del Este, quando eu pretendia partir para Monte Carlo. Irei para casa, guria, vou dar um tempo." Meu coração encheu-se de alegria, e pela primeira vez agradeci a um ladrão..." (Alma Welt)

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Nota
É curiosa esta estória... sutilmente ela indica que o Rodo realmente roubou, não foi roubado, e estava em " livramento" e não Santana do Livramento. Provavelmente pagou fiança e ainda estava na Europa. E o ladrão que a Alma agradeceu é o próprio Rodo por estar voltando para os seus braços...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Morte do Coveiro Viajante ( crônica de Alma Welt)

Depois da morte do velho coveiro da nossa cidade, que, pobre coitado, morreu na ativa, nunca podendo se aposentar, não houve meios da prefeitura conseguir um substituto, por mais que, abrindo duas vagas, convocasse um titular e um ajudante. Os jovens de nossa cidadezinha não queriam pegar no cabo de uma enxada, interessados que estavam na Internet, nos bailes-funk, e em namorar pelo celular. Alguns poucos defuntos recentes chegaram a ser improvisadamente enterrados nos quintais de suas casas pelos seus familiares. A situação estava ficando insalubre e quando morreu a sogra do nosso prefeito, e esta na espera começou exalar odores suspeitos, este enviou um torpedo para a cidade vizinha não muito maior que a nossa, convocando em caráter de urgência e por empréstimo ao colega daquela outra prefeitura, por “estado de calamidade pública”, o também vetusto e digno coveiro daquele povoado.

Gostaria de poder contar nesta estória anacrônica, que o velho coveiro veio no tremzinho Maria-Fumaça, chegando de madrugada com suas ferramentas embrulhadas em jornais velhos. Mas não havia mais trem e muito menos desse tipo há muito tempo, e nem a linda e singela estaçãozinha, com o nome da nossa cidade escrito. O nosso mestre dos caixões, pás e enxadas, chegou de manhã vindo numa viatura da prefeitura, caindo aos pedaços, que o foi buscar.
Entretanto, acreditem ou não vocês, assim que o velho tinha acabado de abrir a cova para a sogra do prefeito e iam começar os elogios fúnebres e os discursos eleitoreiros, o velho começou a passar mal, a cambalear como se bêbado e caiu fulminado dentro da cova, antes de ter tempo de ao menos baixar o caixão de sua ilustre última cliente. O prefeito não teve dúvidas: exasperado, pediu a ajuda de alguns correligionários e arrastando a braços empurraram o caixão do avantajado defunto para dentro da cova por cima do cadáver fresquíssimo do velho serviçal. Enquanto esses esforçados políticos tomavam afinal a iniciativa de pegar a pá e jogar terra sobre aqueles náufragos, ouviu-se ainda um resto de discurso do prefeito com alusões a um capitão que afunda com o seu navio, e que recebeu movimentos de cabeça aprovativos e até palmas. Estava encerrada a questão. O que não tem remédio, remediado está... cada um que dali por diante se ocupasse dos seus mortos e não aborrecesse mais a prefeitura, que afinal, disse ele, tinha os vivos com que se preocupar. E ainda citou Jesus Cristo num dos Evangelhos: “Deixem os mortos enterrarem seus mortos!”
O que ninguém entendeu, muito menos eu...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Bife (de Alma Welt)

‎"Uma vez, quando eu era guria, brincando perto da casa comecei a ouvir uma música maravilhosa, vinda do piano de cauda de meu pai, na biblioteca. Voltei correndo para dentro de casa, para vê-lo tocando. Joguei-me debaixo do piano onde ele colocara um tapetinho para mim, mas tendo cumprido esse ritual da minha primeira infância, logo coloquei-me a lado dele para ver as suas mãos fortes e ágeis em ação. Tratava-se do Cravo Bem Temperado, de Johann Sebastian Bach. Quando ele terminou eu beijei muito a suas mãos. Ele colocou-me nos joelhos e disse: "Agora... ao Bife Bem Martelado!" (Alma Welt)

Reverenciando os deuses (de Alma Welt)

‎"O jovem padre entrou e foi recebido respeitosamente por meu pai. Eu, guria de dezesseis anos os observava pela fresta da porta, admirada e um tanto excitada, tanto mais que conhecia o agnosticismo do velho, que fizera a experiência de me criar desde pequena como uma pagã para não ser contaminada pela idéia de "pecado", que ele abominava nas religiões em geral. O padre vinha insistir, embora cuidadosamente, que eu fosse finalmente batizada, a pedido de minha mãe, a Açoriana, gravemente doente. Então ouvi meu pai responder: "Padre, isso é uma questão de "foro íntimo". Somente a menina poderá decidir se consente ou não nesse ritual. Mas sinceramente duvido que ela consinta, pois já tem seus próprios e belos rituais naturistas, que ela leva muito a sério".
O padre disfarçou a custo a sua indignação, e apenas pediu que me chamasse à sala. Eu apareci imediatamente, e logo dizendo: "Seu Padre, que bom que o senhor está aqui... gostaria de levá-lo agora mesmo ao nosso pomar onde queimarei as ervas votivas aos deuses, que hoje a lua está propícia e a aragem suave. O senhor vem, padre? Devemos reverenciar os nossos deuses, não é verdade?" (Alma Welt)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

De onde sopra o vento (de Alma Welt)

O peão aproximou-se da varanda sempre olhando para cima e cofiando os grandes bigodes caídos, sinal de pouca reverência... Olhou-me bem nos olhos e disse: "Patroinha, não sei falar de trabalho com uma mulher, mormente quando bonita como um prenda . Não podes chamar um gaucho macho de sua confiança para ouvir umas boas verdades sobre a lida que tenho a fazer e de que não estou encontrando condições?"
Pensei por um momento em chamar o Galdério, mas logo pensei: "Se o fizer nunca mais serei respeitada por este "gaucho" soberbo..." Respondi: "Fale comigo mesmo, ó homem, que esta estância está toda em minhas mãos, goste o senhor ou não."

O gaúcho olhou-me bem, mas de outro jeito; tirou o chapéu de barbicacho e fez uma ligeira reverência. "Esqueci o que me incomodava, patroa. Acho que era só o não saber de onde soprava o vento..." (Alma Welt)

domingo, 25 de setembro de 2011

A carta de um padre francês (de Alma Welt)

"Anos após a morte de Gauguin, foi encontrada uma carta de um padre que tinha sido pároco na colônia francesa do Tahiti. A carta, dirigida ao seu bispo, dizia: 'Hoje visitei um conterrâneo nosso, Monsier Paul Gauguin, um pintor que vivia afastado de nossa comunidade por rebeldia e desavenças e que morava solitário num cabana cercado de seus quadros. Encontrei esse homem em grande miséria, doente e abandonado até pela vahine com quem vivera. Entretanto admirei-me de ver esse homem, tão pobre e desamparado, falar o tempo todo com grande entusiasmo de sua arte." (Alma Welt)

O peão ataviado (de Alma Welt)

O peão ainda jovem, feioso simpático, exuberante, apresentou-se ao meu pai no escritório e pediu-lhe um adiantamento para comprar umas bombachas bordadas e um par de botas novas que ele mostrou numa foto de revista. Meu pai perguntou-lhe para quê aquele capricho todo no dia a dia, e o peão abrindo os braços num gesto largo disse: "Patrão soy um gaucho buenacho, afeito à lida e avesso de peleia. Gosto do truco, vá lá, mas levo dinheiro pra casa. Mas com teu perdão, patrão, olhe pra mim, vê esta cara de bezerro mamão e esta barba rala de barbicacho... Quero ao menos estar assim ataviado, bonito, para aquela deusa que é a minha mulher!" Meu pai sorriu e deu-lhe o dinheiro. (Alma Welt)

Os mistérios da paixão (de Alma Welt)

‎"Quando guria, minha paixão por meu pai e a diferença de universos que tanto eu como ele tínhamos de minha mãe, me fizeram supor e até a acalentar a idéia de que ele mantinha um amor secreto, digamos: uma amante mesmo. Mas então, uma noite, eu, espionando, entrevi pela fresta da porta a paixão com que se abraçaram e beijaram na penumbra do quarto. Até hoje ausculto meu coração para tentar identificar o timbre ou o caráter da emoção que senti. A ambigüidade dos meus próprios sentimentos me fizeram perceber a complexidade humana, e a abandonar o pensamento dicotômico..." (Alma Welt)

Concerto para um velho peão (de Alma Welt)

"O peão tirou o chapéu e entrou no escritório de meu pai que levantou-se para recebê-lo. Era o mais velho dos peões e merecia essa deferência."Patrão, vou-me para o Alegrete, me tratar. Talvez não volte. Vim lhe pedir um favor além do pagamento que o senhor me fará: que o Patrão toque um tiquinho, uma coisita que seja nesse piano de vosmecê, que é coisa nunca vista..." Meu pai, surpreso, sentou-se na banqueta e tocou a Sonata Apassionata, de Beethoven, em honra do velho peão. Todos da casa se aproximaram da porta do escritório, até a Matilde veio da cozinha com uma colher de pau na mão. O velho ouvia de olhos marejados. E não voltaria nunca mais..." (Alma Welt)

A comissão dos ciganos (de Alma Welt)

"Um dia, na estância, meu pai foi procurado por uma comissão de ciganos, pedindo permissão para acamparem próximos do bosque. Eles estavam sendo expulsos de todas as estâncias, e quase não havia mais paradeiro para eles no Pampa. Mas haviam ouvido falar do "Maestro", um estancieiro músico, pianista. Meu pai, notando que um deles trazia um violino, convidou-o a tocar ali mesmo no escritório, de imediato, e reconhecendo um solo de Pablo Sarazate, sentou-se ao piano e acompanhou o cigano em vertiginoso virtuosismo, os dois. Eu, guria de dez anos, fiquei deslumbrada e aplaudi no final, dando pulos. E foi então que no acampamento na orla do nosso bosque eu vim a conhecer a minha linda cigana Rafisa, que acrescentaria mistérios à minha vida..." (Alma Welt)

sábado, 20 de agosto de 2011

O peão e o cacho do meu cabelo (crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria nova, na estância, sendo muito curiosa escapava à vigilância da Mutti e saía a andar pela coxilha. Assim, uma tarde entrei pela primeira vez no bosque e me perdi. Um jovem peão que me seguia de longe, montado, encontrou-me e se prestou a levar-me para casa em sua sela. Antes de chegar ao casarão ele me pediu um cacho dos meus cabelos ruivos que o fascinavam. Eu concordei e ele cortou com sua faca um cacho que levou às narinas, sorvendo profundamente o perfume que eu não sabia que tinha. Naquela noite minha mãe notou a falta daquela ponta em meu cabelo, e me inquiriu. Eu inocentemente contei à minha mãe o episódio. Nunca mais tornei a avistar aquele peão. Algum tempo depois eu soube que, a mando de minha mãe, sua casinha fora invadida pelo Galdério que recuperou o cacho, açoitou o rapaz e o expulsou da estância. Chorei ao saber disso e Matilde me disse: "Esses cachos rubros ainda farão muito mal a los hombres, Deus te perdoe, minha niña..."