quinta-feira, 29 de março de 2012

Ouro no Cascalho (mini-crônica de Alma Welt

Vocês já repararam num tipo de sonho que ocorre com frequência em nosso sono noturno, absolutamente banal, realista, mesquinho, sobre trivialidades muitas vezes técnicas, afinal idiotas, e que parece podermos conduzir sem levar a bom termo? Eu os chamo de "falsos sonhos"... Nitidamente sem nenhum caráter simbólico, somente sua finalidade permanece misteriosa. Entretanto se passam no inconsciente pois vão se evolando também, como os sonhos interessantes, ao acordarmos, e se dissipam. Não conseguimos mais lembrar do que se tratava, restando somente a impressão de sua absoluta falta de propósito. Nunca ouvi menção a eles nos tratados de psicologia, e eu hesitaria, por vergonha, em levá-los a um psicanalista, se o tivesse. Imagino que um analista diria que os estou subestimando e que deveria me esforçar para lembrá-los e trazê-los às sessões, e que os estou recalcando justamente por sua importância... Mas não. Creio que o nosso inconsciente também armazena bobagens, futilidades. Sua riqueza é como ouro no cascalho. (Alma Welt)

terça-feira, 13 de março de 2012

A Cordinha (crônica de Alma Welt)

Quando fui internada na Clínica ....* , como todo paciente, perdi a minha autonomia e liberdade, e era tratada de maneira indisfarçada, como louca. Eu tinha sido encontrada a vagar pelo meu bosque, esfarrapada, seminua e arranhada. A primeira providência depois das doses cavalares de tranquilizantes ou anti-depressivos (e um invasivo exame de corpo de delito) e o diagnóstico antiquado de "ninfomania" e histeria (!!) foi enfiarem-me num camisolão informe, sem cintura, e calçarem-me umas pantufas infames. Senti que o objetivo, consciente ou não, era enfeiar-me, tornar-me disforme, como um castigo. Então descalcei-me para exibir meus belos pés, e procurei uma cordinha qualquer para passar na cintura para ficar menos deselegante. Foi-me peremptoriamente negada pelas enfermeiras com olhares de desconfiança, e mesmo de censura. Cordas e cintos jamais! Então rasguei a barra do camisolão e improvisei com a faixa resultante um cinto que me ressaltou a cintura delgada. Isso me foi tolerado graças à minha Doutora Jensen, o meu anjo naquele inferno. Bem, mas passei a ser olhada de maneira estranha por um enorme enfermeiro... e por uma das moças da secretaria, aquela que afinal, em troca de meus beijos e carícias me ajudou a fugir para estrada onde peguei carona de caminhão para voltar à estância a tempo da festa de Ano Novo, pois o Natal eu passara numa absurda festa de "amigo secreto" entre os louquinhos. Já narrei nalgum lugar a saga desse retorno ao lar...(Alma Welt)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vida em versos (mini-crônica de Alma Welt)

Quando estou triste, na estância, minha boa Matilde aproveita para me censurar: "Báh, guria! Aí está em que te meteste! Ficaste solita, não tens marido nem filhos! Que querias?" E eu suspiro e respondo: "Má, não me queixo disso! Não é marido que me falta, nem filhos... É que penso muito na morte e tenho uma pena imensa de deixar este Pampa, e até você, minha bá... " E ela retruca: "Besteira, guria, não me enganas! Se tivesses filhos já terias tua continuação, nem pensarias nisso e pararias com esses versos, que isso, sim, te mata aos poucos!"
Eu me calo e medito sobre suas palavras e no que elas contêm de verdade. Sim, os versos estão me matando à medida que mais vida lhes dou. Já não sou senão a minha poesia, não mais existo sem ela. Na verdade já posso morrer... (Alma Welt)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Lei do Mundo (mini-crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria pequena perguntei ao meu pai por quê algumas pessoas trabalhavam para outras que não trabalhavam, como nós. Meu pai ficou sério, depois sorriu levemente e respondeu: "Minha filha, essa é a lei do mundo. Muitas pessoas trabalham para que poucas pessoas possam ficar sem trabalhar para poder pagá-las e elas sustentarem suas famílias..." Confesso que a resposta me deixou um pouco confusa, mas me fingi de satisfeita. Depois, passados muitos anos percebi que meu pai foi tão cínico quanto sincero na sua resposta. Mas o compreendi melhor quando li a frase de Nietzsche: "As grandes coisas exigem que não se fale delas. A menos que se fale delas com grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência.
(Alma Welt)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Gaúcho Prestativo (crônica de Alma Welt)

"Quando eu era adolescente, correndo como sempre pela coxilha me afastei muito do casarão e de repente lembrei-me de que com o tempo do retorno chegaria atrazada para o almoço e seria repreendida severamente por minha mãe, talvez mesmo ficasse sem a refeição. Foi quando, providencialmente (eu pensei) apareceu do nada um gauchão, peão de nossa estância, homem de uns quarenta anos montado no seu cavalo, se oferecendo gentilmente a levar a "patroinha" de volta. Apeou, pegou-me pela cintura e instalou-me em sua sela montando a seguir atrás de mim, enlaçando com um braço minha cintura, a outra mão na rédea. O peão conduziu seu cavalo a passo, lentamente demais pra a minha quase aflição de chegar a tempo. Entretanto quando ainda estávamos à certa distância do casarão já avistado, ele apeou e deixando-me na sela continuou a pé puxando o cavalo pela rédea até encontrarmos o meu fiel Galdério em frente à nossa varanda, e que o olhava severamente. O peão tocou o chapéu com dois dedos e disse: "Compadre, encontrei a patroinha meio perdida, com o risco de se atrazar para o almoço. Está entregue a princesa. Com a licença de vosmecê, volto ao trabalho."
O Galdério nada disse, olhando fixamente nos olhos do peão, com a mão pousada na faca de prata de sua faixa.
Agora tantos anos depois desse episódio, lembrando-me das coisas que senti naquele trajeto, um certo incômodo ligeiramente excitante atrás de mim na sela, me ocorreu que a candura pode bem conviver com a inteligência. O que nunca convive com a ingenuidade é a esperteza, que essa tem bem mais afinidades com a malícia...

(Alma Welt)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Livros Proibidos (crônica de Alma Welt)

Quando adolescente acostumei-me a acordar de madrugada, programando minha mente para despertar com os galos, e sair do meu quarto pé-ante-pé, deslizando como uma sombra para ir à biblioteca e "investigar" os livros ocultos ou disfarçados do Vati. Ali descobria coisas incríveis, por vezes estarrecedoras. Ali folheei e li por pedaços vários livros do Marquês de Sade e o grande volume do psiquiatra austríaco Wilhelm Stekel, "Sadismo e Masoquismo". Eu frequentemente me chocava, e tinha sonhos conturbados e até pesadelos. Mas minha curiosidade era maior. Devorei as obras de Nietzsche e foram elas que me denunciaram, pois levei o "Anti-Cristo" para a cama, e a Mutti, notando o meu deslizar noturno que atribuiu inicialmente a um suposto sonambulismo, evitando despertar-me seguiu-me e flagrou a minha leitura proibida. Foi um escândalo. Nunca a vi tão furiosa com meu pai, exigindo dele que queimasse aquele livro "pérfido", "demoníaco", e muitos outros. Meu pai se recusou a fazê-lo mas não teve outro jeito senão escondê-los, trancá-los. Mas sua piscadela cúmplice me tranquilizou. Depois, uma hora, sentada no seu colo, ele me diria: "Alma, tu sempre encontrarás esses livros, não tenhas pressa. Talvez tua mãe tenha em parte razão. Não enche a tua cabeça tão cedo com a face negativa ou problemática do mundo. Ela virá a ti no devido tempo sem tirar-te o sono. Lembra-te minha filha, o conhecimento de nada vale se não tornar o homem mais sereno, talvez mesmo mais feliz. Vamos, vamos, durma durante a noite e corra no jardim e na coxilha de manhã. E eu te prometo que tudo o que me perguntares, responderei, aberta e honestamente... (Alma Welt

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Morte da Açoriana (crônica de Alma Welt)


Pintura de 2008 de Martha Erlebacher

A Morte da Açoriana (crônica de Alma Welt)

"No meu aniversário de 16 anos, a Mutti (minha mãe) estava doente e andávamos pela casa pé-ante-pé para não fazer ruído e falávamos baixo pois a dor exalava através de sua porta, e o Vati, a Matilde, Lucia e Solange se alternavam num entra-e-sai daquele quarto, nos cuidados à enferma. Menos eu, "a princesa" a quem queriam poupar, ou de quem respeitavam a diferença que sempre pautou as minha relação com a "Açoriana". Mas a verdade é que naqueles dias, mais que nunca eu me sentia culpada por não amá-la e até mesmo por a estar matando, que é do que meu inconsciente me acusava. O sofrimento de minha mãe me perseguia, como a sua cobrança de normalidade e bom comportamento convencional o fizera desde a minha tenra infância. Sua dor agora era a minha, me seguia nas minhas andanças no jardim e até mais longe, na coxilha, ao redor do casarão.
Então, uma tarde, eu ouvi um grito através daquela porta, que me estarreceu, logo seguido do meu nome chamado de forma angustiada, suplicante, que contrastava com a forma irritada usual de sua relação para comigo. Corri para o seu quarto e sem mais hesitar abri e entrei a ponto de vê-la na penumbra, semi-erguida contra os grandes travesseiros, os olhos arregalados para mim, com o braço estendido em minha direção, para logo cair para trás, imobilizando-se, de olhos abertos. Agarrei sua mão já meio fria, e explodi em lágrimas. Teria ela me perdoado? Que significou aquele chamado, aquele braço estendido por segundos, em minha direção? Eu teria o resto da vida para descobrir em mim mesma através do rastro de pequenos e grandes desastres que formaram a história da nossa relação, o significado do seu gesto extremo, que aparentemente fora dirigido a mim... e a ninguém mais. Meu coração achava, báh! queria... que aquilo só podia ser perdão. E o meu amor, finalmente..." (Alma Welt)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O fim e o começo do Mundo ( crônica-relâmpago de Alma Welt)

"Um gaúcho autêntico? Quê quer dizer, senhor? Todo gaúcho que ama a sua terra é autêntico. Mesmo aqueles que se foram ao Rio ou a São Paulo, que aposto estão penando de saudades. Não sei da Serra e do litoral... mas a Pampa, senhor, essa se nos gruda na alma, que aqui é o fim do Mundo mas o começo também... " (Alma Welt)

Onde a vista vai com o vento (crônica relâmpago de Alma Welt)

"Onde começa a Pampa, senhor? Começa onde a vista se comprazer de ir com o vento, e voltar só muito tempo depois. Pampa é uma viagem da alma..." (Alma Welt)

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Penélope do Pano Verde (mini-crônica de Alma Welt)

Uma das mais marcantes recordações da minha infância foi o retorno de meu irmão Rodo, que fora colocado num Internato por vários anos para separar-nos depois do nosso flagrante pela Açoriana, nossa mãe, nós dois nuzinhos sob a macieira do pomar. Quando fomos esperá-lo na estação, o trem chegando a resfolegar e a silvar, eu dava pulinhos e batia palmas de excitação. Quando a máquina parou em meio a todo aquele vapor e as portas dos vagões se abriram, avistei meu irmão, guri magnífico, que me pareceu mais belo que nunca. Corri em sua direção e nos abraçamos tão forte que a Mutti e Matilde tiveram que nos apartar, puxando-nos cada um para um lado. Eu estava decidida a nunca mais deixá-lo partir, mesmo sem saber como...
Entretanto, eu não sabia que a semente da separação já estava plantada, e não fora a simples distância: Rodo aprendera o jogo de pôquer na escola, com meninos mais velhos. No caminho de volta, na charrete com Galdério, ele tirou do bolso um maço de cartas de baralho e nos mostrou com elas sua nova habilidade de ilusionista. Eu, encantada, não sabia o que me esperava bem lá para frente, a pequena Penélope do pano verde que eu me tornaria um dia, e novamente por tantos anos... (Alma Welt)

Escolhas (crônica-relâmpago de Alma Welt)

Matilde, minha ex-babá, nossa atual cozinheira, mulher simples, repleta de senso comum e muito afetiva, me dá conselhos que eu nunca pensei em seguir, desde que eu era guria. Escrevi muitos sonetos-crônicas que descrevem a nossa relação. Ela me queria ver casada e... feliz. Cheia de filhos, claro. Jamais pôde entender as minhas escolhas. Mas... escolhas? Creio que tudo foi Destino. Um poeta não escolhe a poesia, a Poesia o escolhe... (Alma Welt)

Pôr- do-sol em Veneza ( mini-crônica de Alma Welt)

Uma vez, em Veneza, admirando o sol se pôr sobre a Laguna, eu senti a nostalgia dos séculos, de todos os séculos, com ênfase naquele de Ticiano e Tintoretto... Logo me lembrei que me sinto assim também na minha varanda, mirando os poentes do meu Pampa sobre o horizonte da coxilha infinita, que me fazem passar por aqueles sangrentos e gloriosos, dos Farrapos. Então me ocorreu que o Sol é a prova de um Eterno Retorno, que todo poente é um Passado e que talvez o Futuro seja uma ilusão. Essa idéia me pareceu consoladora, tanto mais com a Aurora como o nosso brilhante futuro desconhecido... (Alma Welt)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

De Desfiles e Besteiras (crônica de Alma Welt)

Uma vez, quando guria de uns oito anos, pouco antes de mudarmos para a estância, no nosso sobradão em Novo Hamburgo, fui encerrada por castigo no sótão, por minha mãe. Para não me entediar tratei de explorar o conteúdo das arcas e baús que havia ali. Foi quando reconheci, entre as fotos antigas de meus pais e avós, ele o velho Joachim Welt, meu avô, quando moço, numa foto datada de 1939 desfilando pelas ruas de Blumenau (a legenda a lápis indicava) todos com uma braçadeira com uma cruz estranha e com o braço erguido com a palma da mão estendida para baixo. Quando, de noite, libertada daquele sótão com a chegada de meu pai, à mesa do jantar perguntei a ele, com a foto na mão, o quê era aquilo, quê desfile era aquele. A Mutti olhou-me com um olhar fulminante e cobriu o rosto com as mãos balançando a cabeça, em desalento. Meu pai ficou sério, olhando a foto, mas disse: "Alma, isto foi uma besteira do teu avô, quando moço. Os adultos também fazem besteiras, sabia? Depois do jantar falaremos disso. Vou te mostrar bastante coisas nuns livros... está bem, querida? (Alma Welt)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Baluarte (mini-crônica de Alma Welt)

Uma manhã, estava eu andando na coxilha a contar sílabas nos dedos, quando o tempo subitamente fechou, clarões me ofuscaram e a chuva começou a cair. Me senti vulnerável e temi ser fulminada por um raio. Então vi o Galdério a cavalo, galopando em minha direção, e pensei: "Eis o meu anjo guardião"... Ele chegou e sem apear estendeu-me a mão que peguei, e num impulso, pela força de seu braço lá estava eu em sua garupa. Abracei-o assim por trás, meu rosto e meu corpo colados à suas costas que me pareceram a muralha de uma fortaleza. E pensei, juro que pensei: "Que grande força é o homem! Está tudo certo, este peão é o meu baluarte e eu sou sua princesa... espero ser digna de sua voluntária servidão." Pouco depois estávamos diante do casarão e ele apeando pegou-me pela cintura e me desmontou como se seu fosse muito leve... Matilde vinha pela varanda com uma toalha para me acolher, me envolver, me enxugar. Eu jamais me esqueceria desses momentos, daquela aconchegante sensação de pertencer, que estaria para sempre na raiz da minha poesia... (Alma Welt)

O Laço (mini-crônica de Alma Welt)

Uma vez, num tempo negro de minha vida, subi ao sótão do casarão com um laço de couro cru de vaqueiro e pensei em mim pendurada na viga do telhado. Mas como tenho uma imaginação realista, me vi grotesca, de língua de fora, o pescoço torto e os olhos esbugalhados. Minha vaidade foi maior, joguei o laço num canto. Ao descer a escadinha em caracol, escapou-me um longo suspiro e.... logo uma gargalhada. Eu estava salva! (entrevista com Alma Welt)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A FALA DO TRONO (crônica de Alma Welt)

"Poucos anos passados da morte do Vati, eu me vi praticamente encarregada de dirigir esta estância, logo eu, a poeta, "a artista da família". Então, aconteceria por aqui uma tragédia, uma morte ocasionada por uma peleia de faca entre dois peões. A origem da desavença parecia obscura e as famílias dos dois gaúchos se tornavam inimigas e estavam se armando, novas tragédias se anunciavam, tudo levava a crer no início de uma  "vendetta"  daquelas que se perpetuam com um ódio mútuo que atravessaria gerações. Então mandei o Galdério esvaziar nosso salão retirando até mesmo a grande mesa, e convocando através do meu fiel capataz os dois gaúchos mais velhos, os patriarcas de suas famílas, me mantive sentada numa cadeira de espaldar alto para deliberadamente produzir neles a sensação de uma rainha em seu trono. Eles se aproximaram lado a lado, sem se olharem e a um gesto meu estacaram a uma distância de quatro ou cinco metros. Fiz um calculado silêncio de alguns minutos e então lhes disse solenemente:

-"Houve aqui uma tragédia. Não haverá outras. Dois jovens se perderam. Um está morto e lhe faremos as honras. O outro está preso e lhe daremos assistência. Já basta. Não haverá mais mortes e ofereceremos esta dífícil paz e conciliação ao sábio Maestro que vosmecês veneravam tanto quanto eu, sua filha. Estejam certos que ele está nos olhando. Por ele eu peço: dêem-se as mãos e esqueçam as idéias de vingança. A paciência e sabedoria de vosmecês, pais, secarão as feridas com o tempo. Não nos decepcionem..."

Fiz um gesto de rainha, que encerra a audiência. Eles se viraram um para o outro e estenderam-se hesitantemente as mãos. Era o que cabia fazer, eles sentiram.
Eu, com minha postura, não de simples patroa, mas rainha, não dera margem para outro desfecho. Eles se retiraram. Eu permaneci longamente no trono, solitária. Eu vivera o momento mais alto da minha vida. E senti que ele não excluia a Poesia..." (Alma Welt)

domingo, 15 de janeiro de 2012

As Palavras da Matilde (crônica de Alma Welt)

Supondo que o clima decadente desta estância povoada de memórias muito mais antigas que os meus avós, que nela plantaram o vinhedo, está me contaminando com sua melancolia e dissipação, cheguei a lamentá-lo diante da Matilde, minha eterna ex-babá, que me restou como única confidente, embora seja tão... digamos, "pé-na-terra". Mas sua reação me fez pensar, como outrora, fonte de equilíbrio que tantas vezes foi para o meu coração. "Que esperavas, Alma? Isso que tu chamas de "decadência da estância", existe sim, posso vê-la, mas emana de ti mesma, dessa tua solidão, desse teu orgulho que não te deixou ser mulher de um homem, ser uma esposa e mãe! Que te faz permanecer nesse sonho de escrever versos, como se isso desse camisa a alguém! Isso está te matando, guria, não vês?"
Eu a ouço e, de repente deixo escapar um soluço imenso, corro para o quarto e... escrevo isto! Sim, isto que escrevo agora! Estou irremediavelmente perdida! (Alma Welt)

Sobre Lea Leandro ( crônica de Alma Welt)

Quando eu vivi na cidade de São Paulo, entre 1995 e 2004, num momento de solidão e carência, conheci e me apaixonei por um jovem e lindo travesti e depois transsexual, com quem vivi um ano e meio. Foi uma das experiências mais dolorosas da minha vida. Entretanto me lembro dele/a com carinho, porque realmente o amei. Ela se chamava Lea Leandro, e só lamento ela (ou ele) não ter assumido a sua bissexualidade, como eu a minha, e ter querido tanto ser mulher, a ponto de mutilar-se. Eu me pergunto, como um ser que teve o privilégio de ser um hermafrodita ou quase, a meu ver o ser humano perfeito de Deus, pôde optar, assim, por um só lado, uma só natureza. Eu não o faria... (Alma Welt)

Crise de Inspiração ( de Alma Welt)

Ouve-se falar de "crise de inspiração" de escritores. Dei-me conta de que nunca experimentei isso. Creio que isso não me ocorre porque vivo permanentemente "inspirada", desde que me coloquei, ainda guria, sob a sagrada égide da Arte, isto é, votei-me aos deuses e às musas. Mal posso compreender que nem todas as pessoas vivam assim, em contato com o "Sagrado", que é o elemento essêncial da Vida e do Mundo... (Alma Welt)

Efêmeras Bençãos (de Alma Welt)

Diante da imensa dor do mundo, frequentemente me surpreendo envergonhada de cultuar a beleza, a felicidade e a alegria. Mas que posso fazer? Essa é a minha natureza, que emana das bençãos que recebi do Destino, ou... de Deus. Também devo um tributo a elas, mesmo que derive do medo de perdê-las, pois bem sei quão transitórias e efêmeras são essas bençãos... (Alma Welt)

Dos que são olhados pela fresta ( crônica de Alma Welt)

Sendo um ser de família e tendo escrito mais de dois mil sonetos, às vezes me dou conta da minha grande solidão e mesmo marginalidade como poeta. Não pertenci a nenhum grupo ou movimento; não fui reconhecida pela cultura oficial, ou pela mídia; permaneço no limbo dos artistas insólitos, que simplesmente não se encaixam. Sou talvez daqueles que são olhados pela fresta e que não se contam para os amigos. Mas por isso mesmo tenho consciência de estar falando por muitos... pela solidão das pessoas, pela grande beleza oculta das pessoas comuns... (Alma Welt)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Borboleta e a Caveira (crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria pequena, meu pai me levou a um velório de um velho peão aqui da estância, e ao ver aquele corpo parado em cima da mesa, todo ataviado, de bombachas e esporas, eu perguntei ao meu pai: "Vati, ele não vai se mexer mais?". Então, Lucia, minha irmã, se adiantou e disse: Não, Alma, ele vai virar uma borboleta..." Nesse momento, Rodo, meu irmãozinho muito esperto, interferiu dizendo:- "Não, suas bobas. Ele vai virar uma caveira."- e arreganhou os dentinhos num sorrizinho grotesco. Calei-me então, e permaneci pensativa entre estas duas imagens, a encantada e a perturbadora... Assim estou até hoje. Quanto ao meu Vati, às vezes me pergunto por quê ele se calou, e o quê teria respondido. Ele, que parecia saber tudo... (Alma Welt)

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Morte da Açoriana (uma recordação de Alma Welt)

Lembro-me do dia, era uma manhã, e eu, guria, com o coração perturbado pela doença da Mutti, tinha saído para andar na coxilha e subitamente senti que devia voltar. Ao reentrar encontrei soluços por todo o casarão. Matilde veio a meu encontro no salão e estendendo-me as mãos disse: "Onde estivesse, guria má ! Tua mãe está partindo e tu nem te importas! Vá logo despedir-te enquanto é tempo!" Entrei no quarto, hesitante, temerosa, e... assustei-me. Minha mãe parecia um cadáver ainda vivo, branca como cera, os olhos encovados, pele sobre os ossos, e virando lentamente o rosto, estendeu-me penosamente os braços. Permaneci paralizada junto a porta: eu tive medo e não me aproximei ao seu apelo. Ela, então, deixando cair os braços soltou um longo suspiro, um estertor, e paralisou-se como um instantâneo. Então fugi dali correndo, e sinto que estou fugindo, correndo ainda hoje. Quanto remorso eu sentiria pela vida afora! A Açoriana... minha mãe, queria tocar-me, abraçar-me, que sei eu? Eu eu fugi. Ela me perdoara, ela me amava... e eu não pude dizer que também a amava... (Alma Welt)

sábado, 31 de dezembro de 2011

A Viajante do Tempo (de Alma Welt)

"Quando eu era guria, ainda pequena, meu pai me levava a todas as partidas e chegadas na nossa estaçãozinha pampiana, no que dizia respeito aos de nossa família, amigos ou hóspedes do casarão. A locomotiva a vapor e o comboio eram para mim um deslumbramento, pura magia, mais relacionada com o Tempo do que com o espaço. As pessoas sumiam e voltavam naquela máquina mágica envolta em vapor como uma névoa, em meio a silvos e apitos, e que certamente as levava para um outro mundo (uma outra dimensão, eu diria hoje). Meu pai, com isso, queria que eu me preparasse de algum modo para ser uma viajante, uma cidadã do mundo, e me projetava em sua imaginação nas estações ferroviárias da Europa, que ele conhecia tão bem. Cresci, viajei, afinal... Mas minha sensibilidade e coração permaneceram viajantes do Tempo, portanto da imaginação que me levava a todos os mundos, a todas as partidas com suas dores e saudades, a todas as chegadas com sua alegria e emoções do reencontro. Creio que foi a estaçãozinha que me ensinou a amar o mundo, para além do grande ninho familiar, do casarão..." (Alma Welt)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Uma outra vida (Alma Welt)

O espetáculo do poente visto daqui da minha varanda, que sempre me foi abismal, aqora me deixa mais triste do que nunca e saudosa de tudo. Choro pela beleza de tudo, enfraqueço-me e não sou capaz de gerir esta estância, nem sequer esta casa cada vez mais vazia, e tão cheia de memórias e espectros...

Matilde, às vezes vem se sentar ao meu lado na varanda, suspira e me censura: "Alma parecemos duas velhas, no fim da vida... Mas tu, jovem de corpo, como te deixaste envelhecer assim, no coração? Bah! Quanto insisti que te casasses e tivesses filhos! Eles estariam brincando nessa relva aí em frente e ouvíriamos seus risos e gritinhos! Mas agora, vê: ouve esse silêncio a que nos condenaste, guria má! Brinca! Brinca agora com teus versos! "

Então choro, abraço minha bá e choro... pela beleza de tudo, pela beleza deste momento. Pela beleza dolorosa de minha solidão de poeta... E pela outra vida, a que não tive... e que seria tão linda... (Alma Welt)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Queda da Casa de Welt (crônica de Alma Welt)

Quando chego de viagem, de volta à estância, noto-lhe a nítida e progressiva decadência. O casarão, o vinhedo e sua modestíssima produção, tudo está se arruinando como a queda da Casa de Usher* embora com sabor pampiano, riograndense. Já me vêm vagando nas noites assombradas, pois que realmente os fantasmas farroupilhas cada vez mais se alvoroçam com a presença desta última romântica tardia e delirante, que sou eu. Matilde não pára de acender velas todas as noites, e tantas, que extrapolaram há muito o âmbito de seu quarto ou da cozinha e invadiram o salão e até os quartos desocupados, vazios. Corremos o perigo de um incêndio, é o que temo...
Eu digo à Matilde: "Mulher, para quê tantas velas? Umas poucas não bastam? Não é a tua devoção que conta? O que queres? Com quem te relacionas em tuas preces, que tantas velas exige?" E ela responde: "Não sabes, guria? Com os espíritos que tu chamas a cada poema teu que escreves. Eles te cercam e eu os vejo cada vez mais e como te querem, minha niña, como cobiçam o teu belo, triste e atormentado coração. Então não vês que esta ruína que nos ameaça se deve a ti mesma?" (Alma Welt)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Retardos (Alma Welt)

Quando eu tinha uns quinze anos perguntei ao meu Vati o quê eram as prostitutas e o quê elas faziam. Meu pai me olhou bem, pensou um pouco e disse: "Alma, as prostitutas são mulheres bonitas ou não, que entregam seu corpo a homens desconhecidos, diariamente, por dinheiro, profissionalmente, para sobreviver... Entretanto estudos científicos revelaram que a maioria delas sofre de um certo retardamento mental. As mulheres inteligentes não escolhem essa profissão."
Dei-me por satisfeita com essa explicação. Passados alguns anos me dei conta de que meu pai mencionando a suposta pesquisa científica sobre a debilidade mental das prostitutas pensava evitar que eu me prostituisse um dia, pois ele bem percebia a minha sensualidade à flor da pele e temia a vulnerabilidade da minha beleza. Ele tinha razão. Anos depois pensei várias vezes em me prostituir, não por amor ao dinheiro mas pelo amor da experiência e mesmo da transgressão, já que minha mãe e Matilde eram grandes repressoras sexuais. Por quê não o fiz? Por receio de que meu pai, onde quer que estivesse, pudesse considerar-me retardada...

domingo, 4 de dezembro de 2011

A dádiva do Tempo (de Alma Welt)

Quando chegávamos de viagem na estação do trenzinho Maria Fumaça que servia a nossa região quando eu era guria até meus 15 anos, nosso fiel Galdério ia me buscar de charrete, e me trazia sozinha com ele enquanto nosso Vati levava os outros de carro, com as malas. Era esse o nosso acordo, permitido por meu pai, que sabia o quanto eu gostava de fruir com calma e lentamente a paisagem inigualável da coxilha. Às vezes chegávamos ao casarão com o pôr do sol, e eu, comovida, adentrava o salão já em lágrimas para cair nos braços receptivos da Matilde, nossa cozinheira, minha eterna e fiel ex-babá. Ela exclamava: "Minha guria! Como está guapa! Um pouco magra, mas vamos cuidar disso!"
Esse ritual dura até hoje, e eu sentiria falta de qualquer detalhe, como uma criança que quer que repitam a mesma estória antes de dormir, palavra por palavra, e que não falte uma sequer... Sim, às vezes me ocorre que as coisas queridas exigem fidelidade, porque elas também nos amam. Sim, as coisas nos amam... as palavras, as paisagens e o próprio Tempo! Estamos aqui por sua dádiva e ao seu seio voltaremos um dia...

Penélope do Pano Verde (Alma Welt)

Uma vez, ainda bem jovem, meu irmão Rodo chegou de viagem pela primeira vez dirigindo um carro esporte, um Porsche. Nós em casa já conhecíamos sua habilidade com as cartas, mas aquilo nos preocupou. Toda a sua futura vida de aventuras perigosas, de riscos inimagináveis e de lances duvidosos se descortinou aos olhos de nossa família. Afinal, como conseguira ele um carro caro como aquele? Ele nos disse simplesmente que o ganhara no jogo de poquer, honestamente. Depois, com o ouvido colado na porta da biblioteca pude ouvir meu pai dizendo a ele que aquilo não era ganhar a vida honestamente, que aquele carro fora praticamente roubado. Mas era tarde demais... Rodo andaria pelo mundo como um cometa, elegante, cosmopolita, cada vez mais frio e silencioso, mas tão belo que eu o reconheceria sempre como o príncipe menino do meu coração infantil. Eu passaria a vida esperando por ele, como uma Penélope do pano verde, eternamente fiando e desfiando a minha teia de sonetos... essa seria a essência verdadeira do meu amor, da minha vida de mulher... de poeta..." (Alma Welt)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Final da Estória ( Alma Welt)

Quando eu era uma guria de uns sete anos, tendo estado pela primeira vez num velório e visto um defunto, o de um velho "gaucho" daqui da estância, perguntei ao meu Vati, por quê as pessoas morriam e o quê acontecia depois. Meu pai ficou pensativo, coçou a barba e disse: "Filha, ninguém sabe. É um grande mistério... Mas, acho que as coisas são assim para que a gente fique procurando saber e assim se instrua e aprenda muita coisa durante a vida. Se a gente já soubesse desde o começo, ninguém ia querer saber de mais nada." Então eu tornei a perguntar: "Mas a gente fica sabendo no final, como as estórias, não fica?" E ele: "Bah! guria, fica! Mas quem chega lá não conta pra não estragar a estória pros outros."
Creio que a partir daí passei a prestar mais atenção às estórias da vida...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Testamento Espiritual da Alma

"Tendo registrado em arte e beleza cada passo meu na minha passagem por esta vida, nem por isso me sinto pronta para partir, e dói-me saber a morte tão próxima. A razão disso é que não posso conceber belezas maiores do que as que me foram prodigalizadas pelo Destino e as que eu mesma construí ao longo dos meus breves 35 anos. Desde já a saudade deste Pampa, deste horizonte infinito, destes poentes gloriosos, a memória amada de meu Vati, de minha difícil e não menos amada Açoriana, do meu adorado irmão Rodo, de minha irmã Lucia e dos meus fiéis Matilde e Galdério, do casarão assombrado de memórias muito antigas, a peonada e as trabalhadoras da vinha, meu jardim, meu bosque, minha macieira sagrada do pomar, o poço da cascata... tudo isso me dói como um segundo exílio, peregrina perpétua que me sei, que só pude cantar a minha alma, conquanto suspeite que assim cantei o Mundo..." (Alma Welt)

"Having registered art and beauty in every step through this life, I am not yet ready to go, and it hurts me to know so close to death. The reason is that I can not conceive more beauty than have been so offered by Fate and also that I built myself during my brief 35 years. As long as the nostalgia of Pampa, this infinite horizon, these glorious sunsets, the memory of my beloved father and no less beloved but difficult mother Azorean, Rodo my beloved brother, my sister Lucia and my faithfuls Galdério and Matilde, the haunted house of memories from long ago, the gauchos and the maids in the vineyard, my garden, my wood, the sacred appletree in the orchard, the well of the cascade ... all that hurts me as a second exile, perpetual pilgrim, I know, I could only sing my soul, though suspect so I sang the world ... "(Alma Welt)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Silêncios com Galdério (de Alma Welt)

"Meu fiel Galdério todos os dias se aproxima da varanda onde estou sempre escrevendo sentada na cadeira de balanço de minha avó Frida, e me pergunta se deve preparar a charrete para o passeio pela estância, como outrora, desde guria. Agora faço isso raramente, pois não quero mais chorar perto deste amigo fiel, e a visão do cenário tão querido das sendas da minha infância com Rodo, nossas correrias e pequenas conspirações... estão por aí em toda parte. Eu respondo: "Galdo, solta a Miranda no pasto, a pobre... E tu, senta-te aquí no primeiro degrau e conta-me de tua infância com Matilde". Ele sorri tristemente, cofia os bigodes e diz: "Ah! Princesa... deixa quieta a infância, a tua e a nossa... elas agora moram nos sonhos da noite... Para quê remexer nesse baú, assim, de dia?" E ficamos os dois em silêncio, muito tempo, ouvindo os pássaros, os latidos dos cães e às vezes uma gargalhada ao longe seguida de uma bravata de peão. E vejo que está tudo certo, o Tempo é impassível e... passa." (Alma Welt)

DESTINO (crônica de Alma Welt)

Matilde, minha fiel bá, já há duas décadas nossa cozinheira, é uma mistura de conselheira, bobo e corifeu desta nossa pequena tragédia familiar. Morreram já a Açoriana (minha Mutti), o Vati (meu pai), Solange, minha irmã mais velha e, Alberto, seu marido bêbado, meu querido e fiel cunhado. Rodo (Rudolf) meu amado irmão jogador de poquer anda pelos cassinos do mundo e quasi não pára por aqui. Na solidão desta estância e seu vinhedo decadente, só amainada pela presença de Matilde e do fiel Galdério, seu irmão e nosso "factotum", eu me consumo em meus pensamentos, crônicas e sonetos e me esforço para não enlouquecer, já que converso com espectros e vago nas noites como uma sonâmbula pelo jardim e pela coxilha em torno do casarão. Somente a Internet prorroga minha lucidez paradoxalmente dando-me a ilusão da comunicação, de ser compreendida e até mesmo de ser amada. Escolhi o meu destino? Tudo é encadeamento de circunstâncias, não cuspirei no prato do meu talento mesmo que ele me leve à solidão e à morte. Tudo é Destino...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Árvore dos Cachimbos (de Alma Welt)

‎"Se não faço uma reflexão profunda e não a lanço no papel, se não produzo diariamente um pensamento que me pareça válido e geral, ou um poema, um soneto, o dia foi perdido... Matilde, minha ex babá, que foi quem me sobrou de ser humano presente e constante ao meu lado, acha inútil e lamenta eu não ter filhos. Eu lhe digo: "Mas, mulher, estou parindo dia e noite!" E ela responde: "Não blasfemes, Alma! Se teu ventre secar sem ter posto no mundo uma criança sequer, serás como uma macieira que não deu frutos, boa para o machado, para fazer cachimbos. O fumo no ar terá mais serventia." Eu estremeço, e continuo a escrever..." ( Alma Welt)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Concerto do rei Mino (de Alma Welt)

"Uma noite, meses depois que o Vati, meu pai, morreu, soprou o Minuano tão fortemente que batia todas as janelas do casarão e zunia pelas frestas das portas fechadas. Ele sempre me assusta, o rei Mino, como eu o chamo... Então, subitamente ouvi o piano do Vati tocando de maneira fantasmagórica, como um... espectro de música, se posso dizer assim, ou como um órgão sinistro... Corri para a biblioteca, era ele! O Vati estaria lá sentado ao seu piano, eu tinha certeza, eu o veria! Mas ao entrar no aposento forrado de livros vi que o piano vibrava e ressoava surdamente, sarcástico, impiedoso! O Minuano usurpara o piano de meu pai! E ria, ria de mim o tirano, de minha dor, de minha saudade!..."

domingo, 20 de novembro de 2011

Minha amiga Anita (de Alma Welt)

Quando chego em casa depois de alguma viagem mais longa, sinto que o Tempo, aqui, na estância, passa de maneira muito lenta, ou simplesmente é imóvel e contém todas as épocas do nosso Pampa, imutável em sua essência. Por isso convivo com os farroupilhas, na verdade seus espectros saudosos de sua glória passada, de sua saga imortal... É claro que já me tacharam de delirante, ou sonâmbula, por me verem vagar à noite no casarão, no jardim, na coxilha. Mas eu lhes garanto que Anita Garibaldi é minha amiga, aparece para mim e me fala de seu amor, de suas aventuras e de sua dor de ter morrido tão longe daqui ou de sua Laguna, conquanto na terra do seu amado Giuseppe, o herói que a tornou também uma heroína de dois mundos... (Alma Welt)

sábado, 19 de novembro de 2011

O Retorno via Livramento (de Alma Welt)

"Uma vez, de volta à estância chegando de viagem, nossa Matilde veio me receber em lágrimas, mas que não eram de alegria. "Minha guria" - disse ela- nosso Rodo foi preso em Monte Carlo! Estava roubando no jogo, eles disseram!" Imediatamente eu soube que era calúnia de perdedores, pois meu irmão era um profissional competente, não precisava roubar. Mas a angústia me subiu ao peito. Eu estava disposta a ir para lá, tão longe... pagar fiança, sei lá! Mas enquanto pensava no que fazer, tocou o telefone. Era Rodo, dizendo: "Alma, estou em Livramento, roubaram meu passaporte em Punta del Este, quando eu pretendia partir para Monte Carlo. Irei para casa, guria, vou dar um tempo." Meu coração encheu-se de alegria, e pela primeira vez agradeci a um ladrão..." (Alma Welt)

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Nota
É curiosa esta estória... sutilmente ela indica que o Rodo realmente roubou, não foi roubado, e estava em " livramento" e não Santana do Livramento. Provavelmente pagou fiança e ainda estava na Europa. E o ladrão que a Alma agradeceu é o próprio Rodo por estar voltando para os seus braços...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Morte do Coveiro Viajante ( crônica de Alma Welt)

Depois da morte do velho coveiro da nossa cidade, que, pobre coitado, morreu na ativa, nunca podendo se aposentar, não houve meios da prefeitura conseguir um substituto, por mais que, abrindo duas vagas, convocasse um titular e um ajudante. Os jovens de nossa cidadezinha não queriam pegar no cabo de uma enxada, interessados que estavam na Internet, nos bailes-funk, e em namorar pelo celular. Alguns poucos defuntos recentes chegaram a ser improvisadamente enterrados nos quintais de suas casas pelos seus familiares. A situação estava ficando insalubre e quando morreu a sogra do nosso prefeito, e esta na espera começou exalar odores suspeitos, este enviou um torpedo para a cidade vizinha não muito maior que a nossa, convocando em caráter de urgência e por empréstimo ao colega daquela outra prefeitura, por “estado de calamidade pública”, o também vetusto e digno coveiro daquele povoado.

Gostaria de poder contar nesta estória anacrônica, que o velho coveiro veio no tremzinho Maria-Fumaça, chegando de madrugada com suas ferramentas embrulhadas em jornais velhos. Mas não havia mais trem e muito menos desse tipo há muito tempo, e nem a linda e singela estaçãozinha, com o nome da nossa cidade escrito. O nosso mestre dos caixões, pás e enxadas, chegou de manhã vindo numa viatura da prefeitura, caindo aos pedaços, que o foi buscar.
Entretanto, acreditem ou não vocês, assim que o velho tinha acabado de abrir a cova para a sogra do prefeito e iam começar os elogios fúnebres e os discursos eleitoreiros, o velho começou a passar mal, a cambalear como se bêbado e caiu fulminado dentro da cova, antes de ter tempo de ao menos baixar o caixão de sua ilustre última cliente. O prefeito não teve dúvidas: exasperado, pediu a ajuda de alguns correligionários e arrastando a braços empurraram o caixão do avantajado defunto para dentro da cova por cima do cadáver fresquíssimo do velho serviçal. Enquanto esses esforçados políticos tomavam afinal a iniciativa de pegar a pá e jogar terra sobre aqueles náufragos, ouviu-se ainda um resto de discurso do prefeito com alusões a um capitão que afunda com o seu navio, e que recebeu movimentos de cabeça aprovativos e até palmas. Estava encerrada a questão. O que não tem remédio, remediado está... cada um que dali por diante se ocupasse dos seus mortos e não aborrecesse mais a prefeitura, que afinal, disse ele, tinha os vivos com que se preocupar. E ainda citou Jesus Cristo num dos Evangelhos: “Deixem os mortos enterrarem seus mortos!”
O que ninguém entendeu, muito menos eu...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Bife (de Alma Welt)

‎"Uma vez, quando eu era guria, brincando perto da casa comecei a ouvir uma música maravilhosa, vinda do piano de cauda de meu pai, na biblioteca. Voltei correndo para dentro de casa, para vê-lo tocando. Joguei-me debaixo do piano onde ele colocara um tapetinho para mim, mas tendo cumprido esse ritual da minha primeira infância, logo coloquei-me a lado dele para ver as suas mãos fortes e ágeis em ação. Tratava-se do Cravo Bem Temperado, de Johann Sebastian Bach. Quando ele terminou eu beijei muito a suas mãos. Ele colocou-me nos joelhos e disse: "Agora... ao Bife Bem Martelado!" (Alma Welt)

Reverenciando os deuses (de Alma Welt)

‎"O jovem padre entrou e foi recebido respeitosamente por meu pai. Eu, guria de dezesseis anos os observava pela fresta da porta, admirada e um tanto excitada, tanto mais que conhecia o agnosticismo do velho, que fizera a experiência de me criar desde pequena como uma pagã para não ser contaminada pela idéia de "pecado", que ele abominava nas religiões em geral. O padre vinha insistir, embora cuidadosamente, que eu fosse finalmente batizada, a pedido de minha mãe, a Açoriana, gravemente doente. Então ouvi meu pai responder: "Padre, isso é uma questão de "foro íntimo". Somente a menina poderá decidir se consente ou não nesse ritual. Mas sinceramente duvido que ela consinta, pois já tem seus próprios e belos rituais naturistas, que ela leva muito a sério".
O padre disfarçou a custo a sua indignação, e apenas pediu que me chamasse à sala. Eu apareci imediatamente, e logo dizendo: "Seu Padre, que bom que o senhor está aqui... gostaria de levá-lo agora mesmo ao nosso pomar onde queimarei as ervas votivas aos deuses, que hoje a lua está propícia e a aragem suave. O senhor vem, padre? Devemos reverenciar os nossos deuses, não é verdade?" (Alma Welt)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

De onde sopra o vento (de Alma Welt)

O peão aproximou-se da varanda sempre olhando para cima e cofiando os grandes bigodes caídos, sinal de pouca reverência... Olhou-me bem nos olhos e disse: "Patroinha, não sei falar de trabalho com uma mulher, mormente quando bonita como um prenda . Não podes chamar um gaucho macho de sua confiança para ouvir umas boas verdades sobre a lida que tenho a fazer e de que não estou encontrando condições?"
Pensei por um momento em chamar o Galdério, mas logo pensei: "Se o fizer nunca mais serei respeitada por este "gaucho" soberbo..." Respondi: "Fale comigo mesmo, ó homem, que esta estância está toda em minhas mãos, goste o senhor ou não."

O gaúcho olhou-me bem, mas de outro jeito; tirou o chapéu de barbicacho e fez uma ligeira reverência. "Esqueci o que me incomodava, patroa. Acho que era só o não saber de onde soprava o vento..." (Alma Welt)

domingo, 25 de setembro de 2011

A carta de um padre francês (de Alma Welt)

"Anos após a morte de Gauguin, foi encontrada uma carta de um padre que tinha sido pároco na colônia francesa do Tahiti. A carta, dirigida ao seu bispo, dizia: 'Hoje visitei um conterrâneo nosso, Monsier Paul Gauguin, um pintor que vivia afastado de nossa comunidade por rebeldia e desavenças e que morava solitário num cabana cercado de seus quadros. Encontrei esse homem em grande miséria, doente e abandonado até pela vahine com quem vivera. Entretanto admirei-me de ver esse homem, tão pobre e desamparado, falar o tempo todo com grande entusiasmo de sua arte." (Alma Welt)

O peão ataviado (de Alma Welt)

O peão ainda jovem, feioso simpático, exuberante, apresentou-se ao meu pai no escritório e pediu-lhe um adiantamento para comprar umas bombachas bordadas e um par de botas novas que ele mostrou numa foto de revista. Meu pai perguntou-lhe para quê aquele capricho todo no dia a dia, e o peão abrindo os braços num gesto largo disse: "Patrão soy um gaucho buenacho, afeito à lida e avesso de peleia. Gosto do truco, vá lá, mas levo dinheiro pra casa. Mas com teu perdão, patrão, olhe pra mim, vê esta cara de bezerro mamão e esta barba rala de barbicacho... Quero ao menos estar assim ataviado, bonito, para aquela deusa que é a minha mulher!" Meu pai sorriu e deu-lhe o dinheiro. (Alma Welt)

Os mistérios da paixão (de Alma Welt)

‎"Quando guria, minha paixão por meu pai e a diferença de universos que tanto eu como ele tínhamos de minha mãe, me fizeram supor e até a acalentar a idéia de que ele mantinha um amor secreto, digamos: uma amante mesmo. Mas então, uma noite, eu, espionando, entrevi pela fresta da porta a paixão com que se abraçaram e beijaram na penumbra do quarto. Até hoje ausculto meu coração para tentar identificar o timbre ou o caráter da emoção que senti. A ambigüidade dos meus próprios sentimentos me fizeram perceber a complexidade humana, e a abandonar o pensamento dicotômico..." (Alma Welt)

Concerto para um velho peão (de Alma Welt)

"O peão tirou o chapéu e entrou no escritório de meu pai que levantou-se para recebê-lo. Era o mais velho dos peões e merecia essa deferência."Patrão, vou-me para o Alegrete, me tratar. Talvez não volte. Vim lhe pedir um favor além do pagamento que o senhor me fará: que o Patrão toque um tiquinho, uma coisita que seja nesse piano de vosmecê, que é coisa nunca vista..." Meu pai, surpreso, sentou-se na banqueta e tocou a Sonata Apassionata, de Beethoven, em honra do velho peão. Todos da casa se aproximaram da porta do escritório, até a Matilde veio da cozinha com uma colher de pau na mão. O velho ouvia de olhos marejados. E não voltaria nunca mais..." (Alma Welt)

A comissão dos ciganos (de Alma Welt)

"Um dia, na estância, meu pai foi procurado por uma comissão de ciganos, pedindo permissão para acamparem próximos do bosque. Eles estavam sendo expulsos de todas as estâncias, e quase não havia mais paradeiro para eles no Pampa. Mas haviam ouvido falar do "Maestro", um estancieiro músico, pianista. Meu pai, notando que um deles trazia um violino, convidou-o a tocar ali mesmo no escritório, de imediato, e reconhecendo um solo de Pablo Sarazate, sentou-se ao piano e acompanhou o cigano em vertiginoso virtuosismo, os dois. Eu, guria de dez anos, fiquei deslumbrada e aplaudi no final, dando pulos. E foi então que no acampamento na orla do nosso bosque eu vim a conhecer a minha linda cigana Rafisa, que acrescentaria mistérios à minha vida..." (Alma Welt)

sábado, 20 de agosto de 2011

O peão e o cacho do meu cabelo (crônica de Alma Welt)

Quando eu era guria nova, na estância, sendo muito curiosa escapava à vigilância da Mutti e saía a andar pela coxilha. Assim, uma tarde entrei pela primeira vez no bosque e me perdi. Um jovem peão que me seguia de longe, montado, encontrou-me e se prestou a levar-me para casa em sua sela. Antes de chegar ao casarão ele me pediu um cacho dos meus cabelos ruivos. Eu concordei e ele cortou com sua faca um cacho que levou às narinas, sorvendo profundamente o perfume que eu não sabia que tinha. Naquela noite minha mãe notou a falta daquela ponta em meu cabelo, e me inquiriu. Eu inocentemente contei à minha mãe o episódio. Nunca mais tornei a avistar aquele peão. Algum tempo depois eu soube que, a mando de minha mãe, sua casinha fora invadida pelo Galdério que recuperou o cacho, açoitou o rapaz e o expulsou da estância. Chorei ao saber disso e Matilde me disse: "Esses cachos rubros ainda farão muito mal a los hombres, Deus te perdoe, minha niña..."

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Facundo (de Alma Welt)

Dentre os inúmeros peões que tivemos aqui na estância, havia um “gaucho” da banda oriental, uruguaio, que se destacou pela competência, mas também pelo temperamento esquivo, confundido com maus bofes. De um modo geral era silencioso e solitário, não se misturava. Bom de laço e boleadeiras, excelente domador de cavalos, não havia garanhão chucro que ele não pusesse o freio em menos de dez minutos, sob aplausos de outros peões, que fora do cercado não o teriam cumprimentado.
Pois bueno, esse peão, Facundo era o seu nome (o “apelido”, sobrenome, eu nunca soube) deveria protagonizar um episódio doloroso de que alguns se lembram ainda com um arrepio.
Por aqui chegou para trabalhar na Sta Gertrudes, uma família de holandeses que tinha uma filha, uma guria loura, rechonchuda, muito guapa embora arredia e tímida, sempre debaixo das rédeas dos pais, que mal a deixavam trabalhar fora da casa, nem mesmo no vinhedo, para não andar por aí. Pois bem, Facundo deu um jeito de se aproximar da prenda e de alguma forma começou um namoro às escondidas. Acontece que a guria tinha um irmão, rapaz alto e louro, espadaúdo e de grossos punhos e manoplas. Certamente havia um grande contraste entre os tipos, vocês podem imaginar: o uruguaio, vagamente sinistro, com seu nariz aquilino e seu rosto sulcado, mal barbeado e moreno, bem latino, ao mesmo tempo arredio e cheio de orgulho, e o aparentemente bronco e enorme holandês louro mal saído da adolescência. Mas o embate inevitável dos dois ocorreria logo, após duas semanas do namoro secreto, que algum peão intrigante testemunhara, alguém que quisera ver o circo pegar fogo.
Assim, na nossa “colina do enforcado”, ou do umbu-rei como a chamo, houve o último duelo por estas bandas desde então.
Diz o nosso querido Galdério, conterrâneo do malfadado domador, que foram chamadas testemunhas uma de cada lado e que tudo deveria se passar dentro das regras que por aqui existem desde antes dos farroupilhas. Mas o fato é que não houve sobreviventes, pois embora Facundo tivesse deixado para trás três mortos (nunca se soube o que realmente ocorreu), ele próprio não foi encontrado senão três dias depois, na fronteira, caído de borco, ainda com a mão no ventre e a do braço estendido mergulhada no Arroio do Chuí.
Ele quase chegara à sua terra, mas segundo consta, deste lado da fronteira alguém chorou por ele. Sua vida de solitário banido não fora de todo desperdiçada...

FIM

sábado, 12 de abril de 2008

Safira, eu e os ciganos (crônica de Alma Welt)

Safira, eu e os ciganos (crônica de Alma Welt)


Na minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai uma vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs fornecia o leite para o nosso café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.
Nessa época, eu já estava empenhada em aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos (com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando, apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati.
Aconteceu que passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque, com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade cujo critério e regras eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram simplesmente baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio.
Curiosa e fascinada por esse povo do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo (romance conhecido popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha de papel, para o acampamento cigano.
Fui recebida entre as tendas e os carroções, logo de saída, por várias gurias de diferentes idades, que me pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar, simultaneamente, numa espécie de confusão.
Entre elas havia uma, de extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria de maneira enigmática, um pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o nascimento do retrato.
Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel me foi retirada e circulou de mão em mão, entre exclamações, risadas e sinais de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada que levantou-se de sua banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto, ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa), sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:

–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para outras coisas.”

Os ciganos já circulavam e dispersavam-se, desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando muito, embora ainda chocada.
Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes olhos que me pareceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o nosso estábulo e voltei puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as manhãs.
Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e tornozelos das gurias.
Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira pirotécnica, virtuosística..
Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra, horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”

E alguém me respondeu: “Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é festa de Santa Sara Kali.”

Dei um grito e desmaiei.

Acordei em minha cama e desatei imediatamente em pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:

–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças, não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”

Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade.
Ao amanhecer fui despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele jeito manso disse-me, pausadamente:

–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.
 
Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.

A Hospedeira, ou Ao sul de mim mesma

Crônica de Alma Welt (1972-2007)

 Quando estou aqui na estância, às vezes me bate aquela angústia, e eu peço para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E ponho minha montaria num galope doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí, já estou muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira sabe sempre retornar, e eu solto a rédea para ela nos conduzir, voltamos a passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite. Entretanto, antes de ontem fui parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas, macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador, com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto bondoso, com uma cara redonda vermelhaça, polonesa ou russa, me acolheu com olhinhos azuis e um sorriso que não se desfez mais. Como é que eu nunca soubera dessa vizinha? Ela me fez sentar à sua mesa e imediatamente, sem nada perguntar ou falar, colocou um prato fundo na minha frente e com uma concha, de um caldeirão, começou a me servir sopa. Eu nada disse, e sempre sorrindo também, comecei a tomar. E era deliciosa a sopa, tomei-a com prazer, acompanhada de um grande pedaço de pão. Ao terminar, agradeci, e ela imediatamente pegou-me pela mão e levou-me a um quarto, que tinha uma acolhedora cama arrumada, com uma linda colcha de retalhos coloridos e um grande travesseiro. Ela fez um gesto de dormir com as duas mãos do lado do rosto, sempre sorrindo. Eu já estava convencida que a boa senhora era muda. Então pedi um telefone, gesticulando como se ela fosse também surda e a senhora me levou de volta à sala, até um aparelho de madeira, antigo, de parede, em que consegui a duras penas ligar para estância, e avisei a Matilde que eu pernoitaria na casa de uma vizinha nossa e que só voltaria de manhã. Matilde quis saber mais detalhes, meio alarmada, mas eu logo desliguei, sem muitas explicações. A senhora então me pegou novamente pela mão, levou-me de volta ao quarto, e de pé diante da cama ela começou a despir-me com desvelo, meticulosa e carinhosamente como se faz com uma guria, uma filha, e estando eu somente de calcinha, ela enfiou-me pela cabeça uma camisola branca bordada, e colocou-me na cama para dormir. Eu permanecia curiosa com tudo aquilo, respeitando e retribuindo a mudez e o sorriso permanente daquela criatura, tanto que fechei logo os olhos enquanto ela apagava a vela, e realmente adormeci. Acordei bem cedinho, com o cantar de um galo, e sentindo-me maravilhosamente bem, repousada e sem vestígio da angústia da tarde anterior. Levantei-me e saí do quarto, de camisola, para ver a minha hospedeira. Não a encontrei. Procurei na casa, em torno dela, no pomar e... nada. Ela não aparecia. Esperei uma hora e... nada. Então chegou a Matilde na charrete, abanando a cabeça e dizendo: —“Guria, tu és doida mesmo. Pensei que se tratava da outra chácara, vizinha, da dona Estela. Lá estive e disseram-me que não sabiam de nada, que não estiveste lá. Que fazes aqui? Não sabes que esta casa está vazia ? A moradora faleceu há quase um ano. Como pudeste entrar e dormir aqui? A casa permanece fechada e deve estar uma sujeira aí dentro. Deixe-me ver. Matilde entrou comigo, viu o prato de sopa vazio ainda na mesa, o caldeirão sobre o fogão de lenha, o quarto com a cama desarrumada, e se pôs mais assombrada. Enquanto eu despia a camisola e vestia minhas roupas, ela dizia, inconformada: —Que estranho, a casa não está suja como eu pensava! Então dormiste aqui, nesta cama,com esta camisola? Quem te acolheu, Alma? Que mistério é esse, guria? Como era a pessoa que te acolheu? Eu descrevi a minha amável e nada loquaz hospedeira, sobretudo sua face “rubicunda”. Matilde empalideceu, fez o sinal da cruz, caiu de joelhos, de mãos postas e começou a tremer. Voltamos na charrete, puxando a Altamira pelo cabresto atrás e tremendo as duas. Meu corpo tremia, sim, mas durante todo o trajeto, meu coração, eu sentia, estranhamente preferia continuar sorrindo.

Réquiem para a Açoriana

(crônica de Alma Welt)


Sendo dia de finados e estando eu aqui na estância, fui visitar o túmulo de minha mãe, que foi enterrada aqui mesmo, no limite do nosso jardim onde começa a pradaria do Pampa infinito. Sempre foi costume dos estancieiros que aqui viveram, muito antes dos meus avós, enterrarem seus mortos, próximos, relativamente do casarão, e desde guria eu gostava de passear por ali, pois misteriosamente o silêncio se tornava maior e se podia ouvir os passarinhos e os insetos, que me pareciam cantar para embalar os que ali dormiam seu misterioso sono. As lápides me pareciam as cabeceiras desses leitos ocultos e eu gostava de imaginá-los deitados, incorruptíveis, como a Bela Adormecida ou a Branca de Neve. Eu chegava mesmo a deitar ali na relva com a cabeça quase encostada na lápide, olhando primeiramente o céu azul e depois fechando os olhos até assustar-me e erguer-me para sair correndo dali. Eu reconheço que isso podia parecer um tanto mórbido, mas creio até hoje que esse meu pequeno ritual infantil não tinha essa conotação, e fazia parte, sim, da minha natureza de sonhadora... romântica, se posso dizer assim.

Mas o que quero contar aqui, hoje, é que sempre notei, ao aproximar-me do túmulo da Mutti, um ramo de flores do campo colocado junto à lápide, em qualquer dia do ano, menos justamente no dia de Finados. Na infância isso não chegava a me intrigar, pois eu pensava que as flores eram colocadas ali pelo Vati, naturalmente. Todavia, quando este morreu, e também ali foi enterrado, eu comecei a notar que as flores não cessaram, e a minha imaginação romanesca foi despertada para um possível enredo oculto, um misterioso apaixonado de minha mãe, Ana, que nunca pude compreender bem... por não ser compreendida por ela. Minha mãe não era o tipo que pudesse ter um amante, bem entendido, mas poderia ter renunciado a um grande amor, pela família, e pelos votos do casamento. Então quem seria esse misterioso admirador ou fiel apaixonado? Comecei a admirá-lo, a esse desconhecido, pois me parecia o protótipo do verdadeiro amoroso, para sempre leal ao seu amor sem fim. Confesso que minha mãe subiu no meu conceito, de alguma forma, com essa possibilidade, pois embora tivéssemos uma grande dificuldade de relacionamento, a possibilidade de minha mãe ser infeliz por renúncia ao seu verdadeiro amor, a tornava por sua vez “romântica”, e justificava a sua infelicidade, que até então me parecera uma injustiça com o deus que era o meu Vati.

Hoje, finalmente, depois de muito tempo que não visitava esse cemitério, e ali procurando os túmulos do meus avós Joachin e Frida , da minha irmã Solange (a pobre assassinada), do pobre bêbado Alberto, seu marido, do Vati, e da Mutti, notei, que as flores sobre o túmulo de minha mãe estavam secas, desfeitas, há muito tempo. Seu fiel cavaleiro havia morrido, não a visitava mais, pensei.

Pela primeira vez chorei não por sua causa, mas por ela mesma.

Por ela, a Açoriana, minha mãe, bela e... infeliz.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Walhalla de meu pai

(crônica de Alma Welt )

Meu pai tocava maravilhosamente Beethoven, entre outros grandes mestres. Ele dizia que Beethoven era o maior de todos, também pela sua qualidade pianística, e me fazia ver que o piano do Mestre não era percussivo, não martelava, mas trinava como o canto de um pássaro, e isso seria a sua característica mais marcante. Exigia, dizia ele, grande agilidade dos dedos, para “trinar” assim ou “gorjear”, principalmente nas notas altas.
O Vati me mostrava , tocando inteiras, a maravilha das sonatas Aurora e Apassionata, que ele me fazia ouvir e ver, como música descritiva mesmo, que eram, e como romântico assumido. Na primeira eu via o sol nascendo no meu pampa e a simples contemplação de sua luz na pradaria em tal glória e magnificência, me fazia chorar de alegria de estar viva e de compreender a beleza do mundo, de maneira consciente, graças ao meu pai, o cirurgião pianista que descobrira a validade de dedicar-se ao piano e à sua filha amada, que era eu, sem sentimento de dever perdido, ou de culpa por não mais exercer a também sagrada missão da medicina.
Eu, hoje, olho o piano de meu pai, o Steinway, na biblioteca, silencioso quase sempre, somente dedilhado ocasionalmente por mim, e por Rôdo, mas sem o virtuosismo e esplendor do toque de meu pai, o último grande romântico alemão por estas plagas, e que agora deve estar ao lado de Beethoven., este com sua audição recuperada, discutindo gorjeios de pássaros e pianos.
E também de Goethe, os três em animada palestra, na eternidade de seu *Walhalla artístico, que meu pai projetou sempre em sua bela vida, contemplativa, aprazível, sem culpa...

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Nota da editora

*Walhala – Grande salão, ao ou sala do trono do deus Odin, da antiga mitologia germânica e dos Vikings escandinavos, em que os guerreiros renascidos como tal na eternidade, por prêmio de bravura, reuniam-se para planejar ou comemorar com as Walkírias ( formosas deusas guerreiras) em grandes orgias, as vitórias nas infinitas batalhas da imortalidade gloriosa.

Alma imagina um Walhala dos grandes artistas, verdadeiros heróis da Arte, que ali se reuniriam para palestrar em alegre e eterno convívio. (Lucia Welt)

Alma e o lobo






                                      Alma e o lobo- óleo s/tela de Guilherme de Faria, 150x150cm 

                                                 Alma e o lobo
 (dos Contos Pampianos de Alma Welt) 

 O Pampa sempre foi para mim uma caixa de surpresas. O elemento insólito está presente no meu cotidiano, embora essa impressão não seja compartilhada pelas pessoas que me cercam, a quem a monotonia do cotidiano é especialmente cara. A passagem muito lenta das horas e dos dias, e o vento constante, os embalam numa doce e aconchegante existência pressuposta, ou melhor, previsível, que lhes dá segurança, mesmo ao mais valente peão, macho, laçador, e contador de vantagens. Mas vou lhes contar, meus queridos leitores, a pequena aventura que tive aos dezessete anos, quando passeava sozinha pela minha amada pradaria, um tanto distante do nosso casarão. O dia estava magnífico, era primavera e as florinhas do campo me atraíam para cada vez mais longe à medida que as colhia fazendo um farto buquê, pousado em meu braço esquerdo. Então, subitamente me veio aquela vontade de ficar nua, que vocês já conhecem e que aparece em mim sempre que me vejo só. Ultimamente me ocorreu que isso acontece justamente por causa de vocês, meus leitores. Devo ser uma exibicionista... Uma vez despida, com meu vestido longo abandonado sobre a relva, eu continuei a caminhar com uma nova volúpia, que me era tão conhecida e que para mim sempre rimava com o ato de colher flores, e de coroar-me com elas, pensando talvez na deusa primavera do quadro de Boticelli, embora, no quadro do Ufizzi, ela esteja vestida de maneira diáfana. Foi então que aconteceu. De repente, senti uma presença atrás de mim, e voltando-me topei com a maravilhosa figura de um lobo guará, fulvo, de longas pernas, rosto de raposa, e olhos quase doces, embora atentos. Fiquei imóvel, encantada, e por alguma razão, sem medo algum, estendi lentamente o braço para ele, girando mais lentamente ainda a palma da mão para cima num gesto de convite, que ele acompanhava atentamente, não sei se temeroso, ou simplesmente curioso. Então permaneci muito tempo nessa posição, imobilizada, com a respiração lenta e suave, que depois eu entendi, era o motivo da aproximação, da atração que eu despertara no animal. A ausência de medo em mim o atraíra, também sem medo, senão confiante. Minha beleza muito alva... não, não falarei nela. Seria ir longe demais nas conjeturas. Foi então, que o mais surpreendente se deu. O guará se aproximou lentamente com o pescoço estendido, com passadas quase felinas, e ergueu o focinho para cheirar a minha mão, que eu supunha, recendia à flores. Meu coração acelerou-se ligeiramente, e meu seio palpitou, ofegante de emoção em que me vi, afinal, com aproximação de seu focinho negro e de sua boca, de minha alva e delicada mão. O belo animal, a farejou e, acreditem, deu-lhe uma única e doce lambida! Depois aproximou-se mais ainda, enquanto eu me curvava para ele e... auriu os meus seios! Minha emoção então atingiu o auge, mas numa alegria que me acompanharia por muito tempo. Ele se afastou, a seguir, dando-me as costas, e partindo num trote tranqüilo, enquanto eu o seguia com o olhar, muito tempo, até ele sumir no horizonte. Procurei meu vestido e com uma sensação de plenitude, como... de uma noiva após as bodas, voltei ao casarão, para contar somente ao Rôdo, a minha aventura. Mas, no caminho, com um sorriso, me ocorreu que nem ele, o amado irmão de minha alma, acreditaria nela. Ah! Pampa, pampa de minha vida! O quê, de mais belo, me reservarás?

FIM

30/10/2005 
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E o lobo veio a mim 
(dos Contos Pampianos, de Alma Welt) 

 Matilde foi a primeira a dar o alarme. Tinha um lobo guará rondando o nosso casarão, e havia sumido uma galinha. Logo foram encontradas suas penas e outros vestígios de devoramento. Imediatamente me pus em defesa do lobo. Devia ser o meu guará, eu o conhecia, sim, só podia ser ele. Quem leu a minha crônica (dos Contos Pampianos) “Alma e o lobo”, que coloquei há uns meses aqui no Recanto, sabe do que estou falando. Meu querido lobo, aquele que farejou a minha mão e... o meu seio nu. Ele era meu desde então! Que ninguém tocass nele! Matilde abanou a cabeça, dizendo: –Alma, Alma, agora essa! Atraíste o lobo para cá, não é? Com o teu cheirinho, princesa? Só tu mesma, guria. E agora como vamos fazer para proteger as galinhas? Eu disse: –Matilde, nem que o lobo comesse o galinheiro inteiro! Ele é intocável, não sabes? Ele é um animal magnífico, raro e defendido pelo Ibama. Já ouviste falar disso, cumadre? (eu chamo Matilde de “cumadre’, quando quero censurá-la).
 –“Ibama ou não Ibama, afasta o lobo da tua cama”, diz o povo, sabias? 

(Matilde era rápida e sempre admirei o seu dom de improviso. Desta vez foi admirável, pois era evidente que ela inventou aquilo na hora, e eu caí na gargalhada, abraçando-a ). Matilde sentiu inconscientemente a alegoria daquele lobo rondando a Alma aqui, desde que contei a ela, há meses, o episódio a que me referi. Eu agora devia afastar o lobo ou domesticá-lo. Isso! Seria possível? O guará é tímido demais, e tido, por isso, como animal covarde, arisco, que nunca se aproxima dos humanos. Pobre animal. Ainda assim responsabilizado como predador de ovelhas e galinhas foi quase dizimado e está em vias de extinção. Galdério e uns peões já falavam em caçar o bicho e eu percebi a animação dos “machos” quando se trata de caçar um “predador”. De igual para igual... E eu tinha, pois, que salvá-lo. Eu declarei:

 –Que ninguém ouse matar esse animal. Vai ter que se haver comigo. Ele é meu! Veio me procurar e só comeu uma galinha porque está com fome e ela estava no seu caminho. Vocês vão ver: esta noite eu o esperarei na pradaria, no limite do jardim. Vou fazer serão ali, vou fazer fogo, levarei chaleira, bomba, cuia e mate, e ficarei sob o meu pala, se esfriar. Ninguém se aproxime... vou conversar a sós com o meu guará .

 Matilde só abanou a cabeça, e Galdério tocou a aba do chapéu, como quem acata uma ordem. Tudo certo. Naquela noite eu fiz o meu “fogo de bivaque” e tomei meu chimarrão, esperando meu lobo. E, como eu acreditava, ele veio. Aproximou-se lentamente, os olhos brilhando tão intensamente no escuro, que a princípio tive medo, pensando tratar-se de um outro, feroz, lobo-mau mesmo. Mas a curta distância, quando eu estava prestes a vergonhosamente correr (ó mulher de pouca fé) eu o reconheci. Em lágrimas de alegria estendi os dois braços para ele, que ficou muito tempo parado, me pareceu, depois se achegou lentamente e deixou-me tocá-lo. Eu acariciei sua cabeça, seu pescoço, seu lombo. Ele deixou, imóvel. Então eu o abracei, sua cabeça junto ao meu seio. Ele fechou os olhos profundamente e eu... tive uma imensa alegria, mista de ternura, um êxtase tal que se confundiu com um orgasmo... da alma. Depois eu beijei o seu focinho, ele lambeu meu rosto como um cão fiel e amoroso. Eu tinha ganho a minha noite, o meu dia, o meu mês. Que digo? Meu lobo me consagrara no seu Pampa, príncipe das pradarias que ele é, apesar da injusta fama de covarde e ladrão de galinhas. Ele era o meu príncipe. Ai de quem ousasse fazer-lhe mal! Não foi preciso dizer isso quando voltei para dentro da casa, com todos me esperando. Meu olhar, meu corpo, meu aspecto diziam tudo. Nunca mais tocariam no assunto de caçar um lobo.
 E as espingardas não saíram das paredes...

FIM

 27/02/2007

domingo, 23 de março de 2008

As gêmeas (de Alma Welt)


Detalhe do túmulo das Gêmeas


As Gêmeas
Crônica de Alma Welt)

Eu costumava descer a rua que ladeava o cemitério, observando apenas os ciprestes que se erguiam por trás dos longos muros. Sempre sinistros, os ciprestes...
Mas, naquela tarde, acompanhada de Ana, resolvemos fazer o caminho por dentro. Um passeio, isso mesmo, minha querida Ana...
Dentro dos muros, andávamos pelas alamedas a esmo olhando distraidamente os túmulos e mausoléus de uma feiúra acintosa. Pomposos. Alguns megalomaníacos mesmo, vocês sabem.
De repente, Ana se lembrou de algo. Ficou estranha e pôs-se a procurar, a rastrear alguma coisa na memória, eu diria mesmo a farejar. Eu seguia intrigada o seu olhar atento e seus passos rápidos no meio do labirinto. Ela parou diante do que, à primeira vista, pareceu-me uma parede negra.
— Alma, veja!, ela me disse com o olhar ardente. Decifre isso.
Era um muro de granito negro, polido, de uns dois metros de altura por vinte centímetros de largura. Liso, sem entalhes, nem enfeites, mas sobressaía-se uma estátua (uma escultura, melhor dizendo) de bronze, encostada numa das extremidades. Representava uma menina de seus doze anos, belamente esculpida, num estilo realista e moderno ao mesmo tempo, simples, sem planejamentos complicados, mas lisos de suaves pregas verticais. Incrivelmente viva como uma expressão de ansiedade eufórica, de expectativa confiante, quase um sorriso, os olhos muito abertos. As mãos encostadas nesse muro, paralelas ao corpo na altura de seus braços estendidos para baixo. Tudo indicava a atitude de espera ansiosa, uma brincadeira, talvez.
Do outro lado do muro negro, uma outra estátua, idêntica. Mas, noutra posição análoga, representando a mesma personagem com as mãos a altura da cabeça, de perfil, os joelhos dobrados em semi-genuflexão, o ouvido colado à parede, o mesmo olhar arregalado de tensão jocosa. Um olhar flagrante imortalizara o momento das duas pequenas brincalhonas e felizes. Idênticas, idênticas.
Na extremidade vazia do muro, uma pequena placa de bronze com versos inscritos em relevo fundido, em italiano, tirados de A Divina Comédia, que falavam vagamente de um reencontro nas estrelas...
Bem, o caso quase se oferecia, sugestivo, mas ainda um pouco misterioso.
Fui imediatamente, acompanhada por Ana, procurar o zelador do cemitério. Encontramo-lo, um velho de grandes bigodes de foca, plantando flores num túmulo a cem passos dali. Ele olhou-nos com olhos perscrutadores, azulados, gastos e respondeu às nossas perguntas com um sotaque italianado.
— Ah! Ah si, si!... Qüela tumba lá... Molta gente me pregunta. Qüilo desperta molta atençó. Si trata de due gêmela de l’inicio del sécolo. Uguale, uguale... que giocavam de esconde-esconde, nel silenzio da sala di musica, pega-pega, que sê io... Naquelo ‘nervo’ que ficaro, esperando, espreitando, de repente s’incontraro cara a cara e caíro morte le due, fulminate di susto, di alegria, qui sê io... Alora estan aí giocando per sempre gracie a uno escultore maluco e gente como voi, curiose. No sê no, si la famiglia...
Imediatamente, configurou-se-me toda a estória das duas meninas gêmeas idênticas, necessariamente belas, puras como lírios, que viviam sempre juntas, não precisando separar-se nem por um segundo, pois a simbiose era absoluta, a ponto de falarem, rirem e se espantarem ao mesmo tempo sempre. Alegres, sim, muito alegres, sempre brincando, dando-se as mãos para caminharem, para sentarem, até para se pentearem mutuamente com a outra mão. Vestidas rigorosamente iguais, pois o menor detalhe, se diferente, seria como uma ruptura e as poria em súbito choro inconsolável até que se arrancasse o adereço ou se lhes trocasse imediamente a peça.
As pessoas, adultos ou crianças, que as viam pela primeira vez, esfregavam os olhos no primeiro momento ou sentiam ligeira vertigem. Os mais sensíveis tinham uma leve e súbita dor de cabeça.
É como se eu as conhecesse desde sempre. Dupla ânima, Reflexo do reflexo infinito da alma, necessárias como um momento de reflexão.
Seus pais tiveram a sensatez de dar-lhes um único nome ao nascerem. Por que haveriam de insinuar qualquer diferenciação? Sofia e Sofia, enfatizando a sabedoria inquestionável do Criador.
Não poderiam jamais crescer, tornarem-se moças, pois casá-las seria profaná-las na separação. E um só noivo... inconcebível, infelizmente.
Deveriam partir, imortalizadas, no granito e no bronze de um artista que se comovera, meditando longamente sobre a dupla visão que é dada ao homem sobre o Real.
Agora estão brincando eternamente na grande e misteriosa Sala do Piano de Deus.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O padre

(dos Contos Secretos, de Alma Welt )

Também tive meu período de religiosidade cristã, católica, na adolescência. Como o Vati me criara praticamente como uma pequena pagã, por influência dos deuses e mitos que me dava a conhecer desde pequena (embora eu tivesse sido batizada por absoluta exigência de minha mãe), eu tinha, na verdade, a opção, e portanto me sentia livre para escolher. E essa escolha era sazonal, essa é que era a verdade.
Sendo assim, eu exercitava o lado místico da minha alma, com um ardor ingênuo, afinal, imaginando-me freira, no futuro, noiva de Cristo, o que, na verdade, eu pensava em termos quase eróticos.
Pus-me a confessar-me, quase todos os dias, para comungar, com volúpia, imaginando-me engolir um deus, o que meu pai me explicaria como sentido etimológico da palavra “entusiasmo”.
Eu inventava “pecadilhos”. Pois a minha imaginação não concebia grandes faltas, pecados, muito menos “crimes”. Mas, em compensação, eu era bastante convincente, com minha imaginação literária, de poeta.. E, como sabem, a poesia é o que há de mais verossímil, quando verdadeira, vinda do “imo”. Assim, eu inventava ou vivia em imaginação e coração, pequenos enredos interessantes, curiosos, e até misteriosos, para o pequeno padre, jovem, da nossa paróquia, a quem me confessava, deixando-o perplexo, confuso, eu percebia.
Uma manhã, estando aparentemente compungida e fervorosa, ajoelhei-me diante daquele confessionário, fechado, escuro, cuja treliça muito fechada não permitia ver o rosto do meu confessor, o que de certa forma tornava o ato mais interessante, mais instigante para mim, com aquele silêncio sem rosto que se manifestava mais eloqüentemente que as falas do jovem padre.
–Padre, eu pequei. Amo meu irmão, e dei-me a ele desde os sete anos. Agora não posso mais amar outro homem, e anseio por ele, que voltou a tomar-me todas as noites, em meu quarto, em meu leito. Ele é adolescente, como eu. Dei-lhe minha virgindade há muito tempo, mas temo engravidar, pois... ele me possui como um homem, agora, muitas vezes. Padre, tenho mêdo.
–Minha filha–(disse o padre com os cabelos em pé, eu imaginei, atrás da treliça)–o que é isso? Como podes falar assim? Então só temes isso? A gravidez? É isso que temes? E a Deus, não temes? Ambos estão em pecado mortal, gravíssimo. O pecado do incesto, outrora punido pela lei secular, com a morte. Não vês, criatura, que se não parares e te arrependeres, queimarás no inferno? Eu te dou como penitência, duas mil Ave Marias e mil e quinhentos Pai Nosso. E ainda assim , não sei se mereces perdão...
Comecei a chorar, voluptuosamente, imaginando-me arrastada em praça pública, sob ameaça de apedrejamento, a lapidação dos hebreus antigos... e um calor tomou-me o corpo todo.
–Padre, farei o que me mandares. Mas meu corpo tem um estranho calor, ali, embaixo, e não consigo dominá-lo. A felicidade que me toma o coração quando estou nos braços do meu irmão, me deixa mole, e eu não consigo reagir, rechaçá-lo. Hoje à noite, mesmo, ele me procurará, e sei que não resistirei quando ele puser suas mãos em mim. A felicidade, padre, a felicidade, então, é sinal do pecado?
—Alma, cala-te, tentadora. Cala-te e reza. Não vês que é o demônio que te sopra essa felicidade? Ela é falsa, ela é filha da luxúria. Essa felicidade como chamas, é a máscara do Demônio, seu supremo ardil. Cala-te e reza, pecadora!
–Padre (eu solucei), eu tentarei, eu tentarei, mas não podes me absolver, por hoje, e dar-me a comunhão?
–Não, não, mil vezes não. Estás em pecado, e não me convenceste de teu arrependimento. Pensas enganar teu confessor? Pensas enganar a Igreja? Pensas enganar a Deus? Sua pequena Messalina. Terás de sofrer, isso sim, para te arrependeres. Não vejo remorso em ti. Estás bela demais, esfuziante. Eu te vejo daqui, através destes furos. Tua pele alva brilha, teus olhos verdes brilham, não vejo sofrimento em ti. Estás iluminada pelo fogo de Satã, e não confio na tua confissão. Pensas que a Igreja é tola,. que podes manipulá-la. Fóra, pequena Jezebel!
Saí dali, fazendo o sinal da cruz, envergonhada e confusa. Eu fora longe demais, eu superestimara minhas forças, meu poder de sedução, e brincara com coisas sérias, agora eu via. Eu, uma simples adolescente, conseguira escandalizar um padre. Poderia confiar no seu voto de sigilo? Tive um ligeiro estremecimento de medo.
Passei uma semana sem voltar àquele confessionário. Mas também não rezei aquela penitência milionária. Eu me desconhecia, um sentimento estranho, de rebeldia, tinha sido cutucado em mim, e levantava-se como uma tendência ao desafio. Eu considerava-me imune ao pecado, acreditava na inocência primordial do ser humano, na minha própria inocência. Eu nunca poderia ser cristã, na verdade. Não acreditava no pecado, e tinha, sempre tive, um secreto orgulho do meu amor por Rôdo, que considero sublime. Eu não voltaria a ajoelhar-me.
Mas eis que veio a notícia, que abalou toda a paróquia da vila: o jovem padre suicidou-se, uma noite. Foi encontrado pendurado na corda do sino com o badalo amarrado, estrangulado, quero dizer... Foi encontrado um bilhete a seus pés, que o pequeno sacristão escondeu, e me mostrou:
“ Sou pecador, danado para a eternidade. Meu coração me traiu, meu coração me traiu, meu corpo e alma me traíram. A alma, a alma envenenou meu coração, com um amor pecaminoso. Deus se compadeça de mim, que estou no Inferno!”
Dei um grito e cobri meu rosto. Eu era culpada, afinal.

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29/09/2004

A absolvição da Alma

(crônica de Alma Welt)


Há uma pequena aldeia entre a minha estância e Rosário do Sul, que não citarei o nome, e de que me tornei, inadvertidamente “persona non grata”. Eu contei na minha crônica ou conto “O padre” (que coloquei há tempos aqui no Recanto) o suicídio de um pobre jovem padre, meu confessor. Acontece que o padre que o sucedeu, não menos fanático, não tardou a me responsabilizar e fez de tudo em seus sermões para insuflar a população contra mim, de forma disfarçada e alegórica, quando não direta mesmo. Uma vez, ainda naquela época, não me deixou entrar na igreja, praticamente me expulsando, com o dedo apontado para mim, como um anátema, chamando–me de "Jezebel". E eu era somente uma adolescente!
Bem, os anos passaram e eu raramente piso lá desde então.
Recentemente, fui com Matilde visitar parentes seus, resolvi entrar na igreja e fazer uma oração. Então vi um padre desconhecido que entrou, para preparar o cálice e os paramentos para a missa das seis, talvez por falta de um sacristão. Olhou-me com curiosidade, e eu, tendo gostado da sua fisionomia, me aproximei e disse:
–Padre, eu moro numa estância, longe daqui, e preciso me confessar. Poderia fazê-lo agora? Com o senhor?
O bom padre disse com ar compassivo:
–Sim, minha filha, pode, venha ao confessionário. Mas o que pode uma moça como tu, com esse olhar límpido, ter cometido que ofenda o Senhor?
Gostei de ouvir aquilo. Eu estava em boas mãos, e achei que não seria condenada depois de tanto tempo... Ajoelhada, ele lá dentro, comecei:
—Padre, cometi um pecado grave, há anos atrás. E não me penitenciei, na verdade só sofri. Foi com o padre Ramiro, quando eu tinha dezessete anos, Quero dizer... eu confessei coisas sem arrependimento verdadeiro, a respeito de minhas relações com meu irmão, como bravata, para provocar o pobre padre, que era fervoroso mas intolerante, ao meu ver. Que sabia eu da vida? Era uma guria tola, isso sim, embora não fosse má, queria afrontar o mundo e não sabia como.
–Eu entendo, entendo, minha filha. Mas conte-me somente os fatos, deixe que eu tire minhas próprias conclusões. Deus está vendo o teu coração. Prossiga.
–Bem, padre, eu atormentei o bom padre, que era jovem, com uma confissão impenitente, e ele me expulsou do confessionário e da igreja. Depois de uns dias, foi encontrado enforcado, pendurado na corda do sino da igreja, e deixara um bilhete, estranho, cujo conteúdo me foi revelado pelo coroinha, que era meu amigo. O bilhete de suicida fazia uma dúbia menção à “alma” que “envenenara o seu coração com um amor pecaminoso”. Não tardou o conteúdo do bilhete a vazar para a cidade, e eu fui expulsa da igreja durante uma missa pelo padre que substituiu o infeliz. Depois a própria cidade me rejeitou e eu passei anos sem vir aqui. Agora o episódio parece esquecido, embora eu note alguns olhares, e como aparecem mulheres mais velhas nas janelas quando eu entro na aldeia. Mas não é isso que me incomoda, padre. É que ficou um pequeno peso, cá dentro do meu coração, que me impede de ser feliz, como eu desejo.
–É lógico, minha filha, nem poderia, tu não foste absolvida e nem te perdoaste a ti própria, embora tenhas aparentemente te arrependido. Demoraste demais e sofreste por isso. Vou tomar como penitência esse sofrimento que chamas de “pequeno peso” em teu coração. Vou absolver-te, mas terás que rezar trinta e três Ave Maria e trinta e três Pai Nosso, em memória do padre Ramiro, e encomendar uma missa por sua alma. Agora vai, minha filha, com minha absolvição em nome de Deus e minha benção. Mas não peques mais.
E eu, que nunca fora batizada, e até aquele dia me considerara uma pagã dos antigos tempos, levantei, mais leve, e fui acender uma vela à Santa Maria, e rezar a penitência. Então, comecei a chorar, chorar, de alívio e gratidão. Não se pode brincar com as mentes e os corações alheios. É muito grave. Mas eu tinha sido perdoada por outro ser humano, e certamente também por Deus. Poderia agora me perdoar também.

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Nota:
Se o leitor quiser conhecer melhor o episódio da adolescência da Alma que gerou os fatos narrados nesta crônica, sugerimos que leia o conto entitulado "O padre".

terça-feira, 18 de março de 2008

O piano negro... o carro vermelho

(crônica de Alma Welt)

Eu me aproximava, naquela manhã, do casarão, voltando das minhas incursões ao bosque e à campina. Eu trazia amoras silvestres e pequenas flores, algumas sempre-vivas para pòr no meu quarto. Foi então que ouvi o piano do Vati. Mas... ele havia morrido há três meses! Corri para a casa, atravessei a soleira e fui direto para a biblioteca. Lá estava o piano deserto. O Steinway de meu pai. Mudo, negro, solitário. Soltei um longo gemido. E chorei, chorei.
Como viver sem o meu Vati? Como conviver com as suas lembranças, sem doer, sem doer tanto a sua barba, o seu cabelo branco, as suas mãos fortes e sensíveis? Meu pai era o poderoso Zeus, talvez Odin, talvez os dois ao mesmo tempo.
Lembro-me de que Rodo se comportou com grande contenção e dignidade o tempo todo na doença e na morte de nosso pai, enquanto eu estava próxima do delírio trágico e do escândalo. Eu rasgara as minhas roupas e arranhara os meus seios nus em público, enfiara as unhas na terra e a jogara sobre a minha cabeça. Eu uivara como uma loba. Rodo precisou me dar um tapa no rosto. E eu vi o que é ser homem, como é forte, difícil, como é poderoso ser homem! O que sei eu deles? Nada, o universo masculino... Eu o sei como aos livros, como eterna espectadora do teatro da vida. Expressão literária, bah!
Mas eu não sabia e não sei viver sem a força de meu pai, sem seu piano interpretando a minha vida, meus sentimentos mais profundos de cada período, manhã, tarde, noite. Como viver sem essa trilha sonora perfeita? Eu me sinto agora num filme mudo, extemporâneo. E sou a grande canastrona, de gestos estudados talvez, e de boquinha pintada em forma de coração sobre a minha grande boca chorona. Estou imitando a vida e preciso agora da Internet como quem precisa de uma câmara de manivela. Eu aceno a vocês, ó do Recanto, aqui, atrás da lente, como de um aquário, onde escasseia o oxigênio de uma água viciada.
Toca o telefone, eu corro. Apesar de tudo eu corro, filha incorrigível da esperança. É Rodo chegando! Ele veio! Ele está próximo, vem voando no seu carro vermelho. Meu irmão me salvará de mim mesma!
Por hoje não enlouquecerei...

Minha avó Frida

(crônica de Alma Welt)

Ontem subi ao sótão do nosso casarão para “fuçar” um pouco, talvez descobrir alguma curiosidade acerca da história da família, desde pelo menos meus avós. E realmente encontrei. Velhas fotos do meu avô Joachin em uniforme de soldado da primeira guerra mundial (pela data atrás, e ele viera para o Brasil antes da Segunda Grande Guerra ), com fuzil na mão e tudo. Mas já tinha um olhar duro de nazista, Deus o perdoe. E... de repente, uma foto da minha avó Frida, jovem. Aliás, só a reconheci por uma certa semelhança comigo, e pelo nome atrás. Ela era linda! Jamais pensei nela assim. Eu a conheci como uma velha curvada, de aspecto plebeu, enorme nariz adunco, desdentada, queixo proeminente, grotesca, de cabelos brancos longos e soltos, como as velhas burguesas não usam, e que lhe davam ares de bruxa medieval, de gravura de Dürer ou de Hans Baldung Grien. Ela sempre me fascinara, como tal. E agora esta! Ela fora linda na juventude! Bem, ela só ficara com aspecto de bruxa, mas não era má, ou não dava essa sensação depois do primeiro contato. Ela era divertida e ria muito, aliás, gargalhava: uma casquinada muito fina, que reforçava a idéia de uma feiticeira picaresca. E ainda por cima ela contava estórias anedóticas, de estranho humor satírico. Eu adorava isso. Já recontei algumas estórias dela dentro do meu romance “O Sangue da Terra”, no capítulo chamado “O Condestável Gottfried” que coloquei aqui no LL, há meses.

Pois bem, ao vê-la assim, jovem, esplêndida, eu procurei naqueles olhos doces da fotografia, aquela luz pícara, a malícia que ela transmitia nas suas estórias. E... encontrei! Estava lá. Bem... eu sei que tudo isso é muito subjetivo, imponderável, e... impossível de conferir. Quem poderia prever, pelos olhos, a futura bruxa de amanhã?

Olhei-me imediatamente ao espelho.

A professora Daisy

(crônica de Alma Welt)



Recebi um e.mail de uma professora de do primeiro ciclo (ginasial) que tendo percebido que seus alunos, principalmente as gurias, entravam no meu site para ler meus “textos eróticos”, estava preocupada, pois , segundo ela, as meninas estavam ficando praticamente viciadas e havia burburinho no pátio e nos corredores, de comentários e risinhos maliciosos. . Diante disso ela, a professora Daisy (vou chamá-la assim ) descobrira através de uma delatora o endereço do meu site e entrara para conferir a periculosidade dos textos que estavam causando tal alvoroço.

Dona Daisy não me pareceu uma pessoa particularmente intolerante ou moralista fanática como poderia ser. Ao contrário, me pareceu bastante ponderada. Dizia na sua carta que se surpreendera com qualidade literária dos meus textos e gostara mesmo de alguns sonetos, crônicas e cartas. Mas, ponderava ela, os textos eróticos justamente por serem bem escritos eram aliciantes e influenciavam as garotas. Havia um elemento incestuoso que chocava, embora descrito com lirismo, etc. Perguntava se eu não poderia retirar esses textos do site, ou... reformá-los, já que estavam alvoroçando os jovens da sua escola.

Eu imediatamente respondi enviando-lhe um e.mail dizendo que eu consultara o meu próprio coração e que não podia fazer isso. Minha consciência de artista não me permitia voltar atrás. Eu me expusera conscientemente e de coração limpo, que não havia pornografia nos meus textos e que, sendo assim, não havia, como a palavra indica, sujeira. Logo, não poderia fazer mal aos guris os meus textos. Pelo contrario eu os fazia ver a beleza do sexo livre e explicito. De maneira positiva eles aprenderiam a diferença entre erotismo e pornografia..

Dona Daisy respondeu numa segunda carta, argumentando entre outras coisas o seguinte: sim, ela reconhecia que meus textos não eram pornográficos, e que estava ela mesma fascinada por eles. Mas percebia que estavam aumentando os casos de namoros entre as garotas. Isto é, garotas com garotas. E que já presenciara beijos na boca, “selinhos” entre elas , e até mesmo beijos mais ardentes, garotas de mãos dadas pelos corredores e pelos pátios. E que atribuía esse comportamento à influência de determinado texto meu, pois encontrara copias xerox desse conto entre os cadernos e livros de algumas alunas. Dona Daisy me perguntava se eu tinha consciência de que estava induzindo as jovens ao lesbianismo.

Desta vez respondi um pouco mais exaltada: “Dona Daisy , deixa as tuas alunas lerem, se excitarem, amarem e experimentarem. Nada do que fizerem não estava já dentro delas. Tuas alunas que se beijam , já se beijavam escondidas. E aquelas que não o fazem, provavelmente não o farão nunca. Trata-se de tendências naturais. Não tente impor a lei seca, Dona Daisy! As gurias são molhadinhas de nascença.

Dona Daisy, infelizmente sumiu da minha caixa de e.mails, justamente quando a nossa polêmica estava esquentando e eu estava ficando empolgada.

Mas algo nas suas cartas me faz supor que ela continua lendo meus textos e que ainda terei notícias dela.

sábado, 15 de março de 2008

A Peregrina

(crônica de Alma Welt)

Hoje, domingo, acordei com o som de uma trombeta, ao longe, e saltei da cama, desperta e eufórica. Corri para a pia do meu banheiro e joguei água no rosto, apressadamente escovei os dentes e os cabelos, enxuguei o rosto, e sem tomar a minha ducha, vesti um vestido folgado pela cabeça, sem calcinha, calcei minhas sandálias e desabalei pelo jardim, correndo em direção ao bosque. Eu ia tomar o café da manhã com Rafisa! Minha amada cigana Rafisa estava lá, me enviando a nossa senha sonora.

Ali, na beira do bosque, de longe ainda a avistei ao lado do seu carroção estacionado, com sua saia longa sarapintada, acocorada ao lado de uma fogueirinha com uma armação onde fumegava uma chaleira.

Cheguei gargalhando diante dela já erguida de braços abertos, e rodopiamos agarradas e aos gritos de alegria. Minha linda cigana! Que deslumbramento quando ela vem!

Rodamos tanto que caímos sobre a relva, aos beijos, ávidas de nossos carinhos. Logo estávamos de mãos dadas entrando pela parte traseira do carroção para nos possuirmos sobre seus tapetes caucasianos entre os almofadões. Eu a despi, beijando cada parte descoberta e quando cheguei no seu ventre moreno, encontrei-o um tanto proeminente. Minha Rafisa estava grávida! Toquei-a, acariciei sua barriga e seu púbis crescido, sua ampla vulva alongada. Ela toda se preparava! Eu estava perplexa. Então ao retirar-lhe a blusa bordada, reparei em marcas nas suas espáduas, no seu lindo torso, outrora sedoso, agora marcado, lanhado, cicatrizado. Encarei-a tremendo, ofegante, e perguntei-lhe:

–Rafisa, o quê é isto, quê fizeram contigo?

E ela respondeu depois de um silêncio:

—Foi um teu vizinho distante, o estancieiro Rafael Contardo, que mandou me açoitar.

–Rafisa! Como! Que dizes? Ah! Aquele canalha! Como foi isso? Por quê, Rafisa? Que horror!

—Eu tinha, numa vez anterior, em sua estância, lido a sua sorte e tendo visto isso disse a ele que a mulher mais importante de sua vida ia deixá-lo. Ele ficou abalado e foi trancar a mulher em casa. Pouco depois a sua filha, guria de 18 anos, fugiu de casa já que ele estava concentrado vigiando a mulher, e foi para Porto Alegre, de onde sumiu, presume-se que foi para São Paulo ou Rio, talvez para o exterior. Sem saber de nada, quando passei de novo por lá, depois de meses, ele me aprisionou, com dois capangas, me desnudou e amarrada num umbu mandou que me açoitassem. Em seguida, eu quase desmaiada, ele ordenou aos seus homens que me violassem. Eles fizeram isso, apesar de meus gritos e maldições, por muitos minutos intermináveis, revezando-se, enquanto o Contardo observava e ria. Depois me arrastaram, me jogaram no carroção assim pelada e chicotearam minha égua que saiu desabalada, sem rumo. Agora, passados meses, estou assim, embuchada, e não sei de qual dos dois peões estou prenha. Mas tanto faz... a criança, o inocente, é bem vindo e não saberá nunca o pai que nem tem. Não chores, minha Alma, não estou infeliz, pelo contrário...

Eu chorava e chorava, acariciando a sua barriga e beijando, beijando aquela criança, a ciganinha que nasceria e que eu gostaria de criar junto com a minha Rafisa, sim, por essas estradas, desse Brasil sem fim, tão cruel às vezes, mas que era nosso, mais dela do que meu, peregrina e vidente que ela era dos destinos alheios, alheia ao seu próprio triste e belo destino.