sábado, 12 de abril de 2008

Safira, eu e os ciganos (crônica de Alma Welt)

Safira, eu e os ciganos (crônica de Alma Welt)


Na minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai uma vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs fornecia o leite para o nosso café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.
Nessa época, eu já estava empenhada em aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos (com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando, apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati.
Aconteceu que passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque, com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade cujo critério e regras eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram simplesmente baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio.
Curiosa e fascinada por esse povo do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo (romance conhecido popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha de papel, para o acampamento cigano.
Fui recebida entre as tendas e os carroções, logo de saída, por várias gurias de diferentes idades, que me pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar, simultaneamente, numa espécie de confusão.
Entre elas havia uma, de extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria de maneira enigmática, um pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o nascimento do retrato.
Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel me foi retirada e circulou de mão em mão, entre exclamações, risadas e sinais de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada que levantou-se de sua banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto, ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa), sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:

–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para outras coisas.”

Os ciganos já circulavam e dispersavam-se, desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando muito, embora ainda chocada.
Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes olhos que me pareceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o nosso estábulo e voltei puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as manhãs.
Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e tornozelos das gurias.
Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira pirotécnica, virtuosística..
Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra, horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”

E alguém me respondeu: “Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é festa de Santa Sara Kali.”

Dei um grito e desmaiei.

Acordei em minha cama e desatei imediatamente em pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:

–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças, não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”

Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade.
Ao amanhecer fui despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele jeito manso disse-me, pausadamente:

–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.
 
Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.

A Hospedeira, ou Ao sul de mim mesma

Crônica de Alma Welt (1972-2007)


Quando estou aqui na estância, às vezes me bate aquela angústia, e eu peço para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E ponho minha montaria num galope doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí, já estou muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira sabe sempre retornar, e eu solto a rédea para ela nos conduzir, voltamos a passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite.
Entretanto, antes de ontem fui parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas, macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador, com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto bondoso, com uma cara redonda vermelhaça, polonesa ou russa, me acolheu com olhinhos azuis e um sorriso que não se desfez mais. Como é que eu nunca soubera dessa vizinha?
Ela me fez sentar à sua mesa e imediatamente, sem nada perguntar ou falar, colocou um prato fundo na minha frente e com uma concha, de um caldeirão, começou a me servir sopa. Eu nada disse, e sempre sorrindo também, comecei a tomar. E era deliciosa a sopa, tomei-a com prazer, acompanhada de um grande pedaço de pão. Ao terminar, agradeci, e ela imediatamente pegou-me pela mão e levou-me a um quarto, que tinha uma acolhedora cama arrumada, com uma linda colcha de retalhos coloridos e um grande travesseiro. Ela fez um gesto de dormir com as duas mãos do lado do rosto, sempre sorrindo. Eu já estava convencida que a boa senhora era muda. Então pedi um telefone, gesticulando como se ela fosse também surda e a senhora me levou de volta à sala, até um aparelho de madeira, antigo, de parede, em que consegui a duras penas ligar para estância, e avisei a Matilde que eu pernoitaria na casa de uma vizinha nossa e que só voltaria de manhã. Matilde quis saber mais detalhes, meio alarmada, mas eu logo desliguei, sem muitas explicações.
A senhora então me pegou novamente pela mão, levou-me de volta ao quarto, e de pé diante da cama ela começou a despir-me com desvelo, meticulosa e carinhosamente como se faz com uma guria, uma filha, e estando eu somente de calcinha, ela enfiou-me pela cabeça uma camisola branca bordada, e colocou-me na cama para dormir. Eu permanecia curiosa com tudo aquilo, respeitando e retribuindo a mudez e o sorriso permanente daquela criatura, tanto que fechei logo os olhos enquanto ela apagava a vela, e realmente adormeci.
Acordei bem cedinho, com o cantar de um galo, e sentindo-me maravilhosamente bem, repousada e sem vestígio da angústia da tarde anterior. Levantei-me e saí do quarto, de camisola, para ver a minha hospedeira. Não a encontrei. Procurei na casa, em torno dela, no pomar e... nada. Ela não aparecia. Esperei uma hora e... nada. Então chegou a Matilde na charrete, abanando a cabeça e dizendo: —“Guria, tu és doida mesmo. Pensei que se tratava da outra chácara, vizinha, da dona Estela. Lá estive e disseram-me que não sabiam de nada, que não estiveste lá. Que fazes aqui? Não sabes que esta casa está vazia ? A moradora faleceu há quase um ano. Como pudeste entrar e dormir aqui? A casa permanece fechada e deve estar uma sujeira aí dentro. Deixe-me ver.
Matilde entrou comigo, viu o prato de sopa vazio ainda na mesa, o caldeirão sobre o fogão de lenha, o quarto com a cama desarrumada, e se pôs mais assombrada. Enquanto eu despia a camisola e vestia minhas roupas, ela dizia, inconformada:
—Que estranho, a casa não está suja como eu pensava! Então dormiste aqui, nesta cama,com esta camisola? Quem te acolheu, Alma? Que mistério é esse, guria? Como era a pessoa que te acolheu?
Eu descrevi a minha amável e nada loquaz hospedeira, sobretudo sua face “rubicunda”. Matilde empalideceu, fez o sinal da cruz, caiu de joelhos, de mãos postas e começou a tremer.
Voltamos na charrete, puxando a Altamira pelo cabresto atrás e tremendo as duas.
Meu corpo tremia, sim, mas durante todo o trajeto, meu coração, eu sentia, estranhamente preferia continuar sorrindo.

Réquiem para a Açoriana

(crônica de Alma Welt)


Sendo dia de finados e estando eu aqui na estância, fui visitar o túmulo de minha mãe, que foi enterrada aqui mesmo, no limite do nosso jardim onde começa a pradaria do Pampa infinito. Sempre foi costume dos estancieiros que aqui viveram, muito antes dos meus avós, enterrarem seus mortos, próximos, relativamente do casarão, e desde guria eu gostava de passear por ali, pois misteriosamente o silêncio se tornava maior e se podia ouvir os passarinhos e os insetos, que me pareciam cantar para embalar os que ali dormiam seu misterioso sono. As lápides me pareciam as cabeceiras desses leitos ocultos e eu gostava de imaginá-los deitados, incorruptíveis, como a Bela Adormecida ou a Branca de Neve. Eu chegava mesmo a deitar ali na relva com a cabeça quase encostada na lápide, olhando primeiramente o céu azul e depois fechando os olhos até assustar-me e erguer-me para sair correndo dali. Eu reconheço que isso podia parecer um tanto mórbido, mas creio até hoje que esse meu pequeno ritual infantil não tinha essa conotação, e fazia parte, sim, da minha natureza de sonhadora... romântica, se posso dizer assim.

Mas o que quero contar aqui, hoje, é que sempre notei, ao aproximar-me do túmulo da Mutti, um ramo de flores do campo colocado junto à lápide, em qualquer dia do ano, menos justamente no dia de Finados. Na infância isso não chegava a me intrigar, pois eu pensava que as flores eram colocadas ali pelo Vati, naturalmente. Todavia, quando este morreu, e também ali foi enterrado, eu comecei a notar que as flores não cessaram, e a minha imaginação romanesca foi despertada para um possível enredo oculto, um misterioso apaixonado de minha mãe, Ana, que nunca pude compreender bem... por não ser compreendida por ela. Minha mãe não era o tipo que pudesse ter um amante, bem entendido, mas poderia ter renunciado a um grande amor, pela família, e pelos votos do casamento. Então quem seria esse misterioso admirador ou fiel apaixonado? Comecei a admirá-lo, a esse desconhecido, pois me parecia o protótipo do verdadeiro amoroso, para sempre leal ao seu amor sem fim. Confesso que minha mãe subiu no meu conceito, de alguma forma, com essa possibilidade, pois embora tivéssemos uma grande dificuldade de relacionamento, a possibilidade de minha mãe ser infeliz por renúncia ao seu verdadeiro amor, a tornava por sua vez “romântica”, e justificava a sua infelicidade, que até então me parecera uma injustiça com o deus que era o meu Vati.

Hoje, finalmente, depois de muito tempo que não visitava esse cemitério, e ali procurando os túmulos do meus avós Joachin e Frida , da minha irmã Solange (a pobre assassinada), do pobre bêbado Alberto, seu marido, do Vati, e da Mutti, notei, que as flores sobre o túmulo de minha mãe estavam secas, desfeitas, há muito tempo. Seu fiel cavaleiro havia morrido, não a visitava mais, pensei.

Pela primeira vez chorei não por sua causa, mas por ela mesma.

Por ela, a Açoriana, minha mãe, bela e... infeliz.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Walhalla de meu pai

(crônica de Alma Welt )

Meu pai tocava maravilhosamente Beethoven, entre outros grandes mestres. Ele dizia que Beethoven era o maior de todos, também pela sua qualidade pianística, e me fazia ver que o piano do Mestre não era percussivo, não martelava, mas trinava como o canto de um pássaro, e isso seria a sua característica mais marcante. Exigia, dizia ele, grande agilidade dos dedos, para “trinar” assim ou “gorjear”, principalmente nas notas altas.
O Vati me mostrava , tocando inteiras, a maravilha das sonatas Aurora e Apassionata, que ele me fazia ouvir e ver, como música descritiva mesmo, que eram, e como romântico assumido. Na primeira eu via o sol nascendo no meu pampa e a simples contemplação de sua luz na pradaria em tal glória e magnificência, me fazia chorar de alegria de estar viva e de compreender a beleza do mundo, de maneira consciente, graças ao meu pai, o cirurgião pianista que descobrira a validade de dedicar-se ao piano e à sua filha amada, que era eu, sem sentimento de dever perdido, ou de culpa por não mais exercer a também sagrada missão da medicina.
Eu, hoje, olho o piano de meu pai, o Steinway, na biblioteca, silencioso quase sempre, somente dedilhado ocasionalmente por mim, e por Rôdo, mas sem o virtuosismo e esplendor do toque de meu pai, o último grande romântico alemão por estas plagas, e que agora deve estar ao lado de Beethoven., este com sua audição recuperada, discutindo gorjeios de pássaros e pianos.
E também de Goethe, os três em animada palestra, na eternidade de seu *Walhalla artístico, que meu pai projetou sempre em sua bela vida, contemplativa, aprazível, sem culpa...

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Nota da editora

*Walhala – Grande salão, ao ou sala do trono do deus Odin, da antiga mitologia germânica e dos Vikings escandinavos, em que os guerreiros renascidos como tal na eternidade, por prêmio de bravura, reuniam-se para planejar ou comemorar com as Walkírias ( formosas deusas guerreiras) em grandes orgias, as vitórias nas infinitas batalhas da imortalidade gloriosa.

Alma imagina um Walhala dos grandes artistas, verdadeiros heróis da Arte, que ali se reuniriam para palestrar em alegre e eterno convívio. (Lucia Welt)

Alma e o lobo


Alma e o lobo- óleo s/tela de Guilherme de Faria, 150x150cm, coleção Flávio Pacheco, São Paulo, Brasil

(dos Contos Pampianos de Alma Welt)


O Pampa sempre foi para mim uma caixa de surpresas. O elemento insólito está presente no meu cotidiano, embora essa impressão não seja compartilhada pelas pessoas que me cercam, a quem a monotonia do cotidiano é especialmente cara. A passagem muito lenta das horas e dos dias, e o vento constante, os embalam numa doce e aconchegante existência pressuposta, ou melhor, previsível, que lhes dá segurança, mesmo ao mais valente peão, macho, laçador, e contador de vantagens. Mas vou lhes contar, meus queridos leitores, a pequena aventura que tive aos dezessete anos, quando passeava sozinha pela minha amada pradaria, um tanto distante do nosso casarão.
O dia estava magnífico, era primavera e as florinhas do campo me atraíam para cada vez mais longe à medida que as colhia fazendo um farto buquê, pousado em meu braço esquerdo. Então, subitamente me veio aquela vontade de ficar nua, que vocês já conhecem e que aparece em mim sempre que me vejo só. Ultimamente me ocorreu que isso acontece justamente por causa de vocês, meus leitores. Devo ser uma exibicionista...
Uma vez despida, com meu vestido longo abandonado sobre a relva, eu continuei a caminhar com uma nova volúpia, que me era tão conhecida e que para mim sempre rimava com o ato de colher flores, e de coroar-me com elas, pensando talvez na deusa primavera do quadro de Boticelli, embora, no quadro do Ufizzi, ela esteja vestida de maneira diáfana. Foi então que aconteceu.
De repente, senti uma presença atrás de mim, e voltando-me topei com a maravilhosa figura de um lobo guará, fulvo, de longas pernas, rosto de raposa, e olhos quase doces, embora atentos. Fiquei imóvel, encantada, e por alguma razão, sem medo algum, estendi lentamente o braço para ele, girando mais lentamente ainda a palma da mão para cima num gesto de convite, que ele acompanhava atentamente, não sei se temeroso, ou simplesmente curioso. Então permaneci muito tempo nessa posição, imobilizada, com a respiração lenta e suave, que depois eu entendi, era o motivo da aproximação, da atração que eu despertara no animal. A ausência de medo em mim o atraíra, também sem medo, senão confiante. Minha beleza muito alva... não, não falarei nela. Seria ir longe demais nas conjeturas.
Foi então, que o mais surpreendente se deu. O guará se aproximou lentamente com o pescoço estendido, com passadas quase felinas, e ergueu o focinho para cheirar a minha mão, que eu supunha, recendia à flores. Meu coração acelerou-se ligeiramente, e meu seio palpitou, ofegante de emoção em que me vi, afinal, com aproximação de seu focinho negro e de sua boca, de minha alva e delicada mão. O belo animal, a farejou e, acreditem, deu-lhe uma única e doce lambida! Depois aproximou-se mais ainda, enquanto eu me curvava para ele e... auriu os meus seios! Minha emoção então atingiu o auge, mas numa alegria que me acompanharia por muito tempo. Ele se afastou, a seguir, dando-me as costas, e partindo num trote tranqüilo, enquanto eu o seguia com o olhar, muito tempo, até ele sumir no horizonte.
Procurei meu vestido e com uma sensação de plenitude, como... de uma noiva após as bodas, voltei ao casarão, para contar somente ao Rôdo, a minha aventura. Mas, no caminho, com um sorriso, me ocorreu que nem ele, o amado irmão de minha alma, acreditaria nela.
Ah! Pampa, pampa de minha vida! O quê, de mais belo, me reservarás?

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30/10/2005

E o lobo veio a mim

(dos Contos Pampianos, de Alma Welt)

Matilde foi a primeira a dar o alarme. Tinha um lobo guará rondando o nosso casarão, e havia sumido uma galinha. Logo foram encontradas suas penas e outros vestígios de devoramento. Imediatamente me pus em defesa do lobo. Devia ser o meu guará, eu o conhecia, sim, só podia ser ele. Quem leu a minha crônica (dos Contos Pampianos) “Alma e o lobo”, que coloquei há uns meses aqui no Recanto, sabe do que estou falando. Meu querido lobo, aquele que farejou a minha mão e... o meu seio nu. Ele era meu desde então! Que ninguém tocass nele! Matilde abanou a cabeça, dizendo:

–Alma, Alma, agora essa! Atraíste o lobo para cá, não é? Com o teu cheirinho, princesa? Só tu mesma, guria. E agora como vamos fazer para proteger as galinhas?

Eu disse: –Matilde, nem que o lobo comesse o galinheiro inteiro! Ele é intocável, não sabes? Ele é um animal magnífico, raro e defendido pelo Ibama. Já ouviste falar disso, cumadre? (eu chamo Matilde de “cumadre’, quando quero censurá-la).

–“Ibama ou não Ibama, afasta o lobo da tua cama”, diz o povo, sabias? (Matilde era rápida e sempre admirei o seu dom de improviso. Desta vez foi admirável, pois era evidente que ela inventou aquilo na hora, e eu caí na gargalhada, abraçando-a ).

Matilde sentiu inconscientemente a alegoria daquele lobo rondando a Alma aqui, desde que contei a ela, há meses, o episódio a que me referi. Eu agora devia afastar o lobo ou domesticá-lo. Isso! Seria possível? O guará é tímido demais, e tido, por isso, como animal covarde, arisco, que nunca se aproxima dos humanos. Pobre animal. Ainda assim responsabilizado como predador de ovelhas e galinhas foi quase dizimado e está em vias de extinção. Galdério e uns peões já falavam em caçar o bicho e eu percebi a animação dos “machos” quando se trata de caçar um “predador”. De igual para igual... E eu tinha, pois, que salvá-lo. Eu declarei:

–Que ninguém ouse matar esse animal. Vai ter que se haver comigo. Ele é meu! Veio me procurar e só comeu uma galinha porque está com fome e ela estava no seu caminho. Vocês vão ver: esta noite eu o esperarei na pradaria, no limite do jardim. Vou fazer serão ali, vou fazer fogo, levarei chaleira, bomba, cuia e mate, e ficarei sob o meu pala, se esfriar. Ninguém se aproxime... vou conversar a sós com o meu guará .
Matilde só abanou a cabeça, e Galdério tocou a aba do chapéu, como quem acata uma ordem. Tudo certo.
Naquela noite eu fiz o meu “fogo de bivaque” e tomei meu chimarrão, esperando meu lobo. E, como eu acreditava, ele veio.
Aproximou-se lentamente, os olhos brilhando tão intensamente no escuro, que a princípio tive medo, pensando tratar-se de um outro, feroz, lobo-mau mesmo. Mas a curta distância, quando eu estava prestes a vergonhosamente correr (ó mulher de pouca fé) eu o reconheci. Em lágrimas de alegria estendi os dois braços para ele, que ficou muito tempo parado, me pareceu, depois se achegou lentamente e deixou-me tocá-lo. Eu acariciei sua cabeça, seu pescoço, seu lombo. Ele deixou, imóvel. Então eu o abracei, sua cabeça junto ao meu seio. Ele fechou os olhos profundamente e eu... tive uma imensa alegria, mista de ternura, um êxtase tal que se confundiu com um orgasmo... da alma.
Depois eu beijei o seu focinho, ele lambeu meu rosto como um cão fiel e amoroso. Eu tinha ganho a minha noite, o meu dia, o meu mês. Que digo? Meu lobo me consagrara no seu Pampa, príncipe das pradarias que ele é, apesar da injusta fama de covarde e ladrão de galinhas. Ele era o meu príncipe. Ai de quem ousasse fazer-lhe mal!

Não foi preciso dizer isso quando voltei para dentro da casa, com todos me esperando. Meu olhar, meu corpo, meu aspecto diziam tudo. Nunca mais tocariam no assunto de caçar um lobo.

E as espingardas não saíram das paredes


27/02/2007

domingo, 23 de março de 2008

As gêmeas (de Alma Welt)


Detalhe do túmulo das Gêmeas


As Gêmeas
Crônica de Alma Welt)

Eu costumava descer a rua que ladeava o cemitério, observando apenas os ciprestes que se erguiam por trás dos longos muros. Sempre sinistros, os ciprestes...
Mas, naquela tarde, acompanhada de Ana, resolvemos fazer o caminho por dentro. Um passeio, isso mesmo, minha querida Ana...
Dentro dos muros, andávamos pelas alamedas a esmo olhando distraidamente os túmulos e mausoléus de uma feiúra acintosa. Pomposos. Alguns megalomaníacos mesmo, vocês sabem.
De repente, Ana se lembrou de algo. Ficou estranha e pôs-se a procurar, a rastrear alguma coisa na memória, eu diria mesmo a farejar. Eu seguia intrigada o seu olhar atento e seus passos rápidos no meio do labirinto. Ela parou diante do que, à primeira vista, pareceu-me uma parede negra.
— Alma, veja!, ela me disse com o olhar ardente. Decifre isso.
Era um muro de granito negro, polido, de uns dois metros de altura por vinte centímetros de largura. Liso, sem entalhes, nem enfeites, mas sobressaía-se uma estátua (uma escultura, melhor dizendo) de bronze, encostada numa das extremidades. Representava uma menina de seus doze anos, belamente esculpida, num estilo realista e moderno ao mesmo tempo, simples, sem planejamentos complicados, mas lisos de suaves pregas verticais. Incrivelmente viva como uma expressão de ansiedade eufórica, de expectativa confiante, quase um sorriso, os olhos muito abertos. As mãos encostadas nesse muro, paralelas ao corpo na altura de seus braços estendidos para baixo. Tudo indicava a atitude de espera ansiosa, uma brincadeira, talvez.
Do outro lado do muro negro, uma outra estátua, idêntica. Mas, noutra posição análoga, representando a mesma personagem com as mãos a altura da cabeça, de perfil, os joelhos dobrados em semi-genuflexão, o ouvido colado à parede, o mesmo olhar arregalado de tensão jocosa. Um olhar flagrante imortalizara o momento das duas pequenas brincalhonas e felizes. Idênticas, idênticas.
Na extremidade vazia do muro, uma pequena placa de bronze com versos inscritos em relevo fundido, em italiano, tirados de A Divina Comédia, que falavam vagamente de um reencontro nas estrelas...
Bem, o caso quase se oferecia, sugestivo, mas ainda um pouco misterioso.
Fui imediatamente, acompanhada por Ana, procurar o zelador do cemitério. Encontramo-lo, um velho de grandes bigodes de foca, plantando flores num túmulo a cem passos dali. Ele olhou-nos com olhos perscrutadores, azulados, gastos e respondeu às nossas perguntas com um sotaque italianado.
— Ah! Ah si, si!... Qüela tumba lá... Molta gente me pregunta. Qüilo desperta molta atençó. Si trata de due gêmela de l’inicio del sécolo. Uguale, uguale... que giocavam de esconde-esconde, nel silenzio da sala di musica, pega-pega, que sê io... Naquelo ‘nervo’ que ficaro, esperando, espreitando, de repente s’incontraro cara a cara e caíro morte le due, fulminate di susto, di alegria, qui sê io... Alora estan aí giocando per sempre gracie a uno escultore maluco e gente como voi, curiose. No sê no, si la famiglia...
Imediatamente, configurou-se-me toda a estória das duas meninas gêmeas idênticas, necessariamente belas, puras como lírios, que viviam sempre juntas, não precisando separar-se nem por um segundo, pois a simbiose era absoluta, a ponto de falarem, rirem e se espantarem ao mesmo tempo sempre. Alegres, sim, muito alegres, sempre brincando, dando-se as mãos para caminharem, para sentarem, até para se pentearem mutuamente com a outra mão. Vestidas rigorosamente iguais, pois o menor detalhe, se diferente, seria como uma ruptura e as poria em súbito choro inconsolável até que se arrancasse o adereço ou se lhes trocasse imediamente a peça.
As pessoas, adultos ou crianças, que as viam pela primeira vez, esfregavam os olhos no primeiro momento ou sentiam ligeira vertigem. Os mais sensíveis tinham uma leve e súbita dor de cabeça.
É como se eu as conhecesse desde sempre. Dupla ânima, Reflexo do reflexo infinito da alma, necessárias como um momento de reflexão.
Seus pais tiveram a sensatez de dar-lhes um único nome ao nascerem. Por que haveriam de insinuar qualquer diferenciação? Sofia e Sofia, enfatizando a sabedoria inquestionável do Criador.
Não poderiam jamais crescer, tornarem-se moças, pois casá-las seria profaná-las na separação. E um só noivo... inconcebível, infelizmente.
Deveriam partir, imortalizadas, no granito e no bronze de um artista que se comovera, meditando longamente sobre a dupla visão que é dada ao homem sobre o Real.
Agora estão brincando eternamente na grande e misteriosa Sala do Piano de Deus.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O padre

(dos Contos Secretos, de Alma Welt )

Também tive meu período de religiosidade cristã, católica, na adolescência. Como o Vati me criara praticamente como uma pequena pagã, por influência dos deuses e mitos que me dava a conhecer desde pequena (embora eu tivesse sido batizada por absoluta exigência de minha mãe), eu tinha, na verdade, a opção, e portanto me sentia livre para escolher. E essa escolha era sazonal, essa é que era a verdade.
Sendo assim, eu exercitava o lado místico da minha alma, com um ardor ingênuo, afinal, imaginando-me freira, no futuro, noiva de Cristo, o que, na verdade, eu pensava em termos quase eróticos.
Pus-me a confessar-me, quase todos os dias, para comungar, com volúpia, imaginando-me engolir um deus, o que meu pai me explicaria como sentido etimológico da palavra “entusiasmo”.
Eu inventava “pecadilhos”. Pois a minha imaginação não concebia grandes faltas, pecados, muito menos “crimes”. Mas, em compensação, eu era bastante convincente, com minha imaginação literária, de poeta.. E, como sabem, a poesia é o que há de mais verossímil, quando verdadeira, vinda do “imo”. Assim, eu inventava ou vivia em imaginação e coração, pequenos enredos interessantes, curiosos, e até misteriosos, para o pequeno padre, jovem, da nossa paróquia, a quem me confessava, deixando-o perplexo, confuso, eu percebia.
Uma manhã, estando aparentemente compungida e fervorosa, ajoelhei-me diante daquele confessionário, fechado, escuro, cuja treliça muito fechada não permitia ver o rosto do meu confessor, o que de certa forma tornava o ato mais interessante, mais instigante para mim, com aquele silêncio sem rosto que se manifestava mais eloqüentemente que as falas do jovem padre.
–Padre, eu pequei. Amo meu irmão, e dei-me a ele desde os sete anos. Agora não posso mais amar outro homem, e anseio por ele, que voltou a tomar-me todas as noites, em meu quarto, em meu leito. Ele é adolescente, como eu. Dei-lhe minha virgindade há muito tempo, mas temo engravidar, pois... ele me possui como um homem, agora, muitas vezes. Padre, tenho mêdo.
–Minha filha–(disse o padre com os cabelos em pé, eu imaginei, atrás da treliça)–o que é isso? Como podes falar assim? Então só temes isso? A gravidez? É isso que temes? E a Deus, não temes? Ambos estão em pecado mortal, gravíssimo. O pecado do incesto, outrora punido pela lei secular, com a morte. Não vês, criatura, que se não parares e te arrependeres, queimarás no inferno? Eu te dou como penitência, duas mil Ave Marias e mil e quinhentos Pai Nosso. E ainda assim , não sei se mereces perdão...
Comecei a chorar, voluptuosamente, imaginando-me arrastada em praça pública, sob ameaça de apedrejamento, a lapidação dos hebreus antigos... e um calor tomou-me o corpo todo.
–Padre, farei o que me mandares. Mas meu corpo tem um estranho calor, ali, embaixo, e não consigo dominá-lo. A felicidade que me toma o coração quando estou nos braços do meu irmão, me deixa mole, e eu não consigo reagir, rechaçá-lo. Hoje à noite, mesmo, ele me procurará, e sei que não resistirei quando ele puser suas mãos em mim. A felicidade, padre, a felicidade, então, é sinal do pecado?
—Alma, cala-te, tentadora. Cala-te e reza. Não vês que é o demônio que te sopra essa felicidade? Ela é falsa, ela é filha da luxúria. Essa felicidade como chamas, é a máscara do Demônio, seu supremo ardil. Cala-te e reza, pecadora!
–Padre (eu solucei), eu tentarei, eu tentarei, mas não podes me absolver, por hoje, e dar-me a comunhão?
–Não, não, mil vezes não. Estás em pecado, e não me convenceste de teu arrependimento. Pensas enganar teu confessor? Pensas enganar a Igreja? Pensas enganar a Deus? Sua pequena Messalina. Terás de sofrer, isso sim, para te arrependeres. Não vejo remorso em ti. Estás bela demais, esfuziante. Eu te vejo daqui, através destes furos. Tua pele alva brilha, teus olhos verdes brilham, não vejo sofrimento em ti. Estás iluminada pelo fogo de Satã, e não confio na tua confissão. Pensas que a Igreja é tola,. que podes manipulá-la. Fóra, pequena Jezebel!
Saí dali, fazendo o sinal da cruz, envergonhada e confusa. Eu fora longe demais, eu superestimara minhas forças, meu poder de sedução, e brincara com coisas sérias, agora eu via. Eu, uma simples adolescente, conseguira escandalizar um padre. Poderia confiar no seu voto de sigilo? Tive um ligeiro estremecimento de medo.
Passei uma semana sem voltar àquele confessionário. Mas também não rezei aquela penitência milionária. Eu me desconhecia, um sentimento estranho, de rebeldia, tinha sido cutucado em mim, e levantava-se como uma tendência ao desafio. Eu considerava-me imune ao pecado, acreditava na inocência primordial do ser humano, na minha própria inocência. Eu nunca poderia ser cristã, na verdade. Não acreditava no pecado, e tinha, sempre tive, um secreto orgulho do meu amor por Rôdo, que considero sublime. Eu não voltaria a ajoelhar-me.
Mas eis que veio a notícia, que abalou toda a paróquia da vila: o jovem padre suicidou-se, uma noite. Foi encontrado pendurado na corda do sino com o badalo amarrado, estrangulado, quero dizer... Foi encontrado um bilhete a seus pés, que o pequeno sacristão escondeu, e me mostrou:
“ Sou pecador, danado para a eternidade. Meu coração me traiu, meu coração me traiu, meu corpo e alma me traíram. A alma, a alma envenenou meu coração, com um amor pecaminoso. Deus se compadeça de mim, que estou no Inferno!”
Dei um grito e cobri meu rosto. Eu era culpada, afinal.

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29/09/2004

A absolvição da Alma

(crônica de Alma Welt)


Há uma pequena aldeia entre a minha estância e Rosário do Sul, que não citarei o nome, e de que me tornei, inadvertidamente “persona non grata”. Eu contei na minha crônica ou conto “O padre” (que coloquei há tempos aqui no Recanto) o suicídio de um pobre jovem padre, meu confessor. Acontece que o padre que o sucedeu, não menos fanático, não tardou a me responsabilizar e fez de tudo em seus sermões para insuflar a população contra mim, de forma disfarçada e alegórica, quando não direta mesmo. Uma vez, ainda naquela época, não me deixou entrar na igreja, praticamente me expulsando, com o dedo apontado para mim, como um anátema, chamando–me de "Jezebel". E eu era somente uma adolescente!
Bem, os anos passaram e eu raramente piso lá desde então.
Recentemente, fui com Matilde visitar parentes seus, resolvi entrar na igreja e fazer uma oração. Então vi um padre desconhecido que entrou, para preparar o cálice e os paramentos para a missa das seis, talvez por falta de um sacristão. Olhou-me com curiosidade, e eu, tendo gostado da sua fisionomia, me aproximei e disse:
–Padre, eu moro numa estância, longe daqui, e preciso me confessar. Poderia fazê-lo agora? Com o senhor?
O bom padre disse com ar compassivo:
–Sim, minha filha, pode, venha ao confessionário. Mas o que pode uma moça como tu, com esse olhar límpido, ter cometido que ofenda o Senhor?
Gostei de ouvir aquilo. Eu estava em boas mãos, e achei que não seria condenada depois de tanto tempo... Ajoelhada, ele lá dentro, comecei:
—Padre, cometi um pecado grave, há anos atrás. E não me penitenciei, na verdade só sofri. Foi com o padre Ramiro, quando eu tinha dezessete anos, Quero dizer... eu confessei coisas sem arrependimento verdadeiro, a respeito de minhas relações com meu irmão, como bravata, para provocar o pobre padre, que era fervoroso mas intolerante, ao meu ver. Que sabia eu da vida? Era uma guria tola, isso sim, embora não fosse má, queria afrontar o mundo e não sabia como.
–Eu entendo, entendo, minha filha. Mas conte-me somente os fatos, deixe que eu tire minhas próprias conclusões. Deus está vendo o teu coração. Prossiga.
–Bem, padre, eu atormentei o bom padre, que era jovem, com uma confissão impenitente, e ele me expulsou do confessionário e da igreja. Depois de uns dias, foi encontrado enforcado, pendurado na corda do sino da igreja, e deixara um bilhete, estranho, cujo conteúdo me foi revelado pelo coroinha, que era meu amigo. O bilhete de suicida fazia uma dúbia menção à “alma” que “envenenara o seu coração com um amor pecaminoso”. Não tardou o conteúdo do bilhete a vazar para a cidade, e eu fui expulsa da igreja durante uma missa pelo padre que substituiu o infeliz. Depois a própria cidade me rejeitou e eu passei anos sem vir aqui. Agora o episódio parece esquecido, embora eu note alguns olhares, e como aparecem mulheres mais velhas nas janelas quando eu entro na aldeia. Mas não é isso que me incomoda, padre. É que ficou um pequeno peso, cá dentro do meu coração, que me impede de ser feliz, como eu desejo.
–É lógico, minha filha, nem poderia, tu não foste absolvida e nem te perdoaste a ti própria, embora tenhas aparentemente te arrependido. Demoraste demais e sofreste por isso. Vou tomar como penitência esse sofrimento que chamas de “pequeno peso” em teu coração. Vou absolver-te, mas terás que rezar trinta e três Ave Maria e trinta e três Pai Nosso, em memória do padre Ramiro, e encomendar uma missa por sua alma. Agora vai, minha filha, com minha absolvição em nome de Deus e minha benção. Mas não peques mais.
E eu, que nunca fora batizada, e até aquele dia me considerara uma pagã dos antigos tempos, levantei, mais leve, e fui acender uma vela à Santa Maria, e rezar a penitência. Então, comecei a chorar, chorar, de alívio e gratidão. Não se pode brincar com as mentes e os corações alheios. É muito grave. Mas eu tinha sido perdoada por outro ser humano, e certamente também por Deus. Poderia agora me perdoar também.

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Nota:
Se o leitor quiser conhecer melhor o episódio da adolescência da Alma que gerou os fatos narrados nesta crônica, sugerimos que leia o conto entitulado "O padre".

terça-feira, 18 de março de 2008

O piano negro... o carro vermelho

(crônica de Alma Welt)

Eu me aproximava, naquela manhã, do casarão, voltando das minhas incursões ao bosque e à campina. Eu trazia amoras silvestres e pequenas flores, algumas sempre-vivas para pòr no meu quarto. Foi então que ouvi o piano do Vati. Mas... ele havia morrido há três meses! Corri para a casa, atravessei a soleira e fui direto para a biblioteca. Lá estava o piano deserto. O Steinway de meu pai. Mudo, negro, solitário. Soltei um longo gemido. E chorei, chorei.
Como viver sem o meu Vati? Como conviver com as suas lembranças, sem doer, sem doer tanto a sua barba, o seu cabelo branco, as suas mãos fortes e sensíveis? Meu pai era o poderoso Zeus, talvez Odin, talvez os dois ao mesmo tempo.
Lembro-me de que Rodo se comportou com grande contenção e dignidade o tempo todo na doença e na morte de nosso pai, enquanto eu estava próxima do delírio trágico e do escândalo. Eu rasgara as minhas roupas e arranhara os meus seios nus em público, enfiara as unhas na terra e a jogara sobre a minha cabeça. Eu uivara como uma loba. Rodo precisou me dar um tapa no rosto. E eu vi o que é ser homem, como é forte, difícil, como é poderoso ser homem! O que sei eu deles? Nada, o universo masculino... Eu o sei como aos livros, como eterna espectadora do teatro da vida. Expressão literária, bah!
Mas eu não sabia e não sei viver sem a força de meu pai, sem seu piano interpretando a minha vida, meus sentimentos mais profundos de cada período, manhã, tarde, noite. Como viver sem essa trilha sonora perfeita? Eu me sinto agora num filme mudo, extemporâneo. E sou a grande canastrona, de gestos estudados talvez, e de boquinha pintada em forma de coração sobre a minha grande boca chorona. Estou imitando a vida e preciso agora da Internet como quem precisa de uma câmara de manivela. Eu aceno a vocês, ó do Recanto, aqui, atrás da lente, como de um aquário, onde escasseia o oxigênio de uma água viciada.
Toca o telefone, eu corro. Apesar de tudo eu corro, filha incorrigível da esperança. É Rodo chegando! Ele veio! Ele está próximo, vem voando no seu carro vermelho. Meu irmão me salvará de mim mesma!
Por hoje não enlouquecerei...

Minha avó Frida

(crônica de Alma Welt)

Ontem subi ao sótão do nosso casarão para “fuçar” um pouco, talvez descobrir alguma curiosidade acerca da história da família, desde pelo menos meus avós. E realmente encontrei. Velhas fotos do meu avô Joachin em uniforme de soldado da primeira guerra mundial (pela data atrás, e ele viera para o Brasil antes da Segunda Grande Guerra ), com fuzil na mão e tudo. Mas já tinha um olhar duro de nazista, Deus o perdoe. E... de repente, uma foto da minha avó Frida, jovem. Aliás, só a reconheci por uma certa semelhança comigo, e pelo nome atrás. Ela era linda! Jamais pensei nela assim. Eu a conheci como uma velha curvada, de aspecto plebeu, enorme nariz adunco, desdentada, queixo proeminente, grotesca, de cabelos brancos longos e soltos, como as velhas burguesas não usam, e que lhe davam ares de bruxa medieval, de gravura de Dürer ou de Hans Baldung Grien. Ela sempre me fascinara, como tal. E agora esta! Ela fora linda na juventude! Bem, ela só ficara com aspecto de bruxa, mas não era má, ou não dava essa sensação depois do primeiro contato. Ela era divertida e ria muito, aliás, gargalhava: uma casquinada muito fina, que reforçava a idéia de uma feiticeira picaresca. E ainda por cima ela contava estórias anedóticas, de estranho humor satírico. Eu adorava isso. Já recontei algumas estórias dela dentro do meu romance “O Sangue da Terra”, no capítulo chamado “O Condestável Gottfried” que coloquei aqui no LL, há meses.

Pois bem, ao vê-la assim, jovem, esplêndida, eu procurei naqueles olhos doces da fotografia, aquela luz pícara, a malícia que ela transmitia nas suas estórias. E... encontrei! Estava lá. Bem... eu sei que tudo isso é muito subjetivo, imponderável, e... impossível de conferir. Quem poderia prever, pelos olhos, a futura bruxa de amanhã?

Olhei-me imediatamente ao espelho.

A professora Daisy

(crônica de Alma Welt)



Recebi um e.mail de uma professora de do primeiro ciclo (ginasial) que tendo percebido que seus alunos, principalmente as gurias, entravam no meu site para ler meus “textos eróticos”, estava preocupada, pois , segundo ela, as meninas estavam ficando praticamente viciadas e havia burburinho no pátio e nos corredores, de comentários e risinhos maliciosos. . Diante disso ela, a professora Daisy (vou chamá-la assim ) descobrira através de uma delatora o endereço do meu site e entrara para conferir a periculosidade dos textos que estavam causando tal alvoroço.

Dona Daisy não me pareceu uma pessoa particularmente intolerante ou moralista fanática como poderia ser. Ao contrário, me pareceu bastante ponderada. Dizia na sua carta que se surpreendera com qualidade literária dos meus textos e gostara mesmo de alguns sonetos, crônicas e cartas. Mas, ponderava ela, os textos eróticos justamente por serem bem escritos eram aliciantes e influenciavam as garotas. Havia um elemento incestuoso que chocava, embora descrito com lirismo, etc. Perguntava se eu não poderia retirar esses textos do site, ou... reformá-los, já que estavam alvoroçando os jovens da sua escola.

Eu imediatamente respondi enviando-lhe um e.mail dizendo que eu consultara o meu próprio coração e que não podia fazer isso. Minha consciência de artista não me permitia voltar atrás. Eu me expusera conscientemente e de coração limpo, que não havia pornografia nos meus textos e que, sendo assim, não havia, como a palavra indica, sujeira. Logo, não poderia fazer mal aos guris os meus textos. Pelo contrario eu os fazia ver a beleza do sexo livre e explicito. De maneira positiva eles aprenderiam a diferença entre erotismo e pornografia..

Dona Daisy respondeu numa segunda carta, argumentando entre outras coisas o seguinte: sim, ela reconhecia que meus textos não eram pornográficos, e que estava ela mesma fascinada por eles. Mas percebia que estavam aumentando os casos de namoros entre as garotas. Isto é, garotas com garotas. E que já presenciara beijos na boca, “selinhos” entre elas , e até mesmo beijos mais ardentes, garotas de mãos dadas pelos corredores e pelos pátios. E que atribuía esse comportamento à influência de determinado texto meu, pois encontrara copias xerox desse conto entre os cadernos e livros de algumas alunas. Dona Daisy me perguntava se eu tinha consciência de que estava induzindo as jovens ao lesbianismo.

Desta vez respondi um pouco mais exaltada: “Dona Daisy , deixa as tuas alunas lerem, se excitarem, amarem e experimentarem. Nada do que fizerem não estava já dentro delas. Tuas alunas que se beijam , já se beijavam escondidas. E aquelas que não o fazem, provavelmente não o farão nunca. Trata-se de tendências naturais. Não tente impor a lei seca, Dona Daisy! As gurias são molhadinhas de nascença.

Dona Daisy, infelizmente sumiu da minha caixa de e.mails, justamente quando a nossa polêmica estava esquentando e eu estava ficando empolgada.

Mas algo nas suas cartas me faz supor que ela continua lendo meus textos e que ainda terei notícias dela.

sábado, 15 de março de 2008

A Peregrina

(crônica de Alma Welt)

Hoje, domingo, acordei com o som de uma trombeta, ao longe, e saltei da cama, desperta e eufórica. Corri para a pia do meu banheiro e joguei água no rosto, apressadamente escovei os dentes e os cabelos, enxuguei o rosto, e sem tomar a minha ducha, vesti um vestido folgado pela cabeça, sem calcinha, calcei minhas sandálias e desabalei pelo jardim, correndo em direção ao bosque. Eu ia tomar o café da manhã com Rafisa! Minha amada cigana Rafisa estava lá, me enviando a nossa senha sonora.

Ali, na beira do bosque, de longe ainda a avistei ao lado do seu carroção estacionado, com sua saia longa sarapintada, acocorada ao lado de uma fogueirinha com uma armação onde fumegava uma chaleira.

Cheguei gargalhando diante dela já erguida de braços abertos, e rodopiamos agarradas e aos gritos de alegria. Minha linda cigana! Que deslumbramento quando ela vem!

Rodamos tanto que caímos sobre a relva, aos beijos, ávidas de nossos carinhos. Logo estávamos de mãos dadas entrando pela parte traseira do carroção para nos possuirmos sobre seus tapetes caucasianos entre os almofadões. Eu a despi, beijando cada parte descoberta e quando cheguei no seu ventre moreno, encontrei-o um tanto proeminente. Minha Rafisa estava grávida! Toquei-a, acariciei sua barriga e seu púbis crescido, sua ampla vulva alongada. Ela toda se preparava! Eu estava perplexa. Então ao retirar-lhe a blusa bordada, reparei em marcas nas suas espáduas, no seu lindo torso, outrora sedoso, agora marcado, lanhado, cicatrizado. Encarei-a tremendo, ofegante, e perguntei-lhe:

–Rafisa, o quê é isto, quê fizeram contigo?

E ela respondeu depois de um silêncio:

—Foi um teu vizinho distante, o estancieiro Rafael Contardo, que mandou me açoitar.

–Rafisa! Como! Que dizes? Ah! Aquele canalha! Como foi isso? Por quê, Rafisa? Que horror!

—Eu tinha, numa vez anterior, em sua estância, lido a sua sorte e tendo visto isso disse a ele que a mulher mais importante de sua vida ia deixá-lo. Ele ficou abalado e foi trancar a mulher em casa. Pouco depois a sua filha, guria de 18 anos, fugiu de casa já que ele estava concentrado vigiando a mulher, e foi para Porto Alegre, de onde sumiu, presume-se que foi para São Paulo ou Rio, talvez para o exterior. Sem saber de nada, quando passei de novo por lá, depois de meses, ele me aprisionou, com dois capangas, me desnudou e amarrada num umbu mandou que me açoitassem. Em seguida, eu quase desmaiada, ele ordenou aos seus homens que me violassem. Eles fizeram isso, apesar de meus gritos e maldições, por muitos minutos intermináveis, revezando-se, enquanto o Contardo observava e ria. Depois me arrastaram, me jogaram no carroção assim pelada e chicotearam minha égua que saiu desabalada, sem rumo. Agora, passados meses, estou assim, embuchada, e não sei de qual dos dois peões estou prenha. Mas tanto faz... a criança, o inocente, é bem vindo e não saberá nunca o pai que nem tem. Não chores, minha Alma, não estou infeliz, pelo contrário...

Eu chorava e chorava, acariciando a sua barriga e beijando, beijando aquela criança, a ciganinha que nasceria e que eu gostaria de criar junto com a minha Rafisa, sim, por essas estradas, desse Brasil sem fim, tão cruel às vezes, mas que era nosso, mais dela do que meu, peregrina e vidente que ela era dos destinos alheios, alheia ao seu próprio triste e belo destino.

O País dos Sonhos

(crônica de Alma Welt)


Eu tive em minha vida muitos privilégios, reconheço. O maior deles é o amor de meu irmão Rôdo, e sua cumplicidade, desde guris. Já me referi muitas vezes nos meus contos, crônicas, poemas e romances, à nossa convivência, nossa tramas, nossas afinidades. Se por um lado eu não tive isso com minhas irmãs mais velhas, a amizade e o amor de Rôdo superou em muito a falta de intimidades femininas, de mocinhas com quem eu pudesse compartilhar as coisas de guria.

A camaradagem com meu irmão me fazia mais aventureira, ousada, e ativa. Quando eu não estava lendo, corríamos juntos pela pradaria, pelo bosque, nadávamos pelados no poço da cascata, cavalgávamos, às vezes eu na sua frente , na mesma sela, outras lado a lado em dois cavalos. Como fomos felizes! Como tramávamos aventuras e pequenas conspirações graciosas, descobrindo o mundo... Como nos amávamos! Até hoje...

Rôdo agora não pára muito na estância, vive pelo mundo, correndo no seu carro esporte, jogando nos cassinos, perdendo, ganhando (mais ganhando que perdendo). Um profissional, na verdade.

Mas quando ele vem para curtas temporadas, aqui na estância, que ele chama o “nosso País dos Sonhos”, eu sei que é por mim, sua irmã querida, que ele volta. E somos um para o outro. Inteiros.

Amanhã ele chegará. Vou esperá-lo na porteira, e me atirarei nos seus braços por cima da porta do carro vermelho. Vou beijá-lo tanto que ele me dirá “pegajosa”, gargalhando. Depois ele prosseguirá mais um pouco, adentrando a porteira, e estacionará diante da escadaria do casarão, comigo dependurada no seu pescoço, sairá com dificuldade do carro, e subirá comigo nas costas, pulando os degraus, ágil e forte, eu de “cavalinho” escanchada em sua cintura por trás, para ir direto saudar Matilde, abraçá-la como se eu não estivesse ali empoleirada nele, numa atitude surrealista, como se eu fosse uma alucinação dos outros. Entretanto, Matilde que nos conhece, abanará a cabeça e dirá, falsamente séria:

–Guri, que bom que voltaste, não viste a Alma por aí? Ela vai grudar em ti assim que vocês se encontrarem. Como um carrapato-estrela. Tu a conheces... Bah! Aquela guria não cresce!

O Último Fandango

(crônica de Alma Welt)


Creio que não há nada mais belo na experiência humana em sociedade, do que as festas. É quando a ingenuidade aflora, e o homem se revela pueril, retomando a sua pureza perdida. Mas é também quando sob o influxo do vinho, o sangue pode clamar e ferver.

O último fandango que ocorreu em nossa estância, no galpão, não faz muito tempo, deixou-me uma impressão perturbadora, e fechou as minhas lembranças de todos os bailes de galpão desde a minha infância, decidindo encerrá-las para sempre.

Nessa ocasião eu me vesti de “chinoca”, e Rôdo com suas bombachas bordadas, faixa na cintura, punhal de prata, botas, esporas, todo o aparato de “gaucho macho”, e nos encaminhamos de mãos dadas para o galpão, ao anoitecer, onde já ouvíamos a gaita, a viola, e o bater das palmas e botas, e o tilintar dos esporões.

Assim que entramos, houve um súbito silêncio reverente, e logo saudações, que nos emocionaram. Nós, os patrõezinhos, éramos bem-quistos e respeitados. Benza Deus!

Dancei muito, primeiramente com Rôdo, e logo comecei a ser tirada pelos jovens peões e até por alguns mais velhos. Eu estava feliz, e sorria, sorria o tempo todo, dançando com alma, e creio, com graça.

Mas, ai de nós! A bebida corria, o vinho, e até aguardente, que misturados produzem uma fórmula desastrada. Logo começaram os empurrões, a disputa entre eles pelas danças com a patroínha. Era hora dos patrões se retirarem, eu senti, mas... era tarde: fui por minha vez empurrada por uma chinoca, desequilibrei-me e caí.

Fiquei aturdida por um momento, fez-se silêncio e logo me ajudaram a levantar. Ma a noite estava estragada, eu percebi, pois dois peões, que não identifiquei direito, saíram seguidos por outros, de maneira solene, e eu pressenti que iriam duelar lá fora, por alguma guria. Eu quis impedir, precipitei-me para fora do galpão, mas fui praticamente barrada pelas mulheres. Lá fora o alarido dos machos já denunciava a pelea. Ouviu-se um grito longo e... silêncio. Eu gritei: “Rôdo! Rôdo!” Meu coração gelou-se. Onde estava o meu irmão? Quem peleara? Ai! Eu não agüentaria! Por quê não me deixam passar?

Então ouvi a voz de meu irmão, vindo a mim:

— Alma, acalma-te, acabou. Apenas um foi ferido à faca, a honra deles está lavada. Não te manifestes, a prenda disputada era tu. Mas creio que simbolicamente, pois o vencedor não ousará reclamar-te. Conheço-os, foi puramente simbólico, embora eles pudessem se matar verdadeiramente. Vamos voltar para casa. Tira a tua fantasia de china, que estavas tentadora demais, sem o saber. Vamos arrematar a noite com um chimarrão, só nos dois, minha querida irmã. O Pampa já cobrou a sua taça de sangue por esta noite...

A vida secreta de Galdério

(crônica de Alma Welt)

Nosso jardineiro, charreteiro, seleiro e faz-tudo, Galdério, veio jovem trabalhar para o meu pai, no começo dos anos 70, junto com sua irmã Matilde que viria a ser a minha amada babá. Galdério era um rapaz meio estranho, mas leal a toda prova. Solitário, nunca soubemos de um namoro seu, ou de qualquer caso dele relacionado a amor ou sexo. Nunca foi visto no bordel de Rosário do Sul, a cidade mais próxima da nossa estância, onde alguns peões nossos, de folga, faziam suas incursões, comentadas depois de maneira picaresca por outros, até chegar nos ouvidos da Matilde que fazia verdadeiras catilinárias na cozinha contra esses costumes “depravados” dos peões... Eu, guriazinha, ouvia aquelas coisas, perplexa, sem compreender, mas com a imaginação voando por ambientes que eu nunca veria, mas que de alguma forma me eram estranhamente familiares. Até hoje me pergunto: teria eu sido prostituta em alguma outra encarnação? Provavelmente sim. Mas não quero perder o foco. Estou contando sobre o Galdério.

O solitário factótum tornou-se imprescindível no elenco coadjuvante da nossa estância e seu devotamento ao Vati, à Mutti, e principalmente a mim, chegou muitas vezes a comover. Respeitoso e solene à sua moda, mas comparável a um mordomo de cinema inglês não fora o aspecto, isto é, as bombachas , os bigodes caídos e o carregado sotaque gaúcho, é realmente uma figuraça.

Recentemente, há poucos meses, eu descobri algo a seu respeito que me comoveu mais que tudo. Ouvi, quase sem querer, uma conversa de sua irmã com ele, atrás da porta do quarto da Matilde. Ela dizia:

–O que vais fazer, seu cabeça-dura? Estamos aqui para o resto das nossas vidas. Este é o destino que nos coube e ele é muito bom. Amamos esta família. O que deu em ti? Sair daqui? Tu? Ires embora? Mas se aqui já és imprescindível, e a Alma te aprecia, te trata bem, sempre foi boa para contigo. Aliás, com todos. Nossa princesa é muito boa, nunca maltratou ninguém. Porque queres ir embora?

–Minha irmã, não agüento mais, já te disse. Eu amo Alma com respeito, mais que a minha vida. Mas depois que tive aquele sonho não posso mais encará-la. Não posso sequer estar com ela ao meu lado na charrete. Não sou mais digno. Eu não queria, não queria ter visto ela como vi. Mas a princesa se expõe, tive que despedir peões que viram ela e ousaram comentar. Ela anda assim, sem roupa, na pradaria, no bosque, nada assim no poço da cascata. Eu não queria ter visto, mas quando aconteceu eu fechei os olhos, mas “abri eles” logo. Abri eles! Agora não tenho mais paz. Sonhei aquele sonho e agora não sou mais digno de trabalhar para ela. Tenho que ir embora.

Matilde fez um silêncio demorado, depois retrucou:

–Galdério, meu irmão, isso não é a solução. Tens apenas que ir a Rosário procurar o padre Tarso e confessar-te, arrepender-te e fazer a penitência. Só isso! E tirar para sempre os maus pensamentos dessa tua cabeça-dura. É o que tens a fazer, seu Galdério.

Afastei-me daquela porta, emocionada que estava, com o coração batendo forte. Confusa e até envergonhada, dei-me conta de quanto eu devia perturbar com o meu comportamento aquelas pobres almas pudicas, simples e ingênuas. Eu sei, não há maldade em mim, mas a vida e os costumes são mais complexos do que eu desejaria. Devo ter sido uma tortura para o pobre Galdério, há muito tempo.

Quanta coisa mais este peão deve ter visto, desde a minha infância com Rôdo! Meu Deus, perdoai-me, porque nunca soube bem o que faço!

O nada inocente verão dos meus vinte anos

(crônica de Alma Welt)

Naquele verão eu me sentia especialmente feliz e distribuía abraços e beijos aos que me cercavam. Rôdo sorria, e me observava com aqueles olhos aquilinos que eu tanto admirava. Ele se aproximou de mim, estendida na borda da piscina, beijou minha orelha (eu me arrepiei) e disse:

–Alminha, quem vem aí, hem? Quem estás esperando para esta temporada. Guri ou guria? Qual será a nova presa que compartilharás comigo, minha leoa?

Dei-lhe um soquinho pelo seu cinismo, que na verdade sempre apreciara, e sorri sem responder.
Naquela tarde eu iria à estação pra receber a minha amiga, a “açoriana” Letícia, excelente bailarina que eu reencontrara em Novo Hamburgo, e com quem já dançara algumas vezes e também pintara o retrato nu. Nua, sim, nua e linda. Rôdo admirara especialmente essa pintura, que acabei presenteando a ele.
Ao revê-la na estação eu novamente me emocionei com a sua visão, logo ao descer do trem, com sua beleza morena, sua elegância de bailarina, seu pescoço muito longo, como o meu. E abracei-a com um ligeiro aperto no coração.
Ela imediatamente perguntou:

—E aí, guria, vou afinal conhecer o teu irmão? Ele está aí, o viajante sem pouso, o inquieto trota-mundos?

Eu ri: — “Trota-mundos”? Que expressão mais antiga!... De onde tiraste, sua louquinha? Vamos lá, dá-me a tua mochila, Galdério nos espera na charrete. Vais conhecer o meu pampa no caminho.

No retorno, rumo ao casarão, eu sabia o que nos esperava. Os olhos dos dois, apenas encontrados não se despregariam mais. Eu sabia que naquela noite mesma, eu despertaria, e veria o seu lado do meu leito vazio, e certamente levantaria pra ouvir atrás das portas. Talvez entrasse, invadisse... não só por ciúmes, mas por legítimo desejo. Eu a vira primeiro.

Aquele verão prometia coisas maravilhosas, eu antevia. E me lembro que esse pensamento, ou talvez só pressentimento, estranhamente foi o que restou impregnado em meu espírito depois de tudo, de todo aquele conturbado, vago e... nada inocente verão dos meus vinte anos.

O Duelo

(crônica de Alma Welt)

Como já contei algumas vezes, eu costumava (até hoje, na verdade) banhar-me nua no nosso poço da cascata. Na infância e adolescência eu já fazia isso sozinha ou com o Rôdo, meu irmão, e brincávamos ali por no mínimo uma hora a cada dia escolhido, nos verões de nossas férias. Vez por outra ouvíamos comentários de comentários pois havia espiões, desde Solange até mesmo um peão, nos observaram escondidos. Mas isso nunca nos deteve. Rôdo foi sempre muito respeitado, desde guri, por seu espírito indômito, cheio de um caráter firme e segurança interior. Meu irmãozinho sempre foi um fenômeno e eu o admiro e sinto-me segura com ele, como se fosse... sua “prenda”, essa é a verdade.
Digo isso porque houve mesmo o momento em que fui disputada à faca ao meu irmão, por um jovem peão, que tendo me visto nua, apaixonou-se, alucinou, e achou que por ter-me visto assim, eu era automaticamente dele: ele já me possuíra com o seu olhar!
Foi uma situação insólita e peculiar, e se não fosse Rôdo defender-me eu seria mesmo “possuída”, isto é, violada por aquele jovem na primeira oportunidade.
Lembro-me que tive um pressentimento, certa manhã, quando Rôdo não apareceu ao encontro combinado, no poço, e então corri para a pradaria, ao lugar onde sobre uma coxilha havia um grande umbuzeiro, a nossa árvore preferida, depois da macieira do meu pomar.
De longe já os avistei, batendo-se à faca. Eu vinha gritando, gritando de medo de Rôdo ser ferido, e chegando esbaforida após subir a colina, caí exausta entre os dois. Eles pararam, seus punhais na mão, e ficaram olhando-me, ofegantes também.
Então, eu (nunca me esqueço), guria melodramática fiz a única coisa que poderia detê-los: ajoelhada na relva, rasguei subitamente o busto do meu vestido e desnudei meus seios, que ofereci, gritando:
–Vamos, cravem suas facas, aqui, uma em cada seio, depois afastem-se para sempre, um do outro!
Os dois gaúchos, atônitos, estarrecidos (o próprio Rôdo jamais esperaria uma coisa assim) guardaram suas facas e afastaram-se, Rôdo logo seguido por mim, que no caminho, como uma pequena “vivandeira*, recompunha meus “farrapos” com a mão, seguindo o meu guerreiro.
Tinha certeza, como ainda hoje (embora eu ria quando me lembro daquilo), que eu produzira uma espécie feminina de “juizo salomônico”, livresco ou instintivo, não sei ao certo. Eu caminhava perplexa comigo mesma, mas aliviada, feliz. Não seria disputada nesse nível perigoso, tão cedo, por ninguém.

Pernoite

(crônica de Alma Welt)


Quando o sol se põe aqui no Pampa eu me sento na varanda e fico toda uma hora em silêncio a observar os tons que se sucedem com espantosa sutileza para o olho apurado que pretendo desenvolver (se é que isso é possível) para a minha pintura. Digo isso porque a verdade é que minha intimidade maior, desde a infância, é com as letras, isto é, com as palavras e o pensamento poético. E talvez também com a música.
Mas hoje fui interrompida pela chegada de um peão desconhecido, homem maduro, de grandes bigodes grisalhos caídos e olhar penetrante. Aproximou-se no seu cavalo a passo, lentamente, e pôs-se bem diante de mim, que não me levantei da cadeira de balanço, e saudou:
- Buenas! É a dona Alma, pois não? Já ouvi falar da patroa... coisas boas, se me permite.

- Buenas- respondi.- Em que posso servir vosmecê?

O peão pareceu quase surpreso da minha boa acolhida motivada principalmente pelo seu “coisas boas” que me comprou de saída.. Então apeou com calma, tirou o chapéu e continuou:

- Pois bueno, patroa, meu nome é Mateus, preciso de guarida, um pernoite somente, pois amanhã uns pau-mandados me alcançarão se não partir bem cedo. Querem a minha pele, a senhora já viu. Estou na dianteira, mas já semeei uns dois ou três pelo caminho, que me mordiam os tacões. Quero evitar plantar alguns nestes prados pra não “le” dar aborrecimento, que a patroa não merece.

Surpresa por minha vez, hesitei um pouco, mas retruquei:
- Está bem, Mateus, tua franqueza já ganhou a minha acolhida. Vá procurar o Galdério que ele te mostrará o galpão onde poderás descansar, e te levará a ceia e o chimarrão.
.....................................................................................

Passei parte da noite no salão lendo na mesa de jantar com um candeeiro sobre ela. Mas não consegui me concentrar na leitura. Meu pensamento vagava e ia até o galpão espiar o meu hóspede inesperado. Eu o temia? Quase... Mas ao mesmo tempo estava fascinada e intrigada. Ele não me pareceu perigoso, pois era a própria imagem da força e da segurança. Um homem assim nunca faria mal a uma mulher. Mas os maus que se cuidassem, pois esse homem tinha a marca de um justiceiro, era o que eu intuía.
Não pude mais me conter. Eu não poderia ficar encerrada numa noite assim no casarão, na sala, e muito menos em meu quarto, tão íntimo e falsamente protegido. Resolvi ir ao galpão para espionar meu hóspede. Eu tentaria manter-me escondida, eu conhecia de longa data as frestas daquela construção de madeira.
Atravessei o jardim sem lume algum, eu não deveria ser avistada de longe. Esgueirei-me no pomar e no trecho de campina. Rodeei a vetusta construção de pinho que apresentava uma luminescência interna: ele devia estar acordado!
Aproximei-me pé ante pé da minha fresta predileta de onde podia ver quase todo o interior do galpão e... fiquei estarrecida!
Dentro, recostado em sua sela sobre um toco, no chão, diante de seu cavalo cabisbaixo, Mateus chorava. Soluçava o peão com a cabeça baixa entre as enormes mãos. Tinha remorsos ou medo?
Jamais saberei. O peão sofria...

16/05/2006

Eu e os mágicos

(crônica de Alma Welt)


Desde guria sou fascinada pela arte dos mágicos prestidigitadores. Desde o dia em que presenciei o show de um deles numa festa de fim de ano da escola primária em Novo Hamburgo, em que me emocionei com a pomba tirada de uma cartola. Daí por diante, emocionalmente pelo menos, eu veria todos chapéus como esconderijos potenciais de pombas, patos e coelhos, e portanto, o verdadeiro refúgio da ternura dos seus portadores.
As imagens do mundo, que forjamos na infância, nos acompanharão pra sempre intactas, no terreno afetivo. Mas eu sei que isso é verdade somente para aqueles que se mantêm fiéis à sua infância e seus ocultos pactos com o mundo, com a vida.
Havia na nossa estância um velho peão, o mais antigo, que era o preferido de meu pai, que o considerava um venerável exemplo de sabedoria popular. Meu pai, que além de extremamente culto, erudito, tinha também, ele próprio enorme sabedoria, a ponto de reconhecê-la num simples peão semi-analfabeto, por seu apreço pelo velho boiadeiro me fez também perceber e aproximar-me daquele homem de barbas e cabelos brancos bem menos tratados.
Um dia, no inverno, guria ainda, fui visitá-lo sozinha, e encontrei-o na varanda de seu chalé de madeira, onde aposentado, ficava horas, mirando o horizonte e fumando o seu cachimbo. Levei-lhe um poema meu, como único presente que me ocorreu oferecer-lhe como prova de meu afeto e respeito.
O velho peão recebeu a folha de papel, e depois de retirar uma espécie de touca de lã que eu tinha na cabeça, colocada por minha mãe, passou a mão rapidamente no alto e em seguida abrindo a folha em suas mãos grossas e calosas, me fez ver uma borboleta pousada sobre meus versos, em que ele mal deitara os olhos. Então, ele pegou a borboleta, que me pareceu trêmula, e com uma delicadeza insuspeitada, pela ponta das asas a colocou no meu ombro, olhando-me profundamente, com seus olhos gastos azulados, com um sorriso que percebi sob os imensos bigodes brancos caídos. Aquilo me pareceu mágico, e ao mesmo tempo uma espécie de recado cifrado, vago, que eu não saberia decifrar naquele momento.
Alguns dias depois aquele homem estaria morto, e eu recebi a notícia com extrema emoção. Fui vê-lo em seu caixão, cercado de peões e algumas mulheres, peonas velhas e jovens, além da nossa chorosa Matilde, na pequena sala de sua querência, como ele dizia.
E ali, cercada de lágrimas e alguns sorrisos, depositei, com toda a minha inocência, sobre o seu peito, acima de suas mãos cruzadas, um novo poeminha meu, para que ele o transformasse numa borboleta que o acompanharia em sua nova jornada no pampa longínquo do horizonte que o aguardava.

Uma recordação de infância da Alma

(crônica de Alma Welt)


Quando guria, na estância, eu sentia a plenitude de estar entre as flores, no jardim de minha mãe, sob o sol, e entre os zumbidos das abelhas e o vôo terno das borboletas. E percebia que ela, Ana Morgado, me preferia ali, como menina bela e doce, do que entre os livros, em que parecia escamotear-me aos seus olhos, refugiando-me num mundo que ela não sentia acessível a si mesma, na biblioteca que era o reino de meu pai. Ela estava certa: eu viajava longe em mundos insuspeitados, em todas as eras, todos os séculos, inúmeros reinos e povos. Mas sobretudo no perigoso e suspeito mundo dos artistas.

Minha mãe tinha razão, nada mais “subversivo” que uma boa biografia de um grande artista. Uma das primeiras que me encantaram foi a de Michelangelo, de autoria de Romain Rolland que, fora o prefácio, começava assim: “Era um burguês florentino...” Que sonho, real, profundo, universal, penetrar naquela Renascença, entre todos aqueles gênios concentrados na bela Itália, num dos períodos mais fecundos da história, comparado à própria matriz grega clássica de sua inspiração! Depois vieram centenas dessas biografias, como a de Byron (Don Juan ou a vida de Lord Byron) de André Maurois, só para citar outra de minha preferência. Mas o meu maior deslumbramento foi com “O Romance de Leonardo da Vinci”, de Dimitri Merejkowski, maravilhoso autor russo quase esquecido hoje em dia. Ali eu conheci e me apaixonei pelo grande Artista, um dos maiores da história, em todos os tempos. Devo dizer, que por causa da visão de Leonardo proposta por aquele livro, eu evitei até agora ler esse tão citado “O Código Da Vinci”, com receio de arruinar o meu olhar sobre o mestre.

Mas como eu dizia, minha mãe suspeitava das minhas leituras, pois elas me afastavam do seu mundo restrito, padronizado, comezinho, alheia até mesmo à sua própria beleza intrínseca, que, como poeta, ao descobri-la me livrei de todo o ressentimento. Por isso, num dia muito especial em minha vida, eu me lembro de ter ficado muitos minutos, observando, sob uma luz propícia o seu lindo perfil, debruçada sobre um bordado, que de repente me pareceu belo, para além do mimoso e convencional que realmente era.

Pobre Mutti! Ela nunca soube de seu próprio mistério e poesia...

Divagações da Alma

(crônica de Alma Welt)


Há algo que nunca deixarei que acabe em nossa estância. Trata-se da charrete do Galdério, o hábito de irmos buscar nossos eventuais hóspedes na estaçãozinha de trem, uma das últimas Maria-Fumaça ainda na ativa no Brasil. Enquanto eu for viva lutarei pra a preservação dessa relíquia, tão cara a mim, que sou acusada de “antiquada” e passadista, por isso. O próprio Rôdo, meu querido irmão, sorri, irônico e condescendente, quando se toca no assunto. Ele, com sua paixão por carros esporte e seu amor pela velocidade, é sem dúvida bem mais “moderno” do que eu. Mas não se trata disso! É uma questão cultural, e eu tenho lutado desde a morte do Vati para que nada se modifique por aqui, e que o casarão não sofra nenhuma reforma, mesmo se mostrando nitidamente “decadente”, com rachaduras e musgo subindo pela fachada e paredes externas ( Rôdo compara-a , rindo, à Casa de Usher, de Poe). Minha luta ( reacionária talvez ) eu registrei no meu romance autobiográfico A Herança, ainda inédito. Acredito que o meu romance é atual e oportuno justamente por se situar na fronteira de dois mundos: a face tradicional e até arcaica do Pampa, e o mundo citadino, cosmopolita, da comunicação de massa, embora eu mesma não tenha comprado até hoje um celular (pasmem!). Escrevo à mão (só não com pena de ganso) antes de digitar, e somente a partir de 2001, quando fui contatada e “descoberta” pelo Guilherme de Faria, comprei um computador e aprendi a navegar na Internet. Confesso que fiquei praticamente viciada. A net é realmente a maior revolução desta virada do século, e me permite “ganhar tempo” enquanto as editoras me olham ressabiadas: “...essa escritora é profunda, tem o que dizer, na certa não venderá. As pessoas não gostam de refletir, nem de sofrer, nem mesmo de se comover, querem apenas se divertir: sua faceta ponderável para nós é a do seu erotismo. Mas ela não é suficientemente pornográfica. Será que venderá?’

Alma Welt permanece sob suspeita. Estarão os abutres esperando somente a morte da gaúcha doida, da “última romântica”? Tenho elementos para supor que sim.

Em compensação, uma rede de leitores, no boca a boca propaga minha literatura, “como musgo sobre a tundra” (expressão um tanto nórdica, minha mesma) E tenho recebido milhares de e.mails com manifestações de afeto e apreço. Isso é o que vale.


06/11/2006

A Navalha e o Abismo

(crônica de Alma Welt)


Meu pai possuía uma navalha de barbear que me fascinava, em minha infância. Era um objeto magnífico, com cabo de marfim, dentro de um belo estojo, com a marca alemã em letras douradas: Abgrund & Sohn. Ele não a usava desde a sua juventude, quando deixara a barba crescer e eu só o conheci barbado, patriarcal, a princípio fulvo e grisalho, depois todo branco. No entanto ele guardava a sua navalha, que lhe era cara por alguma razão. Digo isso, por que, estranhamente, eu nunca lhe perguntei como a obtivera, se ganhara de alguém, se a comprara numa loja, ou se fora de seu pai, coisas assim. A razão da minha discrição, acredito, é que o objeto parecia secreto, a mim, que cheguei perto da obsessão, por um período, naquela época. Foi logo que descobri o estojo na gaveta de sua escrivaninha, na biblioteca. Eu o abri, e deslumbrada, num nicho em depressão sobre o veludo, dormia o objeto que me... “vertiginou”. Eu desnudei a lâmina, lentamente, com o dedo indicador toquei-lhe o fio, e imediatamente a minha carne se abriu quase até o osso, me pareceu. Dei um grito e nem sei como guardei o objeto agressivo, no estojo, empurrando a gaveta com a outra mão, para sair correndo buscar gaze e esparadrapo, para tratar-me, pois sabia que fizera algo errado e pretendia esconder o fruto da minha bisbilhotice. Eu consegui facilmente, de minha mãe e de Matilde, sob interrogatório, atribuindo o corte a uma inocente faca de cozinha. Meu pai percebeu a verdade, eu acho, pois a navalha dever ter ficado manchada do meu sangue. Mas ele nada comentou, para não abrir uma nova área de atrito com minha mãe. E escondeu a lâmina noutro lugar, eu depreendi. Com um meio sorriso, levantou o dedo, disfarçadamente, para mim, a um tempo com admoestação e cumplicidade, assim me pareceu.

Daí por diante fiquei praticamente assombrada pela navalha e seu perigo. Eu tomara a consciência traumática de sua ameaça, de seu... abismo. Sim, pois por alguma ilação poética, cuja propensão me era inata, eu associei a navalha a um abismo. Quando dali a não muito tempo eu descobri na estante da biblioteca, o livro intitulado “O Fio da Navalha", de W. Somerset Maugham, eu o devorei, para encontrar a resposta do enigma daquela lâmina. E, acreditem, apesar da ingenuidade do meu propósito infantil, eu a encontrei. Há mesmo uma associação entre o fio da navalha e o abismo, pois a metáfora de andar no fio de uma navalha incorre no perigo de abismar-se, talvez dividido ao meio, numa queda sem retorno. Na minha mente, porém, a própria lâmina era o precipício.

Entretanto aquele era um objeto material que continuava me atraindo, me chamando, me obcecando. Eu temia levantar à noite, sonâmbula ou não, ir direto ao seu novo esconderijo, que de alguma forma eu sabia, e precipitar-me sobre ele. O que era estranho é que eu não me via degolada, mas sentando-me nua na lâmina aberta, sobre o fio, e cortando a minha pequena vulva, num talho sangrento, que não se fecharia nunca. Quando afinal surgiu o sangue da minha menarca, por uma fração de segundo, inesquecível e terrificante, eu pensei ter feito aquilo: sentara-me na lâmina sagrada e proibida!

Eu agora estava no abismo de mim mesma, do meu desejo infinito, do misterioso sangue das minhas entranhas de mulher!

Indiana Lopez, a Mulher dos Cabelos de Ferro

(crônica de Alma Welt)


Devo partir com ela? Há um mês que penso nisso, seriamente tentada. Sim, isto está bem claro. Como não pensar nisto? Olho a minha vida, este apartamento escuro, de algumas quatro paredes, no miolo da loucura. Este centro de cidade imensa.
Joana me seduziu com seu estranho mundo, seu rosto de maçãs salientes, seus olhos oblíquos, seu pescoço grosso. Baixinha, rechonchuda, mas com a cintura fortemente marcada. Uma figurinha de louça que usasse um invisível espartilho. E sua cabeleira? Piramidal, de ondas miúdas que descem armadas em lances retos para os ombros roliços.
– Era assim— ela dizia— a gente enchia a boca de querosene e
soprava a tocha perto do rosto, num fogarão danado. Era fácil.
– Mas Joana, você não se queimava nunca?
– Que nada, a gente punha marmelada na língua ... Um pedaço assim.
– Ah! Bem, está explicado, a marmelada, veja só...
Olhava sua pele rosada e sua boquinha minúscula. E a cabeleira, meu Deus! Não havia dúvida: ela era de circo!
– O mais arriscado era quebrar pedra no peito, foi assim que eu comecei. ”Giante”, ele era forte assim, pegava um enorme malho e descia a marreta sobre a pedra no meu peito. Uma pedra enorme. Partia em duas.
--Mas Joana, não doía? E o choque?
– Que nada! A gente apoiava a pedra nas palmas das mãos por baixo.
– Aahh!
– “Mas o meu número mesmo era um em que ninguém podia me substituir – INDIANA LOPEZ, A MULHER DOS CABELOS DE FERRO. Era eu. Eu arrepanhava o cabelo que era amarrado a um gancho na ponta de uma corda. E lá ia eu, lá pro alto. Punha uma perna assim, a outra assim que nem bailado. Eu lá em cima, todo mundo lá embaixo, olhando pra mim e eu então girava, girava. Como um pião. Como? É... Doía o couro cabeludo, mas ah! a gente acostuma.
Eu fazia também os números de teatro. “ARLETE OU O CASO DA NOIVA ASSASSINADA”. Que vestido eu usava! “A VINGANÇA DA ÓRFÃ CEGA”. Eu punha os olhos parados assim, todo mundo achava eu cega mesmo, tal e qual. E a “CONDESSA DE CALIOSTRO? Eu usava uma gola prateada e uma capa de cetim, vermelha e preta. Ah! Quando a gente é artista não acostuma mais noutra coisa. Eu sou assim desde pequena. Subia em árvore, minha mãe não gostava, dizia que eu parecia moleque. Andava em cima dos muros, nunca perdia o equilíbrio. E podia até olhar pra baixo.
Mas vida de circo é dura. Chegou um tempo em que não dava mais nada, o circo fechou, a lona penhorada, as roupas, tudo, até um urso que tinha... Tive que procurar emprego, só encontrei de doméstica (eu cozinhava no circo, às vezes, o pessoal gostava). Mas eu vou voltar, a senhora me desculpe. Quando a gente nasceu pra Arte... Já arrumei uma vaga num circo aí. Quem me recomendou foi o Tonzico, do “Tonzico e Tinhoso,” aquela dupla famosa. Ele me deu uma carta, olha aí. Vamos seguir por todo o Brasil, e desta vez não largo nunca mais. É a sina de Artista. A senhora? Poderia arrumar um lugar, por quê não vem ? A senhora tem um corpinho bom pra trapésio! A senhora aprende qualquer coisa. Ajudante do mágico... amazona do cavalo branco... Com esse seu lindo pescoço, que bailarina!...
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Olho em torno de mim a minha vida. É engraçado, eu não fracassei. Mas a que preço! Tenho até futuro, vejam só. Devo pegar um atalho, sem retorno? Estaria, nesse caso, me desviando do meu Destino. Mas, destino, a gente o tem, antes? Esta vida adiada, permanentemente em futuro, será a vida? E no entanto, não perdi ainda... Há quem me tome por uma vencedora, em certa medida. Estarei somente sugestionada por um dos mundos da alma, que se apresentou vivo em minha frente, numa verdadeira encarnação?
Ela arruma a sua mala. Interrogo-me a mim mesma . Que espécie de sedução me tomou?
Vou até a porta, com ela. Minha vida oscila numa estranha fronteira. Bastaria um passo, um basta. Joana me olha, tranqüila, firme em si mesma, inteira, estendendo-me sua pequena mão gorducha. Sua independência me coloca minúscula, ao pé da porta. Devo ter o olhar das crianças que hesitam em entrar por debaixo da lona. Ou o olhar dos adultos, na platéia.
— Ah! Que pena... A senhora tem um corpinho bom pra trapésio...

FIM

Meu pequeno vizinho

(crônica de Alma Welt)


Estou trabalhando há horas numa grande tela. Tenho a cara e as mãos sujas. Luto com as tintas, tentando domá-las, às vezes dando-lhes rédeas, deixando-as reinar em manchas quase aleatórias. Do balanço entre o casual e o deliberado, nasce uma pintura mágica, que deve parecer ter nascido sozinha, pronta, e com a sensação ilusória de facilidade quase divina. Esta é a arte que busco, quando noto uns olhos atentos ao meu lado.
Um menino pretinho, de grandes olhos, que, sem sorrir, observa-me e ao quadro. Espantei-me com a sua presença, antes de perceber que eu esquecera a porta aberta quando levara o lixo para o corredor logo de manhã cedinho.
Meu primeiro movimento foi fechar a porta; depois, agachando-me para pôr os meus olhos nos seus, disse-lhe:
-E então? Você gosta de pintura?
-Eu gosto é de limpeza...- respondeu ele, com um lento e cantado sotaque mineiro.
Caí numa gargalhada. Entendi logo que se tratava do filho da faxineira do vizinho. Desconcertada mas enternecida (talvez eu esperasse o veredicto favorável de uma criança pura e inocente para ter a certeza da aprovação divina do meu trabalho). Peguei-o pela mão e levei-o à cozinha, para preparar-lhe um café da manhã.
Daí por diante ele apareceria quase todos os dias, certamente para o café com leite e as bolachas que o deliciavam. Mas depois permanecia vendo-me pintar. Eu já não lhe perguntava o que ele achava. Pensava ser mais prudente deixá-lo manifestar-se espontaneamente. Comecei a lhe dar uma paleta com as cores que uso, para que ele pintasse uma telinha sobre a mesa. O resultado foi surpreendente. Toda criança é artista. Justamente porque transfigura a realidade em signos simplificados, emblemáticos e poéticos. Tudo se torna arquétipo na visão infantil. É na verdade uma visão sagrada, imemorial, arcaica como a humanidade.
O quadrinho de Jonas (esse era o seu nome) me encantou. Pressenti nele um futuro primitivo rural. Sua mãe vinha do campo, da lavoura, e ele herdara atavicamente essa visão de campos lavrados, bois e montanhas de Minas Gerais. Como podia ele lembrar-se do que não vira com seus próprios olhos? Ele tinha nascido aqui na cidade. E vivia suspenso em apartamentos, correndo por feios corredores de prédios, povoados somente por latas de lixo. Crianças, raramente ele as via, pois passavam às vezes direto para os elevadores, acompanhadas por seus pais. Eu, sua vizinha, solteira, parecia encantá-lo. Olhava-me muito. Creio que via a criança dentro de mim, porque eu pintava. Sim, devia ser isso! Não sou exatamente o tipo físico ou mental que chamavam em outros tempos de femme enfant, mas todo artista é uma criança e passa a vida a recuperar essa criança em sua obra. Eu, por exemplo, hei de pintar um dia como uma menina de seis anos se tudo der certo.
Lembro-me de quando levei meus desenhos e pinturas, no começo de minha carreira, para mostrar ao professor Bardi. Ele disse: “Alma, não se iluda. O maior pintor brasileiro de todos os tempos é José Antonio da Silva. Tudo o mais é pintura européia”.
Agora eu estava disposta a incentivar Jonas a ser um pintor primitivo como eu gostaria de ser, sem poder. O tempo passou, o menino pintava em meu ateliê todos os dias. Era também o meu ajudante e com o tempo ele já me faria falta. Já não podia passar sem ele. Era moldureiro, encaixotador, e até faxineiro. Pegou na vassoura com prazer depois que lhe contei uma anedota de Portinari. O pintor foi encontrado certa manhã, por um visitante, grande colecionador, com a vassoura na mão, varrendo o ateliê. O visitante, surpreso, perguntou-lhe: “Mas, mestre, o senhor, varrendo o chão? E Portinari respondeu-lhe: “Sim, meu caro, a vassoura é um grande pincel”.
Jonas adorou essa história e agora varria o ateliê todas as manhãs. Eu estava encantada. Percebi o valor das metáforas na vida de uma criança. Na vida de todos nós, na verdade.
Jonas se tornou um pintor, voou, sumiu. Partiu com sua mãe para Minas um dia. E eu, olhando algumas magníficas telas que ele me deixou, sabia que ele não mais se perderia e que voltara às montanhas que eu imaginava, para reencontrar suas raízes.
Um dia, minha vizinha, abalada, tocou a campainha para me trazer uma coisa. Sua ex-faxineira escrevera-lhe e ela me passou a carta que transcrevo aqui, corrigindo-lhe o português:

"Senhora, não lhe escrevi antes pois a vida tem sido muito difícil, desde que voltei para cá. Agora é impossível. Meu Jonas me foi levado no ventre da baleia. Dois tiros lhe tiraram a vida. O quadrinho que tinha na mão tinha um furo no meio, sobre o seu peito ensangüentado. Envio-lhe o quadro, sua última pintura, para que o entregue à pintora que foi sua mestra. Ele a amava muito, como se pode ver no quadro. Diga-lhe que sou grata como mãe, pois meu filho foi feliz enquanto viveu a sua curta vida e eu sei que ele aprendeu essa felicidade com a pintora que ele venerava. Sua religião era a arte, e ela, a sua santinha. Os quadros de meu filho ficaram conhecidos aqui na região. Estava ficando famoso, pelo menos entre nós. Mas, por algum mistério, insistia em me ajudar na limpeza todas as manhãs, manejando a vassoura com prazer, assobiando uma música estranha, mas bonita, uma tal de cantilena, de um homem que vira lobo, que a pintora lhe ensinou. Agora não posso mais. Não sei como viver sem meu Jonas, mas sinto também demais dar essa notícia a ela. Não tenho coragem. Faça isso por mim, entregue-lhe o quadrinho, que não posso mais olhar para ele com aquele furo no meio".

Agradecida,
para nunca mais,
sua, Dasdô.

Meu coração partiu-se, minhas lágrimas corriam olhando aquele quadrinho, onde se via uma moça loira com uma vassoura enorme na mão, em frente a uma tela no cavalete, entre montanhas azuis e verdes.

Meu diário violado

Crônica de Alma Welt (1972-2007)

Eu possuí um diário quando guria, que me fora dado pela Mutti, e que tinha um cadeado de segredo, que eu considerava seguro. Era um belo livrinho de capa dura de couro, e eu gravei meu monograma nele, com pirógrafo. Em suas páginas eu comecei a exercitar o meu dom de registrar as impressões do meu dia, meus sentimentos e fantasias, que faziam parte da minha realidade, a que eu já dava tanto valor. Eu adorava a idéia de que meus registros eram secretos, e por isso eu poderia ousar tudo e passar despercebida em minha ousadia, mental e espiritual, à vigilância da minha própria mãe e de.... Solange, a inimiga.

Minha irmã mais velha, naturalmente odiou aquele objeto à primeira vista. O diário da Alma! Que coisas haveriam ali? Que ousadias, que transgressões, que pecados? Fiquei talvez mais vulnerável a ela, com a existência do meu diário. Minha mente afinal poderia ser invadida, violada. Meus segredos, meus tesouros... saqueados!

E foi o que realmente aconteceu. Solange descobriu o esconderijo do álbum, e conseguiu arrombar o cadeado. Peguei-a em flagrante lendo-o e rindo. Fiquei furiosa. Avancei para ela que correu com o livro na mão até a piscina, ameaçando jogá-lo na água. Estaria tudo perdido, o livro ficaria borrado e imprestável, e eu estaquei, estarrecida. Implorei a ela que me devolvesse meu diário. Ela então atirou-o para mim, dizendo:

–Toma aí, já conheço os teus pensamentos, e eles valem alguma coisa, principalmente para a Mutti, percebes? Agora estás nas minhas mãos. Venha beijar o meu pé, ou irei contar a ela principalmente a terceira página. Vem, ajoelha-te e beije o meu pé, escrava!

E eu, tremendo de raiva e humilhação pelo medo que realmente senti, ajoelhei-me e beijei seu pesinho gordo, que desgraçadamente lavei com minhas lágrimas.

Eu demoraria ainda muito tempo para me sentir preparada para contar tudo... ao mundo.

17/10/2006

O jardim noturno

(crônica de Alma Welt)


Retornando ao casarão, após a temporada paulistana, no trenzinho eu me comovo durante o trajeto final com a beleza do meu pampa apesar da devastação crescente, dos novos campos lavrados e mais árvores cortadas. Mesmo assim, parece que o Pampa misteriosamente resiste, e no caminho, da estaçãozinha para a estância, de charrete, vendo passar uma boiada conduzida por nossos peões à caráter, eu sinto o peito inundado de amor por minha terra. Galdério, com sua fala cantadíssima parece embalar-me com a música autêntica destas pradarias e eu começo a pensar em não mais sair daqui, e entregar o ap paulistano, trazendo o ateliê de volta para cá. A Internet por rádio me permitirá isso, eu não estarei isolada como escritora.

Ao avistar o casarão, de longe, enxergo o Rôdo na varanda, de bombachas, esperando-me com o chimarrão na mão. Que alegria! Meu irmãozinho está aqui. Não o deixarei sair mais, até Fevereiro. E quero meus sobrinhos aqui, todos. Hans, Christian, Pati e Pedrirnho. E que tragam amiguinhos, ou colegas de escola, para a temporada. Quero a casa cheia! Escreverei de noite, de dia serei toda deles. Quero inundar-me por dentro de sua pureza, de sua ingenuidade encantadora.

Rôdo me abraça, beija-me nos lábios, e eu me derreto em seus braços, em plenitude. Ele passa o braço em minha cintura e vamos juntos para dentro, ele carregando a minha mochila, para saudarmos Matilde na cozinha. Logo estou nos seus braços, beijada em lágrimas, enquanto ela exclama: — “Minha guria, minha guria! Como estás magrinha! E guapa. Sempre a nossa princesa!

Estou em casa.

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Noite, na estância. A sinfonia dos grilos e dos sapos. A festa dos pirilampos, minhas fadinhas. Eu caminho ao luar, de negligé transparente, seminua, na verdade. Quero sentir-me branca, branca, enluarada, fantasmagórica neste jardim de minha infância e adolescência. Rôdo vem encontrar-me, de calça de pijama, sem camisa, e noto mais uma vez como é belo o meu irmão. Que tórax, que rosto, que cabelos! Abraçamo-nos e ele me conduz por entre as sebes em labirinto, até o nosso caramanchão. Aqui, quantas vezes nos refugiamos para nos beijar e tocar a salvo dos olhares das minhas irmãs e... de Ana Morgado, a Açoriana, minha mãe. Nunca puderam nos conter, é verdade. Fomos sempre motivo de escândalo. Nos separaram por anos. Agora já ninguém nos reprime, os tempos são outros. Só não podemos “dar bandeira” entre os peões. Rôdo deita-me na relva e coloca-se ao meu lado, ambos olhando a lua, lado a lado. E sei que logo ele se virará, e se colocará por cima de mim... e eu não resistirei.

Então, um arrepio. Uma viragem, uma brisa forte, logo um vento. O minuano, o Velho Mino! É ele! Ele ainda nos persegue, nos censura, nos expulsa do paraíso! Não nos quer assim, irmãos-amantes. Ele traz a voz da minha mãe, a Mutti, nos assombrando, desde o seu túmulo próximo daqui.

"Sim, Mutti, sim! Não faremos mais! Não faremos mais! Eu prometo. Não, ele não me tocou, foi só um beijo, um beijinho, mamãe! Não bata nele! Bata em mim! Bata em mim!"

Olho em torno. O jardim está adormecido. O casarão dorme. Rôdo dorme em seu quarto. Estou só. Para sempre só. Meu Pampa dorme... encantado

09/08/2006